6 de fevereiro de 2019

Nem calçada me resta



Não, não sou dono de nada
propriedade é palavra habitada
por estranhos

nem calçada me resta
os carros tomaram para si
o local dos pés

o corpo
ainda não, mas o tempo
é que manda, apenas
mantenho-o longe de perigos

o assento no ônibus
nunca vi, é também de alheios,
assim como o carrinho de supermercado.

Nem calçada me resta
somente os quilômetros
e na sola do tênis deve ter
um pouquinho de paciência

 

5 de fevereiro de 2019

Voltas e voltas, aqui não tem metrô



Todo cansado
com esse Sol
tenho estado
calor escaldante

minha cidade
Inferno de Dante
racha os pés
ônibus
sem ar
sem espaço
sem tempo pra clichês

ônibus cheio
nosso cansaço
que se reinicia
partiremos
ao meio?

19 de janeiro de 2019

Buraco de arara



as graças, as gritarias para chamar atenção
a música alta e a televisão que berra
ventiladores que nunca são desligados
olhares fulminantes de traição e desprazeres mútuos

a missa
o catecismo dos céticos
a ignorância dos senhores feudais

o céu continua azul
com tons de cinza
sabor Cutrale
 

13 de janeiro de 2019

Dança das cadeiras



séculos escrevendo um verso
que defina e não definha
palavras em que expresso
a opinião que não minha

uma dança das cadeiras

12 de janeiro de 2019

Palidez da folha



encarar o papel
por ali qualquer coisa
por ali qualquer
escritor é réu
tem vagabundo que ousa
na poesia
tatear o céu

9 de janeiro de 2019

Largo da Batata



Aos vvvventos da capital
pouco interior e muitos
arranha-céus colidindo

a que direção ir?

diversidade de caminhos
rotas para o mesmo lugar
nenhum

a plateia não assiste
a peça que a vida lhes
prega

na escada rolante do metrô
o imperativo ecoa
"deixe a esquerda livre"

a revolução tem local
largo da batata

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São Paulo
nem falo
já é cartaz

dissolvido
na multidão
descanso em paz

2 de janeiro de 2019

Testamento



Deixo-lhes o incenso
a fumaça toda
assinada por extenso

Entregas e esperas: haikais soltos


Escrever
aquilo que convêm
ou ir um pouco além?



palavra fere
mesmo que muda
ainda que breve



criança que chora
essa dor de ouvido
que mude, duvido