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28 de novembro de 2019

Gaia Gandaia


I-
Ao passo que, alguns, desesperados pela constância de suas crenças, iniciaram um movimento de luta contra as ideologias. Foi mais ou menos assim que começou o caos, se me recordo. Disseram que a História era ideologia, que os livros eram ideologia, que a poesia era ideologia (essa, concordo), que direitos humanos eram ideologias, foi por aí. Foi, não? E faziam isso tudo com o que? De que forma bradavam a morte dos ideais? Qual a cruz usada nessa cruzada? Com o que quiseram apagar os valores sociais e o espírito crítico?
Preciso mesmo responder que era com a mais ferrenha e estúpida... ideologia?


II-
Detenha-se. Quando chega ao ponto de negar a existência do racismo, de negar a poeira de desigualdade social no ar, de dizer que não existe preconceito, que não existe pobreza e fome, que indígena não quer terra para morar, que direitos sociais são problemas; quando chega a esse ponto; por favor, detenha-se.
Não faça papel de palhaço. Por favor. Negue dados com dados. Não entre em desespero argumentativo. Em que mundo você tem vivido caro leitor? Quem foi que te disse que sonhar com uma utopia, ou com um mundo menos injusto, é coisa de esquerda? Adivinhe só. Causas sociais e equidade são princípios básicos de cidadania. No mais, detenha-se. Ainda que eu saiba, infelizmente, que você tem suas razões para agir assim. Todos temos. Mas, detenha-se, no conforto de seu casulo mundano.

III-
Sei que palavra não faz efeito em tábua.

 

31 de agosto de 2019

No tocante a isso daí





Deixa queimar
deixa cair
o petróleo no mar
algas e plantas
são tantas
deixa queimar

deixa queimar
se "trumplize"
vai dar tudo certo
em uma semana
tudo passa
e vira deserto

deixa queimar
pesquisa é ideologia
deixa queimar
o exército vigia
mata grilo pra grilagem
bobagem!
aquece a economia
deixa queimar
invadir flo/resta

o que não pode é índio ter casa
o que não pode é pobre ter terra
o que não pode é direitos humanos
filme, férias, lazer, maconha e peteca
(tudo coisa de comunista)

pessoa de bem não se preocupa
com o que está fora do condomínio
pessoa de bem deixa queimar
quer mesmo é reforma
ser exceção no que diz a norma

quer lei
que só serve pros outros
(puliça não invade cobertura)
 
 

21 de agosto de 2019

Distâncias



cócegas no ego
risada fácil
uma canção pop de fundo

sorridentes garotas
homens altos e fortes

tabela de preços
tabela periódica
ricos por tabela
 

      sorrisos brancos
rostos brancos
paredes brancas
   tudo tão branco
no céu da democracia
    em que estudo

...

     são 19h30, conforme diz o motorista do ônibus;
brancos? Só os pensamentos.
      e nada de risada fácil
ou canção pop

pop é próprio busão

22 de junho de 2019

Hodie mihi, cras tibi



Olhava o Sol, e pensava no que faria,
uma               \ilha/                 presa no concreto e no cimento,
lamento em dó maior, tempo de sobra,
sobra é o que era, o que sentia ser;

oh, cidadão. Me dê uma moeda
me dê de comer, me dê seu olhar
sua mão distante, parece viva,
dez centavos não lhe fará falta irmão.

E costuma chover, costuma ter ratos,
rosas não vi, ele me disse, rosas não vi.
Olhava a noite, até a lua sabe se esconder,
a noite é dos ratos, ele me disse, ratos de farda,
roedores, que pelas beiradas comem a paz.

"Eu só estava deitado no banco, Senhor".
E cidadão tem esse direito, ele me disse, tem?
Eu calei. Calei. Não ia falar. Não ia não.
Eu falaria o quê? Dei meu silêncio.

Olhava o Sol, e não parecia importar a hora
o dia o ano a vírgula o ponto era sempre de interrogação
semáforo é indústria dos não alienados.

Trabalhador é só mais um nome bobo, desses
que se inventa para separar pessoas e justificar
o que costumava silenciar. Não há verso que resolva.
Poesia é acordar no colchão.
Poesia é - as vezes - ter uma lata de cerveja e o que comer.

Mas poesia não alimenta, senhor.
Não mesmo.

14 de maio de 2019

Pré-vidência do óbvio



Não me faça sorrir aos que admiram astrólogos (leia-se Olavo de Carvalho e outros) e beijam videntes
A Lua só é encanto na poesia, o que mais quer que eu diga?
Aplaudir os sem pés nem cabeças, veja você mesmo, seus olhos.
A Nova Previdência não me parece uma providência. Ao menos não aos pobres.
Me parece sim, uma pré-vidência do apocalipse incontestável.

E isso não é poesia nem verso que mereça palmas. É silêncio burro,
de um povo que idolatra a quem agride e fere. É enxada nas costas.
Não tem rima não, Senhor Cidadão.
É cobra a devorar-se feliz, e cobra a trocar de pele.
Consequências? Jogue na mesa as cartas. E não se engane.
Vá um pouquinho só além dos discursinhos do liberalismo bobo, que nem
liberalismo isso é.

Ou não.
Vá ver vídeo de astrólogo metido a filósofo.
Vá escutar soma de chocolates educacionais.
Vá lamber a bota dos soldados estadounidenses.
Ou "dar tiros em ursos", brow.
E repita. Repita com gosto todas as pragas.
Que a consequência, um dia, chega até ti.


E chega...

17 de fevereiro de 2019

Food does not come in there: Venezuela



Quanta humanidade
nesses países tão lindos
paraísos de cor neve, branco branco banco
até a casa é branca

embargos
sin embargo
sim, senhor!

Um litro de petróleo
(dou-lhe até dois)
por uma migalha de pão
é que os estadounidenses querem a paz
como quis no Iraque
como quis na Guatemala
como quis aqui, no Amazonas,
como quis em Honduras
como quis no Canadá
como quis na Líbia
como quis no Afeganistão, tão cruel,
como quis na União Soviética
como quis 1967, Sudão
ó glorioso país: mãos santas banham o proletariado
defenderei-te até a morte
de outras mil crianças em um colégio qualquer

Os terroristas são os outros!

Mas,
lá vem o comunista escrever
que essas guerras não foram somente para ajudar os tristes países
(agora vai dizer que na Venezuela o interesse é por petróleo?
tolo, o comuna, não sabe que os embargos econômicos foram somente para proteger os cidadãos,
as criancinhas estão mais felizes com esmola - eis ali um MC LancheFeliz, e nem é rapper).

uma lágrima escorre diante a ajuda humanitária
pois se querem enviar comida, a coisa mais lógica a se fazer
é mandar comboios
não remover embargos (é assim que se pensa como um humanista?)

Oh, perdão, a poesia começa aqui:

Venezuela
el
país
con
las
mayores
reservas
petroleras
probadas
del
mundo

Um clique na frase



22 de outubro de 2018

O Liquidificador de Merda



Se não bastasse o tal do Bolsonaro. Se não bastasse a hegemonia tucana em SP por tanto tempo. Se não bastasse a idiotia coletiva que nubla a sensibilidade de meu povo. Se não bastasse - no que pelo visto não basta - o tal do Dória. Se não bastasse tudo o que tem ocorrido: os preconceitos, racismos, machismos, e tantos outros ismos. Se não bastasse o discurso anti-PT, tosco e infantil.

Há ainda o liquidificador. Vi-lo misturar tudo nessa semana. Todos os "se não bastasse" num liquidificador. Batido. Misturado em uma legenda que enoja mais que ovo cru em garganta sedenta: BolsoDoria...

O cúmulo.
O cúmulo.
O cúmulo.

18 de outubro de 2018

Parte I de minhas pitangas políticas



        Se o sujeito é incompetente a ponto de não saber ir a um debate ou mesmo debater, que destreza terá para assumir um cargo de presidente? Até Dilma Rousseff sabe discursar melhor que Jair Bolsonaro. Esse último, somente sabe dialogar com os capachos de Edir Macedo e outros pastores que usam e abusam do controle social.

 

         Contudo, a sociedade tem se habituado com a lógica do absurdismo disfarçada de crítica a esquerda. No momento, para os eleitores de Bolsonaro, tudo é comunismo, tudo é ideologia de gênero. Bolsonaro parece ter saído de um episódio de "Choque de Cultura". É uma piada; e, quem ri, não somos nós. São os do topo da pirâmide. A vida, essa circularidade estocada nas pirâmides sociais.


Oremos!

12 de outubro de 2018

As bolhas de Bolsonaro (texto de L.C.M.)

*Texto retirado do Blog: Meu Verbal


Bolsonaro é o candidato mais bem adaptado ao que eu creio ser o futuro das campanhas políticas. O candidato do PSL provavelmente sob orientação de Steve Bannon soube se aproveitar com maestria da natureza das interações em rede, que hoje em dia chegam a ocupar uma boa parte de nosso tempo. A questão é que não se trata mais das mesmas regras de quando as mídias tradicionais tinham monopólio da informação sobre os candidatos, a informação hoje circula de modo diferente e para que possamos entender como o candidato tirou proveito disso devemos  antes entender o que as redes sociais trouxeram de novo.
A TV tem por objetivo oferecer um produto que garanta a audiência do telespectador, quando se trata da TV aberta os telespectadores formam um grupo amplo, já nos canais da TV fechada os telespectadores formam grupos reduzidos. Tanto a aberta quanto a fechada modelam aquilo que emitem de acordo com o feedback fornecido pelos seus telespectadores, um programa é cancelado quando tem pouca audiência, notícias polêmicas, que são garantia de audiência, inundam nossos televisores, o único poder que tem o telespectador (se é que tem algum) é o de continuar assistindo ou não. Aqui é importante notar que o cidadão não tem um papel de emissor e/ou criador do conteúdo. Outra característica é que o conteúdo emitido pela TV atinge simultaneamente todos os telespectadores, e desse modo a chance de desagradar algumas pessoas é maior do que no caso das redes sociais (discutiremos mais adiante), sendo consequência disto um certo controle do conteúdo pela média do feedback fornecido pelos telespectadores. A mídia poderia, por exemplo, distorcer algumas notícias, mas não ao ponto de perder audiência, caso haja um descontentamento por parte do telespectador a retroação será sobre o conteúdo emitido.
No caso das redes sociais a questão difere drasticamente. O primeiro passo é entender que as redes sociais não são emissoras, ou seja, elas não tem um produto audiovisual que se modifica em função da audiência, o seu produto é mais sutil, ele é condição tanto para a emissão quanto para a recepção do conteúdo, seus usuários são "emissoras" e "audiência" ao mesmo tempo. Entende-se, então, que as redes sociais na verdade fornecem um meio, seu produto é uma ferramenta que se modifica pela eficácia e eficiência em seu uso, o Facebook, por exemplo, está sempre realizando modificações a fim de ser mais útil ao usuário. O usuário caso se rebele não será quanto ao conteúdo recebido, como nas mídias tradicionais, mas sim quanto ao uso da ferramenta. É a combinação do fato de as redes sociais terem como produtos ferramentas e estas ferramentas serem basicamente de interação que leva ao problema, sendo que ele se constituiu da seguinte forma: a rede social precisa que sua ferramenta seja de uso eficaz por parte do usuário e este será eficaz no uso somente quando tiver sucesso na sua emissão de conteúdo e na recepção de conteúdo, dessa forma as redes sociais acabam modelando seu produto de forma com que você seja sempre eficaz nas suas interações (o que difere da vida fora da rede), mesmo que para isso ela o engane exercendo um controle muito mais sutil. A ferramenta condiciona o homem. Porém que controle é esse, como ela condiciona as pessoas e quais as consequências disso?
O controle tem por base o reforço imediato dependente do emitir e do receber, por exemplo, quando uma pessoa envia  uma mensagem em um grupo de WhatsApp e rapidamente tem como  feedback do grupo mensagens de apoio, concordância, incentivos e etc. a probabilidade de ela enviar no futuro novas mensagens do tipo aumentam. Um importante efeito disso será que o feedback do grupo será sempre no sentido de receber mensagens do mesmo tipo, criando com isso redes de interação chamadas de bolhas ideológicas. Nelas haverá sempre uma baixa variabilidade no repertório de seus integrantes, sendo que qualquer coisa que fuja de uma estimulação positiva será punida por mensagens de discordância ou facilmente excluídas do grupo. O único requerimento para participar do grupo será o de concordar com ele, fazer rir para poder rir.
Atualmente há muitas bolhas ideológicas, sendo que até mesmo algumas ferramentas criam mecanismo para garanti-las, os algoritmos do Facebook garantem a eficácia da emissão selecionando previamente quem verá as postagens e garantam a boa recepção do conteúdo selecionando previamente a quem será emitido.
A grande sacada da campanha de Bolsonaro foi a de ter se aproveitado das características das bolhas ideológicas. Os grupos de WhatsApp, por exemplo, são bem representativos do que seriam as bolhas. Cada grupo pode ter até 256 integrantes, estes podem ser de qualquer lugar do país e ter como apoio qualquer tema, por exemplo, porte de armas, antipetismo, parada hétero entre outros. Sua equipe e apoiadores ao disseminar conteúdo nesses grupos fazem com que fragmentos da imagem do candidado circulem somente pelas bolhas onde seja vantajoso circular, sendo assim Bolsonaro não tem o risco de desagradar seus eleitores mostrando qualquer coisa que desagrade o grupo específico. Talvez seja por isso que o candidato se recuse a participar dos debates, há o risco de apresentar suas facetas de uma só vez. A  bolha terá o funcionamento já citado, seus membros terão baixa variabilidade no repertório e devido a um condicionamento diferencial passarão a se comportar de modo característico ao do grupo, este modo se caracterizará pela falta de debate e a exclusão imediata do que indica a posição oposta. Além do já dito, entende-se também o motivo de Eduardo Bolsonaro ter sido eleito com tantos votos, sua estratégia foi criar bolhas sobre temas específicos reunindo pessoas que antes eram incomunicáveis entre si, conseguindo um aumento de votos de 130% em relação a candidatura de 2014.
Embora não exista tantos dados a respeito do tema, procurei reunir um conjunto de forma um tanto rudimentar, mas que já oferecem alguns indícios.
Hoje o Brasil tem 147 milhões de pessoas aptas a votarem, 117.364.560 (79,67%) foram às urnas no primeiro turnoBolsonaro teve 49.276.990 (46,06%) dos votos válidos. A questão é que 81% dos eleitores de Bolsonaro são usuários de alguma rede e se levarmos em conta seus votos válidos serão cerca de 39.914.361 de seus eleitores. Desses 39 milhões 57% leem notícias pelo WhatsApp, cerca de 22.751.186 de seus eleitores, 61% leem pelo Facebook, cerca de 24.347.760 pessoas. O número de eleitores de Bolsonaro que compartilham notícias pelo Facebook é de 12.373.475 (31%), já pelo WhatsApp é de 15.967.744. Nenhum candidato chega ao mesmo número de pessoas, Haddad tem, por exemplo, apenas 59% de seus eleitores fazendo uso das redes, lembrando que seu número de eleitores é muito menor que o de Bolsonaro. Outra questão também são as fake news, uma pesquisa realizada pela veja mostrou que 67% das que se referiam ao candidato eram positivas, 22% negativas e 11% neutras, sendo que nenhum  dos outros candidatos tiveram o número de positivas maior do que as negativas.
Creio que o mais importante seja notar como que as redes mudaram a qualidade das nossas interações e como os candidatos tanto de esquerda quanto de direita - atualmente mais de direita - estão e continuarão tirando proveito de tudo isso.
 
 
 
*O texto é de um Blog de um amigo, analista do comportamento, contêm coisas de análise do comportamento, política, poesias, textos reflexivos, etc.
Para entrar diretamente na fonte, é só clicar lá em cima, no "Meu Verbal"

10 de outubro de 2018

Versos de classe I



Quanta violência
o brasileiro na aparência
diz não ser racista, diz não ser fascista
mas toda oportunidade que tem, meu bem,
apedreja e exorciza; lá vem, zé povinho,
dizer que político militar é bonzinho,
tá precisando isso aqui de uma revolução
cada operário com uma arma na mão
ao som de Racionais
lutar pelo socialismo e por nossos ideais
sim, tô cansado desse blá-blá-blá de burguês
que fica pregando que pobre aqui não tem vez

longe, perto,
um verso no peito acerto,
a mira do poema
nunca foi problema
o que se enfrenta nesse caos
é o ódio: o dilema.
A raiva ao negro, ao pobre, ao nordestino
parece coisa de cinema
mas vem lá de cima, é real, vem do homem fino
vestido de terno
ao pobre dá esmola
e retira o caderno

tudo, tudo anda assim diferente
os malucos fecham o vidro
finque que andarilho não é gente
minha fé na humanidade se esvaindo 
os problemas do mundo e os merdas sorrindo
na fila do café
pagando seus impostos
bando de mané
o verso, aqui descontrolado
é por ter esses burguês
andando do meu lado
cê não tem noção da raiva que eu sinto
quando rico tem dois pratos na mão
come os dois e deixa o menino faminto

na rua, só quem vai na rua
conhece a realidade
miséria, pobreza dessa sociedade
e você aí na tua
tomando sua cervejinha
tá errado não, mas para pra pensar
você fuma sua erva em paz
se nego faz o mesmo, diz que tem que apanhar
tudo em ti parece tão contraditório
sua vida parece vivida para um auditório
não tem a menor consciência de classe
não deixa a oportunidade passar e quer todo o realce
se liga playboy, mas, é, o que eu espero de ti?
a burguesia é podre, foi na sua cara que eu vi

se liga, acorda pra vida, chega de jornal nacional
não pode ver um playba que já quer pagar pau
o mundo gira gira gira, uma hora tu desce
vê se não esquece
foi eu que te avisei
rico vagabundo, tem a vida de um rei,
mas nem tudo é eterno
quem nega esmola é o homi de terno
não o operário com a cerveja da lata
esse ajuda o outro, mesmo que falta
o pão de cada dia
mas não deixa de fazer o outro sorrir
quer viver em sintonia
com quem
com quem sempre lhe ajudou
posso até subir na vida mas não esqueço do que sou

porque o mal do pobre
que sobe na camada social
é bancar o esnobe
e esquecer seu ideal:

um mundo igualitário
começa com você, otário,
se o outro pede esmola, isso já é humilhação,
vê se dá o dinheiro e não fica de sermão,
tem jovem que parece pastor de igreja evangélica
fica de sei não, fica de migué, e cás ideia cética
suspeitando do sujeito sem nada
não vê no olhar que a pessoa tá cansada
de tanto andar perambulante
só querendo uma sombra
nesse instante.

O papo é prolongado
por isso preste atenção:
se nóis já foi gado
e cresceu, é pra ajudar o povão.

Não pra ficar julgando quem tá no crime
quem cheira, quem bebe ou quem queime o filme,
a vida é só esse mar de circunstâncias
analise o ambiente e  não fique de intolerância,
respeite o bêbado que cai na rua
se não for pra ajudar, fica na tua.

1 de outubro de 2018

Obséquio é a puta que pariu (versos afinados e afiados)



De tantas palavras, deixam a poesia escassa
por obséquio é a puta que pariu;
poesia é ocupar casa abandonada e praça
pois, convenhamos, há de se preencher o que anda vazio

Vago, todo nosso preconceito social
família tradicional brasileira é vizinha no quintal
ajudando a criar o filho do homi que sumiu
pelo cercado dos fundos: ninguém viu

bolsa família tá aí: alvo de murmúrios e protestos
migalha jogada aos pobres, resto de outros restos:
enquanto o rico, esnobe, tem auxílio moradia
tem mansão, tem vale-terno e disso ninguém pia

pois sim, índio tem que ter suas terras
tem demais o fazendeiro e senhor feudal
homem branco quer fazer paz com novas guerras
quer recitar metralhadora no sarau

aborto
nem escrevo
já olha torto

aborto, sim, é questão de saúde pública
burguesia aborta onde entende
pobre, todo mundo repreende
cada mulher decide sobre seu corpo
e isso não há quem me tire: é lei única.

Gente que agride mulher, que defende a ditadura
a sanidade já perdeu, vive nas barbas da loucura

De tantas palavras, deixam a poesia escassa:
não adianta deixar sujo o cu e limpar a calça.

Essa poesia, por exemplo
não se inscreve na política:
papinho moralista é lá no templo
onde pastores e padres apoiam o Velho Testamento
(aqui atesto, que esperar desses? Meu lamento)

só a discussão pública é que fica


De tantas palavras, deixam a poesia escassa
é querer sanar dor com mais desgraça.

Espero, um dia, Waldens, sociedades planejadas
onde a luta seja por pessoas amadas, não armadas.

20 de setembro de 2018

De que Messias estamos falando?

 
 
Escuto dizer com frequência: o voto é secreto. Porém, é de saber comum que as consequências do comportamento de votar, essas, não são secretas. Inclusive, são de fácil previsibilidade, a depender das políticas públicas do candidato em questão.

Uma excelente forma de conhecer as propostas de seu candidato/ de sua candidata é ler o projeto de governo dele/dela.

Claramente, os preceitos morais estão em jogo nessas eleições: Bolsonaro tem sido apoiado por Evangélicos e Católicos, em sua maioria. Homens, brancos e com formação acadêmica também são grupos que estão a eleger o sujeito em questão.

Faço um apelo a coerência de pessoas que estão nesse grupo religioso, a saber. Por favor, analisem as propostas. Não é meu intuito questionar seu voto. Meu intuito é questionar valores. É questionar os interesses e ideais. É questionar as consequências do nosso comportamento. É possibilitar um momento de reflexão, mais do que de discussão.

Costumeiramente, em seus discursos, e de seu vice, palavras de ódio são proferidas contra grupos sociais. Não só minorias. Ele já declarou seu ódio para com as mulheres. Por diversas vezes, inclusive.

Bolsonaro é a favor do porte de armas para a população. Me dirigindo aos amigos evangélicos e católicos que acessam o Blog: Jesus, enquanto pessoa, defendia a paz e o respeito, não o ódio, o armamento, a ignorância. Não apedrejar os que pecam, pelo contrário, ajuda-los para viverem uma vida de paz, amor e sabedoria. Jesus oferecia a outra face, multiplicava os peixes, atendia os interesses dos pobres. Bolsonaro apoiou as reformas do Temer, prega a segregação, atende os interesses dos bancos e ricos. É esse o modelo a ser defendido?

Bolsonaro defende privatizações, em excesso. Defende a política do "quem tem mais, paga menos; quem tem menos, paga mais". É justo tirarmos dos mais pobres? É justo doarmos o que é público para os interesses dos magnatas do poder? Se uma estatal não está funcionando direito, há de investir e corrigir os problemas, não simplesmente vender os bens públicos. Essa ideia de "reduzir custos", na verdade, é de extrema ignorância. Ficaremos reféns dos interesses exploratórios do mercado, dos banqueiros, dos que não dão a cara a tapa. O serviço público não tem funcionado direito porque o investimento tem sido baixo. O SUS não é um problema, é uma solução. Se privatizarmos tudo, acreditam mesmo que as empresas privadas vão se preocupar com quem mais precisa, com o povo, conosco? Bolsonaro é a versão Temer Popular.

Bolsonaro, além de tudo, desconhece o valor do contato social, que as igrejas conhecem bem, pois trabalham a cooperatividade e a ajuda mútua. Recentemente, o candidato em questão, defendeu que as crianças sejam educadas em casa, argumentando que na escola pouco aprendem. A ignorância tem seus custos. A escola não é somente um lugar de aprendizagem de matemática e português, é lugar de convívio e partilha. Lugar de civilidade e convivência. Jesus, novamente faço esse apelo, ensinava na Sinagoga, atraia multidões para partilhar com eles palavras de amor, conforto e gratidão. Não por menos, foi crucificado por isso. Os docentes, por muito tempo, estão sendo crucificados por isso. Um verdadeiro professor, Jesus sabia o valor social que o conhecimento trazia.

Eu poderia enumerar outras quinhentas mil coisas. Como por exemplo o fato da equipe de Bolsonaro ter espalhado, por diversas vezes, notícias falsas para prejudicar outros candidatos. Jesus, ao contrário, repudiava a mentira e, além de tudo, ensinava o que hoje se chama de caminho da verdade e da vida.

Não caiam em propaganda de marqueteiro de político. Os valores morais que Bolsonaro diz defender, são incoerentes com todas as suas práticas. Não sou religioso, mas tenho fé de que a humanidade não se deixará ser guiada por práticas subversivas. Muitos tem me dito que vão votar nesse cidadão por ele ser anti-PT. Não é necessário votar em alguém só por ser contrário a algo. Existem outros candidatos, outras propostas que certamente podem e devem ser estudadas por cada um de nós.

Não sou contra quem vota no Bolsonaro, penso que é preciso entender os porquês de tal prática tão prejudicial a nossa nação. Apenas repito, principalmente aos de religião evangélica e católica que estão a ler: pense em seus valores, pense nas consequências desastrosas que podem ocorrer. Espero que a religião seja uma forma de trazer paz, amor e solidariedade ao mundo. Não um mecanismo de exploração e alienação. Não é com preconceitos e ódio, tão disseminados na campanha desse sujeito que mudaremos algo. Jesus, Bashô, Cruz e Souza, entre outros, como Leminski nos revela, eram profetas de boas palavras, de boas práticas culturais, de amor e cooperação; não de preconceito e ódio.

Por fim, deixo um verso do Paulo Leminski, para que seja claro o óbvio que vos comunico:

"Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
Só existe um segredo.
Tudo está na cara".

11 de março de 2018

Jornal é agressão verbal



Ainda perco tempo
discutindo
com quem vê
jornal nacional

é lutar contra
as manipulações globalistas
e todo efetivo controle
exercido pelas hierarquias
competentemente incompetentes

Quando chega ao absurdo
de pobre injuriar pobre por ser pobre
é melhor silenciar ali
e exercer cidadania em outro canto.

O pão que o diabo amassou é sempre melhor
que o pão nosso de cada dia, amém.

Honduras, Guatemala.
O predatório fala mais alto.

1 de outubro de 2017

Comentários sobre política, educação e desigualdade social



Política, vamos lá. O texto vai ser meio extenso, sem muitas ponderações verbais.
Não é um assunto que me agrada muito, mas tenho que dar minha opinião, o silêncio é algo que admiro, mas que não consigo praticar com frequência.
Muito se tem falado a respeito de corrupções, erros de gestão, prisões, mudanças políticas, e, pelo que tenho visto, as campanhas eleitorais já falam de novo modo de governar, acusam um de lá, outro de cá.
Para ajudar, temos em alguns países considerados os mais potentes do mundo, como os Estados Unidos (piada?) da América e a Alemanha, problemas e afirmações que o brasileiro não consegue deixar de comentar. Seja para criticar as ofensivas verbais, seja para elogiar o antiesquerdismo. Tudo falta de raciocínio lógico, claro. Alguns muitos até conseguem igualar que o Brasil só vai para frente se tivermos um Trump no poder. Denominam Jair Bolsonaro como esse ideal de Trump.

A lógica, pelo que pude perceber, é a seguinte: como o esquerdismo tem fodido com nossa vida, devemos adotar o conservadorismo e/ou o centro-direita como forma de governo.
O que, claramente, não muda merda nenhuma. Como se pode prever, conhecer e até mesmo como já ocorreu, se observa pelos noticiários que não é um ou outro que desviou verba e verbo. São quase todos, para não dizer que todos! Independente de maneirismos ideológicos, o de esquerda, o de direita, o de centro, o de misto, o do caralho a quatro, roubaram!

Tive uma breve troca de frases esses dias com uma docente, na qual apontou-me que o PT acabou com o país. Concordei parcialmente. O país não acabou, o que o PT fez foi acabar com o PT. Os rombos nos caixas são colaborativos. Do mesmo modo que Lula roubou, Temer roubou. Não há menos pior nisso. Questionei-a dizendo que essas fraudes não ocorreram e nem ocorrem somente no Brasil, mas que é sim uma falha geral. Os governos do mundo todo só existem para isso, afirmei.
Eis que a beata da professora me retruca dizendo que nos EUA roubam, mas não tiram dos pobres para enfiar no próprio bolso. Na Itália roubam, mas ninguém passa fome e fica sem merenda por conta do roubo e, que não era do mesmo tanto que no Brasil.
Esse é um argumento interessante. Estúpido, claro. O que se está questionando, seguindo essa lógica, não é o roubo, mas a quantidade e qualidade do mesmo. Não se perguntam como os EUA se mantêm como potência se não a custa de seu próprio povo? Sempre sobra pra alguém. Óbvio que algumas outras nações são "escravizadas" para manter a meritocracia estadounidense.
A pergunta que me faço é: será que são as pessoas lá na gestão do país que são o problema?
Tenho certas ressalvas quanto a isso.
Entenda que não pretendo tirar a responsabilidade dos acusados, pelo contrário, investigações são necessárias e indispensáveis. Só tem um problema: vão retirar todo mundo que roubou, mas vão mudar o ambiente (leia-se forma de governar) para que os futuros governantes não façam a mesma coisa?
É mais do que fato comum que o ambiente em que as pessoas vivem modificam seus comportamentos. Olhe ao seu redor, observe seu cotidiano. Vai dizer que és totalmente livre para não fazer ou fazer as coisas? Certamente consegue compreender que onde vivemos e o que fazemos modelam nossa vida. E, está se perguntando, "então tá querendo passar a mão em bandido? tá dizendo que os políticos só roubam por conta do ambiente que vivem e por conta da forma de governar?"
Basicamente não e sim. Não considero satisfatório passar a mão em bandido, ainda mais político. Mas tenho mais do que certeza de que, mesmo prendendo todos ali e, não mudando nada na forma de gestão ou de concentração de poder, nada vai mudar. N-A-D-A. Continuará tudo como antes. Roubos, desvios de verba, baixa preocupação com a educação e saúde, gastos desnecessários em outros setores.
Não me venha com papo de "é esquerdista mesmo", "comunista", e outros blá-blá-blá de gente que não pensa a respeito. Note o seguinte: numa escola onde os alunos não se dedicam, os professores se acomodam, passam lá suas provas, não há muita mudança. Quando um professor chega nesse local, está com muito ânimo, quer mudança. Dê um ano para ele (a), ou menos, estará, muito provavelmente, igual aos demais. Falta-lhe motivos para continuar tentando a diferença. A não ser que as contingências (circunstâncias do local) mudem, como por exemplo, um diretor que agora auxiliará os professores com o método, ou, professores de apoio, salas mais adaptadas, horários mais flexíveis, etc.

Entende?

Não é culpa dos professores a falta de interesse em dar aula. Não é culpa dos alunos não se interessarem por estudar. Faltam-lhes reforçadores (motivos para tal). As vezes uma única variável a mais pode modificar esse processo, gerando alunos e professores satisfatórios. E, certamente, isso só é possível recompensando o comportamento desejado (de estudar), digo por conta própria isso. E não fazendo o que fazem, ou seja, punindo e tentando parar outros comportamentos (gritar, impedir de sair, dar nota baixa). A curto prazo a punição de determinados comportamentos pode até ser efetiva. Mas dê um tempo a mais e note que isso não gera resultados bons, só prejuízos.

Mas, voltemos ao tema. A questão que tenho pensado é a seguinte: os governantes que consideramos que governam, são meros fantoches. Dilma, Lula, Temer, Calheiros, Bolsonaro, PT, PMDB, PSDB, PSOL, tudo farinha das mesmas empresas. No fim das contas, Bancos e Empresas Internacionais é que defendem seus interesses no ringue. Esses nomes e siglas aí só querem tirar umas esmolas bilionárias. Esmolas, sim! Para o tanto que as empresas (principalmente bancos) lucram com certas leis brasileiras...

O problema é que o povo brasileiro quer que alguém se foda, é só isso. Não consegue notar o quão irrelevante são os noticiários. Aliás, alguém aí acompanha o que tem ocorrido na prefeitura da própria cidade? Garanto que é mais relevante saber o que prefeito e vereadores tem feito do que saber quando o quatro dedos e o Temeroso roubaram, ou discutir se esquerda ou direita é melhor, garanto! Essa é uma boa hora para saber mais da política do seu bairro, da sua zona habitacional.

Conclusão: é importante o que tem ocorrido no cenário político/social brasileiro, mas nada muda se o ambiente em questão não mudar. Novos integrantes vão entrando, se adequando ao modo atual de governança por politicagem e charlatanismo, e repetindo o que temos visto até então.
Meu texto é meio básico e até previsível. O óbvio me agrada, leitores.



Outras coisas mais:

A reforma trabalhista tem sido discutida, e, como já dei minha opinião, não parece em nada com o que tem sido veiculado na mídia. Não vai prejudicar mais o trabalhador, isso já tem sido feito faz muito tempo, não é a lei que vai alterar algo. No entanto, parece estranho que alguns grupos sociais sejam totalmente contra ou totalmente a favor. Há pontos razoáveis nas "mudanças". O primeiro dele é que a lei não é uma coisa nova. Ela simplesmente está se adaptando ao que já ocorre hoje em dia, não o contrário. O segundo ponto é que a lei deveria manter a integridade do trabalhador, isso está sendo desconsiderado. Jornadas de trabalho com carga horária desumana estão sendo propostas. Não é válida a comparação de que em outros países o trabalhador fica mais tempo no trabalho. Eles que tem que diminuir, não o Brasil aumentar. Vale destacar também que tempo no serviço não é, necessariamente, tempo de serviço. Garanto que, com essas modificações, comportamentos de esquiva no trabalho serão mais acentuados, gerando incômodos entre mandantes e funcionários. A lei não vai aumentar produtividade e lucro, só vai acentuar a rotatividade entre funcionários, maiores demissões a curto prazo, já que os empresários vão sempre colocar a culpa da má execução trabalhista nos trabalhadores, sem se atentar para o quanto o ambiente de trabalho formal e informal afeta a produtividade, bem-estar e lucro de ambos.

A reforma educativa, proposta pelo MEC, segue a mesma ignorância. Propõe coisas que não serão cumpridas. O que mais chama atenção é o fato de "dar autonomia para o aluno escolher as matérias" que quer cursar, claro que, com bases obrigatórias. O aluno será preparado para escolher? Ou vão dizer que o livre-arbítrio será respeitado, deixado ao léu? Garanto que a Biologia, bem como a Filosofia, tem seus valores. Biólogos que não reconhecem bases filosóficas nos pressupostos biológicos são, certamente, ignorantes. Filósofos que se preocupam mais em defender seus esquerdismos são problemas, não ensinam as pessoas a pensar, apenas demarcam ideologias e valores, isso não é filosofia.
Não sei bem ao certo como se dará essa divisão e escolha, vamos pagar para ver. Não muda muito, de fato, já que, ao menos nos colégios públicos que frequentei, as pessoas estavam na aula, mas não se concentravam nela. É realmente inútil ficar sentado numa cadeira, ouvindo um fantoche falar coisas que tu não vê sentido. Isso ocorre tanto na aula de biologia, matemática, quanto de filosofia, sociologia. O problema não é se é obrigatório cursar tal coisa ou não, mas como isso é passado, quais as relevâncias, e a gestão de ensino. O MEC, mais uma vez, ignora essas pautas. Propõe mudanças sem qualquer sentido. Isso me faz ser indiferente quanto ao que vai mudar, já que nada vai mudar. Talvez a curto prazo seja bem diferente, a longo prazo, a mesma merda.

No fim das contas, sei que esses assuntos são só modismos verbais. A desigualdade social está cada vez mais acentuada. O lucro se tornou o único objetivo razoável. O cooperativismo tem perdido força, o modo de gestão agressiva e o vale-tudo tem tomado proporções maiores.

Minha previsão?

Bem, não me considero muito interessado em política, mas penso que esses assuntos vão se arrastar por um bom tempo. Nas próximas eleições, alguém que já está nesse sistema corruptível vai ganhar, vai propor diversas mudanças, não se terá muita diferença. Talvez sejam as eleições com mais votos nulos/brancos aqui no Brasil, o que é um ponto importante.
Haverão algumas manifestações sobre diversos temas, principalmente durante o período eleitoral do ano que vem. A verba destinada a pesquisa será reduzida novamente, a desigualdade social apresentará índices relativamente menores, o que não garante qualquer variação real. O desemprego terá diminuído no país, mas a renda e trabalho informal ganharão mais pessoas. Quanto a educação, mesma coisa de hoje.
Certo que outros nomes virão a mídia, mas o comportamento igual ao dos que já estavam governando. Partidos soltarão faíscas, serão agressivos um com os outros, falarão que um roubou menos que o outro, por isso são melhores.
Pessoas e grupos sociais ficarão discutindo mudanças enquanto tudo seguirá na mesma vibe. Outros mais, baterão palmas por certo sujeito ser preso, e no lugar dele, um igual estará no poder.

Espero estar totalmente errado.

30 de abril de 2017

Reforma trabalhista, coerção, análise do comportamento e coisas mais


"A coerção não somente gerará e sustentará diferentes tipos de fuga, mas também fará com que nos esquivemos"
- Murray Sidman, no livro Coerção e Suas implicações, pg. 136

As constantes problemáticas enfrentadas no nosso País, me fazem refletir um pouco a respeito de como nosso governo se utiliza excessivamente da coerção para conseguir suas metas. Não é de hoje que as polêmicas envolvendo questões de aposentadoria e direitos trabalhistas estão em pauta, menos ainda os desvios de bilhões de reais por parte dos que deveriam proteger e que foram eleitos para construir normas e leis que pudessem melhorar a qualidade de vida da população.
Sim, nosso governo é caótico. Não há uma adequada administração, não há aplicação real em educação e lazer, não há. Esse texto objetiva ir um pouco além das picuinhas entre direita e esquerda. Já dizia o músico Tom Zé, "meu coração fundamentalista, pede socorro aos intelectuais, pois a diferença entre esquerda e direita, já foi muito claro, hoje não é mais". Quem se limita a questionar partidos, definir lados, e xingar o voto alheio, não entendeu, definitivamente, o mínimo dos problemas que o país tem enfrentado. O problema não é uma única pessoa, algo que tem sido constante nos termos midiáticos. A questão não é Dilma, Lula, Temer. Esses são apenas marionetes de um jogo político e econômico, onde os interesses dos Bancos e Empresas estão muito acima de qualquer outro. Todo deputado, todo senador, e não vejo porque abrir exceções, representa, no seu discurso, o investimento de determinada empresa que comprou seu cargo. O que quero dizer com isso? Que as empresas investem nos políticos, para que o marketing desses seja bem-sucedido, e nós, peças de um jogo de xadrez, vamos lá, votamos, e voltamos para nossas casas, acompanhamos a apuração de votos de eleições já definidas. Aí então, quando surgem projetos de leis, os políticos votam, mas de certa forma, quem vota é a empresa, os bancos, os donos do capital. Mas isso não é novidade, aliás, é amplamente previsível, conforme apurado pelo jornal Estadão, em 2014, o gasto com campanhas políticas bateram recorde na história brasileira, chegando a 5 bilhões. A revista Congresso em Foco, aponta um levantamento sobre aposentadoria parlamentar, o Instituto de Previdência dos Congressistas, uma espécie de organização que paga aposentadoria para políticos que trabalharam mais de oito anos no cargo, já chegou ao valor gasto de 2 bilhões, nesse século.
Quanto a modificações na constituição e outras medidas, não vemos problema nisso, desde que não nos afete. E tendo em vista que a maioria dos projetos e acordos afetam grupos minoritários ou já desfavorecidos, achamos que tudo está "muito bem, obrigado", e é até compreensível. Afinal, para que a população exerça o contracontrole, ou seja, para que vá contra os comportamentos dos governantes, é necessário algo muito problemático, algo que fira não só um pequeno contingente de pessoas, mas toda uma classe. Além de conhecimento dos próprios direitos. Tendo em vista o baixo repertório adquirido nas escolas, e em outros núcleos de aprendizagem, é característico que a população não adote uma postura de questionamento com mudanças significativas.
Estando a reforma trabalhista em pauta, as coisas começam a mudar um pouco, o interesse pelo tema é de grande maioria, pois nos afeta, imensamente. Principalmente o grande contingente populacional brasileiro, a classe média.
E o que a Análise do Comportamento tem com isso? Bem, se mais pessoas tivessem acesso e fossem reforçadas pelo conhecimento, pelo estudo, e abandonassem o papinho de liberdade, "de agir por querer", talvez algo estivesse um pouco diferente. Não que a Análise do Comportamento ofereça todas as respostas. Mas o Behaviorismo, enquanto filosofia baseada na postura Determinista, não será usado para colocar culpa em alguém ou acusar quem está certo ou errado, se uma medida é boa ou não.
O importante é conhecer as variáveis, saber manipulá-las, prever comportamentos, e controlá-los. No caso da população frente as medidas governamentais, quando prejudiciais, exercer o contracontrole, tendo autoconhecimento e conhecimento do que está em pauta.
Um povo que conhece seus direitos e deveres, nada mais é do que um povo que sabe discriminar variáveis, pode argumentar e lutar pelo bem comum, e que não se limita a desprezar projetos de leis com base somente no que afetará uma ou outra pessoa.
Diversos questionamentos podem e devem ser feitos as medidas adotadas pelo governo em questão. A primeira delas é a de que todas as medidas importantes, que alteram drasticamente as leis em rigor, foram votadas como medidas provisórias ou como lei em regime de urgência, o que impede que a população possa ter acesso ao que está sendo modificado, e por consequência, impede movimentos contra essas mudanças. Para não deixar em branco, alguns projetos que foram votados rapidamente, no escuro: Emenda Constitucional n° 95, que congela por vinte anos os gastos públicos, incluindo recursos para a educação e saúde, o corte de repasse para a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), a extinção do ministério do Desenvolvimento Agrário, além da própria reforma trabalhista, indo de acordo ao que foi lido na matéria “A desconstituição ética, moral, cultural e institucional do Estado”, no Le Monde Diplomatique.
Os líderes e demais membros dos governos brasileiros, ao menos das duas últimas décadas, não sabem agir de forma ponderada. Vale citar um trecho do livro O Príncipe, de Maquiavel, dizendo que se “deve estimular seus cidadãos para que estes possam tranquilamente exercer suas atividades, tanto no comércio quanto na agricultura, de sorte que o lavrador embeleça a sua propriedade sem o temor de vê-la ser-lhe confiscada, e que o negociante instaure seu comércio sem sentir-se ameaçado pelos impostos” (p. 130-131).
Quando leis são usadas para o benefício de poucos em detrimento dos esforços da maioria, e ainda mais quando se retira direitos já conquistados, o governo não pode esperar algo além do contracontrole. Ainda usando do livro de Maquiavel, podemos citar a relação de uso da força, “devemos saber que existem dois modos de combater: um, com as leis; o outro, com a força. Porém, como o primeiro, muitas vezes, se mostra insuficiente, impõe-se um recurso ao segundo” (pg. 99). É nítido o uso da força pelo Governo. Nas diversas manifestações que ocorreram nos últimos dois anos, o uso de poder militar contra manifestantes, e o apelo ao discurso da intolerância, foi a prática comportamental sustentada pelos líderes. É óbvio que isso, a longo prazo, é um tiro no próprio pé. Conforme Murray Sidman, no livro Coerção e suas implicações, “dentro de uma comunidade, fortalecer a força policial apenas intensifica o conflito” (pg. 236), gerando maior desconfiança dos eleitores, indivíduos de direitos, perante sua própria instituição administradora.
É de praxe o conhecimento de que, na maioria dos governos dos países que compõem a América do Sul, a prática governamental é de caráter punitivo. Ou seja, não se dispõe contingências reforçadoras para os indivíduos que agem dentro da lei, que auxiliam no desenvolvimento da nação, apenas se pune o comportamento do transgressor, com privação de liberdade ou com estimulações aversivas, como multas, penas alternativas, etc.
Não é que se dispõe de poucos recursos para prever os comportamentos de infração, mas que não se faz nada a respeito de possibilitar que essas pessoas/grupos possam desenvolver outros repertórios comportamentais, algo que reforçadores educacionais e práticas esportivas poderiam beneficiar. A prevenção só é possível com a previsão das variáveis que levam os cidadãos a agirem contra a lei, e o controle de medidas alternativas a própria punição. Mas, como não é o caso do Brasil, as coisas por aqui funcionam na base da coerção. Se pune o indivíduo, e o julgamento crítico da sociedade quanto ao conceito de justiça se baseia no “agiu porque quis”. Conforme matéria da revista Carta Capital, “o País é o segundo que mais prendeu em 15 anos, mas continua sendo recordista de homicídios”, o que destaca a ineficácia de medidas punitivas.
Skinner, no livro Ciência e Comportamento Humano destaca que “um código (lei) sustenta o comportamento verbal que preenche as lacunas entre aspectos de punição e o comportamento de outros” (pg. 192). Tendo em vista a argumentação, a lei só seria eficaz se outras medidas fossem programadas, como educação de qualidade, áreas de lazer e tempo para lazer, hospitais e medidas em saúde, projetos culturais, etc. Como se sabe que pouco desses fatores são dispostos no ambiente social, e quando são, segregam a população detentora de bens da que pouco possui, não é de se esperar outra coisa que não a ineficiência das leis, do abuso de autoridade, e do desconhecimento e implicações ruins de medidas tomadas sem consulta à população, como é o caso da Reforma Trabalhista.
Conforme Sidman, ainda no livro já citado, “somente alterando as contingências, as interações entre conduta e ambiente por meio das quais as leis comportamentais operam, começaremos a ver a cooperação substituir o contracontrole” (p. 237).
O trabalhador possui recursos para ir contra a reforma trabalhista, seja através da greve, da luta sindical, das mobilizações, seja por meio do diálogo e dos debates sobre esses assuntos. Algumas das partes mais absurdas a que pude ler na proposta de reforma trabalhista (o link da proposta na íntegra está nas referências) estão inclusas as modificações do tempo de trabalho para aposentadoria, os benefícios que não serão retirados da classe política, as questões de teletrabalho, o aumento da carga máxima de serviço diário, e o principal, que considero, a questão de as “normas” das empresas estarem acima da própria constituição, ou seja, a reforma trabalhista acaba sendo um aniquilamento de boa parte dos direitos já estabelecidos, além de que, provavelmente, gerarão danos na sociedade.
Levando em conta que nada até o presente momento foi feito em prol da sociedade, como um todo, nada me faz pensar que o dinheiro economizado com a aposentadoria dos brasileiros seja usado para aplicação em áreas fundamentais, como saúde, educação, lazer e redução de taxas de juros.
Outra observação, é que qualquer cidadão semi-letrado consegue entender que a expectativa média de vida do homem brasileiro, estando em 71,9 anos, e a aposentadoria integral sendo possível apenas para aqueles que terão 70 anos, é nítido que os que dispõem de menores benefícios de saúde e lazer, não atingirão a aposentadoria e, trabalharão a vida inteira pagando para o governo algo que não terá retorno. Sendo por demais otimista, podemos prever que 50% da população brasileira viverá para receber a digna aposentadoria. Ou seja, sobrará verba no caixa governamental em relação a esse quesito. O que será feito com a verba? Será utilizada para cobrir os desvios de caixa, tão recorrentes, além de pagar juros da dívida pública, que só aumentam por péssima administração dos recursos.
Para fechar, vale citar um trecho do poema Verão, de Ferreira Gullar, “e a luta de resistência se trava em todo lugar: por cima dos edifícios, por sobre as águas do mar”, e complementar com a afirmativa de Leandro Konder, no livro Marxismo e Alienação, “a totalidade da economia capitalista se torna ininteligível até para os seus beneficiários” (p. 137).

Referências utilizadas:

CAMARA DOS DEPUTADOS. Reforma Trabalhista. Disponível em: <www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2122076 (lei de reforma trabalhista) >. Acesso em: 29 abr. 2017;
CARTA CAPITAL. Se cadeia resolvesse. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/revista/838/se-cadeia-resolvesse-4312.html>. Acesso em: 29 abr. 2017;
CONGRESSO EM FOCO. Caixa preta da aposentadoria política. Disponível em: <http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/abrimos-a-caixa-preta-da-aposentadoria-dos-politicos/>. Acesso em: 30 abr. 2017;
DIPLOMATIQUE. Desconstituição do estado. Disponível em: <http://diplomatique.org.br/a-desconstituicao-etica-moral-cultural-e-institucional-do-estado/>. Acesso em: 30 abr. 2017;
ESTADAO. Campanhas políticas gastaram 5 bilhões em 2014. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,campanhas-gastaram-r-5-bilhoes-em-2014-imp-,1600362>. Acesso em: 30 abr. 2017;
IBGE. Tábua completa de mortalidade para o Brasil – 201 5. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2015/tabua_de_mortalidade_analise.pdf>. Acesso em: 30 abr. 2017;
KONDER, Leandro. Marxismo e Ideologia: Contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação. 2 ed. SP: Editora expressão popular, 2009. 131 p.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. 1 ed. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002. 99-130-131 p.;
SIDMAN, Murray. Coerção e suas Implicações. São Paulo: Editora Livro Pleno, 2009. p. 236-237;
SKINNER, Frederic Burrhus. Ciência e comportamento humano: Science and human behavior. 2 ed. SP: Edart São Paulo, 1971. p. 192.


(texto de origem própria, elaborado para o blog de Análise do Comportamento que colaboro, Blog de Análise do Comportamento )