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9 de abril de 2020

*


quisera rima completa
            nevoeiro que não passa
chovesse na rua deserta
              e embaixo da minha asa

queira rima completa
           passar longe do bairro
do contrário a gente flerta
          e em ti eu me amarro

que chova lá na secura
               não sob a luz do poste
vá bem na parte escura
                longe de todo holofote

1 de abril de 2020

Cantiga para criança mimada dormir - parte I



Dorme passarinho
sou teu ninho, teu ninho
ruído vem do mundo
um segundo, um segundo,
fecho a janela começa garoa
eis que teu choro aqui ecoa
dorme dorme dorme
dorme passarinho
sem forma se conforme
a sombra é companhia
tu não está sozinho
tem tua barriga vazia
dorme passarinho
sou teu ninho, teu ninho
o escuro desse cômodo
é pra te confortar
a visão é um incômodo
sente o banho do luar
dorme passarinho
não tem ninho, não tem ninho
deus não te escuta
camuflado na igreja
é tua toda a luta
que milagre tu almeja?
dorme passarinho
que teu sangue é teu vinho
dorme dorme dorme
que a dor já é enorme
dorme passarinho
sou teu ninho, sou teu ninho
imagem e semelhança
meu rosto de caveira
não chora minha criança
tirarei tua dor inteira
dorme passarinho
sou teu ninho, teu ninho
venho com a gadanha
ofereço a morte eterna
trago pão para barganha
meu alimento te hiberna
dorme passarinho
sou teu ninho, teu ninho.

22 de dezembro de 2019

"Conciliação" pragmatista entre eus (IV)



Uma calmaria que até estranho
Incertezas que fazem cócegas
Em meu ego que não revida.

Para onde foi todo tormento?
Lamento comigo, enquanto leio.
De certo, adormece, para de pronto,
me tomar por inesperado, me domar.

Há de se estranhar sempre que algo vai bem.
Quem incrédulo sempre foi
não é em uma noite que toma fé, nem em si.

Talvez o fim do ano, talvez.
O impasse de saber se o que virá é pior.
Ou a repetição já me devorou e nem vi.

Meus eus, outrora gladiadores estúpidos,
presos parecem na constante do agora.
Até quando isto segue, suponho que não muito.

Na ausência de tempestade, fiquemos com o copo d'água.

 

5 de novembro de 2019

Narrativas e choques



Ao fim, tudo é contexto. A narrativa precária de minhas mãos é contexto e o suor que escorre de seu rosto em meio ao calor infernal que vivemos, não poderia deixar de ser contexto. Ao fim, falamos de relações. Uma teia de aranha a prender o que por ali passar. Entender o mundo enquanto função dá lá muito trabalho. Evitar o julgamento e exercer a compreensão em casos extremos, dói, faz sangrar. Não é dar uma de isentão. Não é dar uma de "é assim que é, é assim que tem que ser". Não tem que ser, mas é. E com o verbo To Be não se discute. Ao acaso me crucificariam se ouvissem de meus lábios que as coisas são como poderiam ser? Não canto o amanhã, porque de fato nem existe. Só o hoje e o que já pestanejamos por aqui. Futuro é teleologia. E Hegel que tome seus remedinhos (não só). Analise seus verbos e seus silêncios. Mera função de um ontem. Eis o "eu". Uma invenção linguística. Só há "eus". Que não há uma unidade a manter a loucura encarcerada em sei lá onde. Não. És mais que um. Somos vários. E o conflito que temos é resultado desse lamurioso choque: é o encontro da filogenia com a ontogenia, banhadas pelo mar de cultura que navegamos. O caos olhando pela fresta da porta.

 

15 de julho de 2019

"Conciliação" pragmatista entre eus (III)



Dói. Angústia de sei lá o quê.
Machuca. Desamparo constante.
Nó na garganta, sorriso fingido.
Poucos goles de café, o dia todo.
Boca amargada; distância.

Sou o rato no laboratório.
O experimentador retira a barra
retira a água, retira o controle de temperatura,
retira as pelotas de alimento.
Mas, não específica o comportamento
que devo manter.

Rumando uma conciliação
entre as partes do que chamo de "eu"
fico em volta e meia, de um canto para outro,
do trabalho para o estudo,
da cama para o chuveiro,
do gole de vinho ao copo de água,
da sua ausência para a minha.

A gaita, triste nas notas abafadas,
perpassa o canto do Urutau e,
fica nisso.
Mas, de vez em quando, esqueço
e, evitando minha própria cilada,
sorrio comigo.





 


 

12 de julho de 2019

"Conciliação" pragmatista entre eus (II)



Desfazer-se e ser de si, um mero ouvinte.
Na avenida, me observo sendo aquilo que nem sei.
Definir-se? Algo complicado e de pouca precisão.
"Comum". Essa é a palavra que gostaria de ouvir.
Um amigo disse que ser "medíocre" é o ápice.
Sempre concordei. A média basta.

Mas sempre tem o lado egoísta, o lado voraz,
insatisfeito com o de sempre. E sempre tem
o lado egoísta que quer suicidar o lado egoísta.
Deseja sufocar, aos poucos, a parte que sente algo.
Mas, soltando os dedos, deixa respirar no último segundo.
No fundo, sabe que não deve manter um lado só da moeda,
pois ela deixa de ser uma moeda.

E tem a parte que concilia tudo,
que, desgastada, se põe ao trabalho.
Serrote nas mãos.
De início, parece derrubar a árvore...
Tesoura de poda.
Ornando, em movimentos, seus traços.
E lá está, diminuída, simples, mas em pé,
a árvore com seus novos traços.

Analogias e metáforas, bem,
isso nunca foi meu forte.



18 de novembro de 2018

Antropofagia Burguesa: ¡La puta hostia! - Parte II




Na boca, a hóstia desce seca
O rosto do fiel que pregaria Jesus na cruz
Lembra formas de dominação furreca
Pintar quadros de um semideus de olhos azuis.

Jesus era negro. Cabelo enrolado.
E comunista que era, dividia o pão.
Se estivesse conosco hoje, cansado
Estaria desse caos controlado e sacristão.

O Magistral Império Romano
Hoje, não tão glorioso,
Esconde por debaixo do pano
Dos seus bispos, o gozo.

Na boca,¡la puta hostia!

27 de outubro de 2018

Esquizofrenia: Sartre, Hegel e Heidegger (2)



Confundir
condição com causa
mesmo que

tratar igual
o cu e a calça.

Modismos existenciais
tão diferentes entre si
e nos jargões, iguais.

A ignorância filosófica
má-fé, penso. E fica,
repetindo a mesma história.

Papinhos pós-modernistas
um aplauso aos sofistas:
recusam ciência pela pura crença.

Que angústia, não?

17 de abril de 2018

Walden Two em minhas mãos I



Um ambiente sem luz
seria possível?
um escuro completo
sem poste por perto
sem Sol pra guiar?

Um ambiente
sem luz no fim do túnel
sem holofotes
um escuro completo
sem tom inquieto
um xadrez pra jogar?

Um ambiente
amigo
não ambivalente
sem perigo
sem chance de errar?

Um ambiente
uma sociedade alternativa
uma Walden Two
difícil ocorrer?
uma comunidade que viva
por viver?

Um ambiente
aprazível
ao outro
sensível
onde busco?

Um ambiente
que o outro entenda
que ao brilhar
o outro ofusco?

Só um ambiente
de contingências programadas
com pessoas amáveis e amadas
e sorridente
um Skinner a passear?

Peço demais?

Ao som da questão
meu amigo me chama
para o cruel
para o real

a mudança ocorre
feito lesma,
a coisa é que parece
sempre a mesma.

Mas não é, não.
Milton atravessa a faculdade
exuberante.
Paula atravessa a cafeteria
sorridente.
Lucas(as) pede para jogar um xadrez, modo clássico.

O dia se torna gracioso.

24 de agosto de 2017

Só Sol Ser II



Vai verbalizar
ou alisar o verbo
enquanto
silencio e
                           :

           me que
 b
    ro?

Que tem errado
palavra chovendo
pra tolo lado

Quero ver crê
n'aquilo que não se viu
será que vai valê
vivê cheio du tal vazio?


vê problemas demais
os probe humano
é só

e mazelas animais


23 de agosto de 2017

Só Sol Ser I



Encarar as coisas
como o mar encara
o vento,

assim

querer, eu quero,
só me falta
o talento. 


1 de março de 2017

De promessas que não faço, causas que não abraço - Parte I



Prometeria-te versos
diversos, inversos e perversos
se minh'alma permitisse tamanha ousadia,
se o desejo, existisse, toda noite, até de dia,
arderia, meus pensamentos, movediços
escassos, rasos e tão vulgares, como nuvens
que vês, que ao invés de chuva, sol raiasse.

Prometeria-te o meu amor, eterno fosse
tão grandioso, tão sublime e terno
mas não ouso escrever-te no caderno
tampouco ouço teu soluço, teu gemido
pois dele já tenho olvidado, esquecido.

Prometeria-te. Mas promessas
são feitas e desfeitas, são remessas
de (des) prazeres descumpridos
são amores inacabados, são versos intrometidos,
de nada adiantam.

Prometeria-te luas e luares
mas os astros se viram bem sozinhos,
e estão em todos os lugares
como o Sol, iluminando os caminhos,
bem como tu, quando sorri ao desastre
que é essa poesia, esse verso, essa "arte".

Prometeria-te a santidade e o pecado
mas não sou anjo ou diabo
as vezes nem humano me sinto,
mas te garanto, ser sempre sucinto
naquilo que, as vezes, sinto;
ao que não sinto, pouco direi
mas certamente, ausente, escreverei.

Prometeria-te mil maravilhas
mas sei de minha própria natureza
tão vazia de novidade,
provável que reconheça a milhas
o meu jeito, minha estranheza
no meio dos outros, da cidade.

Prometeria-te rimas e doçuras
mas sei de minha própria natureza
tão entediante, sem aventuras;
e eu, sem dignidade de tua realeza
trovo a trova da tristeza,
do feliz entristecer, não da triste felicidade
cíclica, rítmica, de nossa geração.

Prometeria-te um começo, um meio, um fim,
mas sei de minha própria natureza
e, o pouco que lhe dou certeza
é que meus poemas terminam sem graça, assim.
 

7 de janeiro de 2017

O semideus


Não, você não precisa mostrar aos outros
que é um semideus, o mais forte, o mais sábio.
Não é necessário ser o melhor no trabalho,
tampouco o melhor da faculdade, ou da academia.
Sei que o ser humano tem essa tal mania,
ser herói para o alheio; para si mesmo, espantalho.

Mas não. Acredite. Você é seu próprio deus,
e os problemas que enfrenta não são meus,
as soluções aparecem facilmente, na cara.
Se entender, fico feliz. É coisa rara.
De fato, a maioria dos desastres são verbais:
culpe a soberba e o querer ter/ser demais.

Sujeito fica sendo esnobe:
ou diz ser rico, e ser dono de tudo,
ou diz ter orgulho de ser pobre.

Não, você não precisa disso.
Fale quando for apenas necessário
Caso não, caso seja o contrário,
fique ai, plenamente omisso.

Vou encerrando este poema, já estou farto.
Se precisar, me chame, estou lendo no quarto,
e digo mais,

você é seu próprio deus
no entanto
você é seu próprio demônio.  

13 de dezembro de 2016

Margens e poemas


Marginal?
Se é a margem
que não me respeita
afinal.

Imagina
se cada um
na margem
margina.

Essa coisa de margem
essa coisa de linha
escrever é só viagem
a margem poeta definha.

Marginal.
Ainda me diz?
Se escrever
na margem
me deixa infeliz
por que escreveria?

Eu seria escravo,
mero fantoche, deboche, espantalho,
viveria na cova que não cavo
e seria só um deus frustrado, falho.

Me reinventar todo dia
fingindo amor que não devia
isso seria suicídio, chuva de canivete.
Prefiro sete anos agradáveis
que do contrário setenta e sete.

Do contrário
seria cavalo de corrida
que louco dispara buscando ser campeão.
Perdendo a vida.
Não sirvo pra isso não
prefiro ser aquele
fora do páreo. 

10 de outubro de 2016

PsicoPoema IV


E foi assim, que o Sábio, Ser Humano,
após desbravar teorias e teoremas,
após destruir o sagrado e o profano,
resolveu se isolar e escrever poemas:

Após certo tempo, longe do perigo
de ser tomado como fútil ou como herói,
construiu seu alicerce que agora, não corrói:
não fugiu da chuva, não procurou abrigo.

Se abrigou na própria tempestade
não dando a ela poderes ou magia,
e assim sendo, reconheceu que verdade
é não inventar algo além do que ocorria.

Num tempo a que chamamos passado
homem sábio, fogo conheceu
e se explicou, de tão impressionado,
que Vulcano o fogo deu.

Aprendeu-se técnicas: controle e previsão.
Vulcano e seus nomes variantes
desapareciam ao passar dos instantes,
pois nesse mundo já não tinham função.

E nesse tempo em que vivemos
o homem que enterrou seus deuses
reinventa-os várias as vezes,
pois, de fato, nem tudo conhecemos.

Homúnculos, liberdade, livre-arbítrio, egos.
Self, transpessoalidade, o culto ao oculto,
perceberemos então que estivemos cegos
e por fim, saberemos, que nada é fortuito.

Mas há quem insista.
Mas para cada um que insista,
há outro que pela lógica
persista.

8 de outubro de 2016

Os deuses e a linguagem


Os homens, aos poucos, enterram seus deuses.

Outros homens, aos muitos, renomeiam suas divindades.

Os deuses copulam na linguagem, e brincam de reinvenção.
E surge o deus Liberdade, e surge o deus Livre-arbítrio,
e surgem deuses, o deus Energia, o deus Personalidade,
e do Deus que Nietzsche matou outros dois novos Deuses:
o Deus que chamamos "Mente" e o Deus "Energia".
Todos esses deuses possuem função na sociedade.

Mas, aos poucos, os homens enterram seus deuses,
aos poucos, aos poucos...
pois temem que, não havendo deuses para enterrar
não possam viver sem eles, e assim tenham
que enterrar seus próprios medos e viverem
sem suas ornamentais superstições.

Pois temem que, não havendo o que temer
temam a ausência do oculto.

22 de setembro de 2016

Orelha Vulcânica III



Dizem de liberdade.
Dizem de prática libertadora.
Dizem de livre-arbítrio.
Dizem de Indeterminismo.
Dizem, apenas dizem,
é mais fácil dizer que
todo mundo escolhe.

E por que dizem assim?
Ah... essa sociedade coercitiva,
sempre servindo aos seus senhores,
aos seus deuses personificados ou não.

Animal, como outro qualquer,
encantador, como essa vida toda.
Não basta estar vivo e ver que a vida
é tão profunda
que acrescentar algo mais
é menosprezar o próprio Existir?
Apenas retardamos a possibilidade
de um amanhã melhor do que esse hoje.

Dizem que o pobre é assim porque quer.
Dizem que quem tem depressão está assim porque quer.
E não dá, em definitivo, ainda que isso seja apenas poesia,
para resolvermos nossos problemas ou entender os outros
enquanto acharmos que as pessoas sofrem porque se intencionam
a sofrer.
Enquanto dizermos que o drogado se droga porque quer ou
porque escolheu se drogar.

E há quem insista,
há quem bata palma,
há quem escute sem criticar,
há quem repita

bobagens, bobagens, bobagens,

E nestes versos nada versados
deposito as falácias das quais
alguns já estão cansados, cansados.

21 de setembro de 2016

Orelha Vulcânica II


O ouvido chega a lacrimejar.
Os olhos preferem a cegueira:
não mais aguentam a tortura
interpretativa e circular do autor.

Termos difíceis, mas grosseiros,
contraditórios, autossuficientes.
Num momento tenho a impressão
do autor não ter lido o que escreveu,
como se consultasse um dicionário de rimas
sem qualquer função, para parecer bonito.

Há loucos ao meu lado acenando
felizes com o que leram, felizes e tão felizes.
Será que sou eu o louco por questionar?
Não me explicaram as regras deste jogo maldito,
mas compreendo...
É até mesmo razoável que não queiram duvidar.
É até mesmo razoável que não argumentem,
se tudo não passa de "opinião", e as críticas, que são?
Bem... dizem ser "inquietações".

Em seguida, me levanto, pois começam
a falar sobre os problemas da educação.
Não sei se é ironia.
Se for, é de péssimo gosto.

20 de setembro de 2016

Orelha vulcânica


Desdenho:
Retórica resplandecente
enaltecida na erupção contagiante
de obras dialéticas e sorrisos pós-modernistas
que fazem qualquer religião sentir inveja,
tamanha a inovação do inferno "científico".

Menosprezo:
Discursos contraditórios que permanecem
somente pela natureza do encanto
causado nos sedentos de sentido e semelhança
do homem à imagem celestial.

A quem me diga do próprio feitio destes versos
que tanto dizem e pouco explicam,
me refiro ao charlatanismo charlatanesco
redundante como o verso anterior,
que enfeita o ambiente educacional:

finja, pois, que compreende meus poemas.
Finjo, pois, que compreendo tua interpretação,
e assim criamos uma dinâmica harmoniosa,
sem críticas que levariam a dúvidas desastrosas.

Estupidez é inovação (?)

12 de setembro de 2016

Título, não sei qual


O ponto final não deveria existir
na poesia.
É mera formalidade dos poetas
para com os leitores.
Não há um fim, há um ciclo.
As vezes lastimável e denso
de espinhos crueis, das rosas miragens.

O ponto final veio da vida.
E isso aqui, meu bem, acaba.

Ainda bem que acaba, ainda
que alguns insistem em dizer
que daqui se vai para outra melhor
ou pior.
Isso é tudo. Depois, como escuto
numa canção do Lenine,
é só carbono. E as dúvidas se vão,
nessa certeza desesperadora
para alguns
e reconfortante para poucos,
seguindo o tal

ponto final