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22 de abril de 2020

Banquete para sua profana imagem


Você sempre esteve nas minhas manhãs, tardes, noites e madrugadas
nos meus pensamentos sombrios, nos rasos, nos profanos e nos mais sacros
vive em minha consumada liberdade e na minha impiedosa determinação;
enquanto lavo a louça, você está ali, me soprando aos ouvidos
enquanto tomo meu banho, enquanto bebo meu café, minhas doses de seu nome,
nas músicas melancólicas você está, sempre esteve, nos pedais, nas notas do baixo,
gritam seu nome em todos os rostos e ventos, o mendigo me disse seu nome
as jabuticabas são seu olhos, o céu escuro teu corpo, as luzes de natal piscam você,
nas angústias que ninguém mais conhece, você secou cada lágrima que você mesmo causou,
nos meus pesadelos e nos meus minuciosos e indescritíveis sonhos de uma sociedade alternativa,
na minha nudez, na vergonha, no ócio não preciso comentar. Você está presente,
no campo vazio da poesia que tem suas curvas, a letra cheia e disparada, que tem suas mãos
seus olhos julgam cada movimento que esse peso realiza, as rimas tem sua autoria,
as hipocrisias que narro são todas suas e não há sujeito que não você,
o som da gaita é sua sonoridade desenhada em sopro e aspiração,
a leitura que faço de Jorge Luis Borges, Neruda, Thoreau, todas, fotografias de seu sorriso
ou mesmo de seus choros, seus ataques histéricos e sua paz inigualável
o conceito de alienação carrega sua graça, os pássaros que vejo voar, as desgraças do cotidiano
tudo e todos são você.
Deus e deuses e deusas, você.

Ao passo que olhando no espelho, escrevo essa poesia e me dou conta de minha compostura narcísica.
Não me apedrejo.
Não me crucifico.
Não me espanta.
Vocês também só veem vocês nos outros.
Mentirosos.

12 de março de 2020

"O que é a vida?"


A vida
é um verbo.
Nada divino.

A vida
é gerúndio
que não se conjuga.

A vida
é hóstia e hostil.
Consequência sem causa.

A vida
é esperança
toda em vão.

A vida
não tem volta
nem tem ida.

A vida
descubro
- é provocação.
 

3 de março de 2020

A antítese de Deus


Foi durante muito tempo anunciado que o Diabo existe. Em todas as gerações e todos os povos, a figura do capeta rondou os séculos e os pensamentos dos mais canibalescos e mesmo dos mais bobos metidos a santidade. Diabo ali, Diabo aqui. A culpa sempre do Diabo. Igrejas, mansões, templos e oligarquias foram construídas sob a palavra referida. A pedra fundadora do Catolicismo nunca foi Pedro, nunca foi Paulo, nunca foi Madalena. A origem do Catolicismo se dá, em última instância, no mito do Diabo. É o capiroto a imagem anunciadora da salvação. Em termos de mitologia, claro. Pois que, venho anunciar, após séculos e séculos de falseamentos que, o Diabo, meus caros, o Diabo não existe! Apenas o judaísmo chegou tão perto de tal afirmação.

Alguns, devo admitir, já chegaram nessa mesma formulação. Mas, para eles, outra função escorria nos versos. Não diziam "o Diabo não existe" para que assim firmassem a inexistência per si. Não. Havia sempre um algo mais. Talvez, como os satanistas, o interesse seria em agregar pessoas para essa tendência banal de achar que cada um é seu próprio deus. Para os judeus, a obviedade, maior concentração econômica e alívio da culpa quanto aos pecados capitais. E assim seguimos.

O Diabo não existe; não por ser apenas um mito, uma alegoria, ou seja lá como queira chamar. Não também pelo motivo de que os pastores inventaram-no para amedrontar os fieis ou infiéis de seus rebanhos. Menos ainda, como querem os historiadores, por razões de ordem política. Não.

"O Diabo não existe porque Deus não criaria a antítese dele. Para quê? Para encher o saco?". E se vocês acham que a explicação é pouca, ou mesmo incoerente, devo alertar, como o autor da frase disse que, "todos nós somos incoerentes, a vida é uma incoerência".


Post Scriptum: o texto surgiu depois de assistir ao programa Provocações, na época do Abujamra (óbvio), ao qual muito aprecio. O entrevistado que deu essas respostas, nada mais nada menos que, Clodovil. As frases são dele. Feitas durante a entrevista. Um gênio. Encarar suavemente o Abujamra e ainda conseguir respondê-lo com ironia. Para poucos. Se divertir com as perguntas dele, para ainda menos mortais.

Caso queira assistir a entrevista, clique na palavra PROVOCAÇÃO!

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2 de março de 2020

B-A-B-oseiras sobre aprendizagem e erro (Ou, erros não ensinam)





Se aprendo
que errado é errado
nem por isso
aprendo o certo

continuo
repetindo erros
buscando
areia em deserto

de certo, o livro
do qual me livro
quando leio
me ensina a ser íntegro
quando sou meio
(beijos Dostoiévski)

se aprendo
que errado é errado
não sei quando certo,

as vezes erro
pra fazer charme
pra dizer que do acerto
passei perto,

mas não venha
com fogo na lenha
dizer que errei,
disso, eu sei,

diga então
se errada é a resposta;
quem saberá se amanhã
sairá a errata
da questão.

26 de fevereiro de 2020

Mantra para dias tensos


É quando não sabemos o que queremos da vida, mas sabemos que queremos a vida, é que nossas vidas possuem algum sentido, alguma lógica mística. Qualquer que seja lá o que for que queira da vida, já não está são, não resguarda a sobriedade dos milênios. Desejar algum objetivo extremo, como religioso devoto a profanar o tempo com suas orações, é o símbolo da loucura. Não insinuo que nada desejem. Pelo contrário, torço para que todos e todas desejem o quanto puderem. Mas desejem sem desespero. Deseje o pão como alguém que tem o vinho. Deseje desejar mais do que seu próprio desejo. Mas não se prenda nisso. Não queira algo da vida. A vida te esgota quando há motivos demais para alcançar.
A vida te esgota. E você não esgota nada da vida. Ao que der, sorria. Não é um fim, não é um início. Vai ter muito meio, percurso em voltas, labirintos descabidos, dores nos pés. Será sempre assim. Descanse. Tome uma boa cerveja. Um bom vinho. Um bom café. Um bom chá.

Goze.

11 de fevereiro de 2020

Só o título é relativo.



Preciso sentir uma tristeza verdadeira
Não apenas uma aguda sensação de vazio.
Preciso me deixar repousar inquieto
Não apenas deixar a rotina forçar meu sorriso.
Preciso me esquivar, fugir, sei lá para quê.
Não apenas ter motivos para tudo.
Preciso correr, em círculos, várias vezes.
Não apenas anotar os km de meus passos.
Preciso me esborrachar, deixar-me em queda.
Não utilizar o paraquedas para toda altura.
Preciso me acostumar comigo.
Não apenas acostumar-me com os demais.
Preciso sentir uma tristeza verdadeira.
Não apenas banir os pensamentos levianos.
Preciso uivar. Preciso mugir. Até latir.
Não apenas repetir vocalizações culturais.
Não preciso de muito. Não quero muito.
Não desejo demais. Não. Seriamente, não.
O jardim está belo. Borboletas são acréscimos.
O mundo é um paraíso. Como todo paraíso,
há esquisitões, há diabos, há metidos a anjos.
Que saibam, não sou o demônio incorporado
Menos ainda um santo, um beato.

E não estou no mundo para mártir.
Meu suplício é menor que o Artigo 6º da Constituição.
Não estou no mundo para o mundo.
Pensam que estou para mim?
Não também. Não tenho objetivos.
E isso é magnífico. Acreditem.
Não ter um peso, uma missão, um além.
Apenas a insignificância de nossas vidas.
Clamando por algo a fazer.
Exigindo verbos, adjetivos e regras gramaticais.
Exigindo o contrário disso.
Para tornar-se aquilo.
Não é mesmo? Talvez não.

Quem é que sabe algo? Que o saber
é somente acúmulo. Repertórios soltos
Verbais prontos para disparar aos ouvintes
Aquilo que pensam que querem ouvir.

 
 

29 de dezembro de 2019

Verum velle, parum est


Heresia
é crer.

A fumaça do arcebispo
na face das criancinhas
a cobra fumando o Sol
a Lua putrificada abençoa
"vinde todos, vinde"
dizia o maldito.

Perdão é falta de análise.
Pecado é uma honra.
A semente da discórdia floresce
E todos sabemos que ela é necessária.

Na sacristia, a traição.
Jesus jogando tudo ao chão.
Aos pastores, ele, puto, dizia,
"seus filhos da puta, transformaram o reino do meu pai, num mercado de peixes".

Depois, dizem que aprenderam com ele
a multiplicar os peixes recebidos dos pobres.

Garanto.
Heresia
é crer.

Numa divindade só, pior ainda.
Se for para acreditar, que seja no Panteão,
qual queira.

*P.S.: vocês também se incomodam com as imagens católicas de Jesus e Maria? Branquelos, parece que nunca viram Sol, narizinho empinado, cabelinho arrumadinho. Dedinhos limpos. Por vir de família com tradição católica, sempre achei engraçado tais imagens. Tem um quadro na casa da minha avó, suponho que seja Maria. Além de todos esses pontos que comentei, ela ainda tem a bochecha rosada de blush. Não querendo problematizar nada, até porque a maioria do Brasil já é protestante mesmo (protestante, o nome parece piada), e não são chegados em imagens, só em suor do Valdomiro e em madeira da terra santa de um outro pastor que não lembro nome, mas provavelmente, e confesso que depois pesquisarei a respeito para ter certeza, Jesus (e o povo todo lá da segunda geração do Best Seller Bíblia) era negro. Enfim, só um comentário solto aqui.

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22 de dezembro de 2019

"Conciliação" pragmatista entre eus (IV)



Uma calmaria que até estranho
Incertezas que fazem cócegas
Em meu ego que não revida.

Para onde foi todo tormento?
Lamento comigo, enquanto leio.
De certo, adormece, para de pronto,
me tomar por inesperado, me domar.

Há de se estranhar sempre que algo vai bem.
Quem incrédulo sempre foi
não é em uma noite que toma fé, nem em si.

Talvez o fim do ano, talvez.
O impasse de saber se o que virá é pior.
Ou a repetição já me devorou e nem vi.

Meus eus, outrora gladiadores estúpidos,
presos parecem na constante do agora.
Até quando isto segue, suponho que não muito.

Na ausência de tempestade, fiquemos com o copo d'água.

 

7 de dezembro de 2019

Sobre crenças, pragmatismo e Leminski


A minha descrença religiosa perpassa a própria fé que tenho em meus hábitos. Verdade seja dita, minha crença maior é a de que crenças são aberrações. E mesmo crenças pessimistas, como o crente do fim do mundo, ou o crente de que o mundo é um lugar ruim. Nem bom nem ruim. É como é. E assim está por causas passíveis de explicações, ainda que bizarras.
Não consigo admitir a necessidade de discussão sobre a existência de forças maiores ou seja lá como você chama isso. O nível de descrença é tanto que não posso nem me considerar um ateu. Não mesmo. Ateus se prestam a negar. Vivem a vida negando algo que não acreditam. E para que negar algo que não me presta respeito? Ignorar. Verbo que define. Do outro lado temos os religiosos. Não sou psicanalista, aliás, considero tal prática religiosa também, mas não devo deixar de concordar que aquele que crê está por declarar sua falta. Crê em um céu, em um paraíso, possivelmente porque lhe falta paz, não tem sossego em seus dias. Teme o inferno por ter desejos que não tem coragem de suprir. E então, a lei máxima dos religiosos, tentam arrancar os prazeres alheios por meio da palavra. Dizem, "isto é pecado", "aquilo é o diabo". Oras. Que seja o diabo e que aproveitem a vida. Denunciar o pecado é pecado também, não sabiam?

Mas não quero mudar o foco da conversa. Estava dizendo de minha percepção, de minha autoanálise, de que não consigo, por mais que tente, crer ou ser descrente. Tampouco creio em um só verso que escrevo. Mas também não dou por falso. É questão interessante essa a de não considerar que algo exista ou não, que faça diferença ou não.

Sempre que entro por esses nós de pensamentos, por essas avenidas reflexivas, ascende a resposta de que sou apenas, pragmatista. Na raiz do termo filosófico mesmo. Não no popular da palavra. Por isso, a poesia de P. Leminski me diz respeito. É tal:


eu ontem tive a impressão


 
"eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu pra falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus"

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Paulo Leminski era um gênio. Um desaforado fenomenal. Fiquem com essa.

 

5 de dezembro de 2019

Regras ocidentais empanadas em farofa de pensamento (I)


"Suspeite daquilo que mais desejas", é o que vos digo. E, repito, com outras palavras, para que não sejas refém de tua sina e de teus sórdidos pensamentos: "ignore o lado poético que suspende as regras morais e, num só golpe, desperte de seu estado hipnótico de almejar algo".

Ao fundo, bem sabes que queres somente o que jamais terá. E não por incompetência, mas que no modo ocidental de arranjar as coisas, o desejo é puro estado de ausência. Então, repito a mesma asquerosa frase: "suspeite daquilo que mais desejas".

29 de novembro de 2019

Utopias e os espíritos atuais

 
Acreditar em utopias preserva o mundo do caos. Desejar aquilo que sabemos improvável, não é aumentar a proporção da queda. Ao contrário, é crer que somente aceitando a profunda escuridão é que saberemos soluções para ela. Acredito em utopias. Sempre acreditei. Em deuses e figuras de linguagem, quase nunca. Em Utopias sim. Não há nisso ato ilusório. Há rigor. Aliás, o que foi que fizeram com os escritores de Utopia? Vejo que só há espaço para Distopia. Uma lástima que os seres do mundo se prendam a satirizar aquilo que é desejo e alternativa. Os distópicos, no fundo, satirizam suas próprias descrenças e pessimismos. Crer em Utopia não faz de ninguém um sonhador ou mesmo um religioso, ou ainda, um otimista. Não. A Utopia é a margem do Pragmatismo.
 
 

28 de novembro de 2019

Gaia Gandaia


I-
Ao passo que, alguns, desesperados pela constância de suas crenças, iniciaram um movimento de luta contra as ideologias. Foi mais ou menos assim que começou o caos, se me recordo. Disseram que a História era ideologia, que os livros eram ideologia, que a poesia era ideologia (essa, concordo), que direitos humanos eram ideologias, foi por aí. Foi, não? E faziam isso tudo com o que? De que forma bradavam a morte dos ideais? Qual a cruz usada nessa cruzada? Com o que quiseram apagar os valores sociais e o espírito crítico?
Preciso mesmo responder que era com a mais ferrenha e estúpida... ideologia?


II-
Detenha-se. Quando chega ao ponto de negar a existência do racismo, de negar a poeira de desigualdade social no ar, de dizer que não existe preconceito, que não existe pobreza e fome, que indígena não quer terra para morar, que direitos sociais são problemas; quando chega a esse ponto; por favor, detenha-se.
Não faça papel de palhaço. Por favor. Negue dados com dados. Não entre em desespero argumentativo. Em que mundo você tem vivido caro leitor? Quem foi que te disse que sonhar com uma utopia, ou com um mundo menos injusto, é coisa de esquerda? Adivinhe só. Causas sociais e equidade são princípios básicos de cidadania. No mais, detenha-se. Ainda que eu saiba, infelizmente, que você tem suas razões para agir assim. Todos temos. Mas, detenha-se, no conforto de seu casulo mundano.

III-
Sei que palavra não faz efeito em tábua.

 

5 de novembro de 2019

Narrativas e choques



Ao fim, tudo é contexto. A narrativa precária de minhas mãos é contexto e o suor que escorre de seu rosto em meio ao calor infernal que vivemos, não poderia deixar de ser contexto. Ao fim, falamos de relações. Uma teia de aranha a prender o que por ali passar. Entender o mundo enquanto função dá lá muito trabalho. Evitar o julgamento e exercer a compreensão em casos extremos, dói, faz sangrar. Não é dar uma de isentão. Não é dar uma de "é assim que é, é assim que tem que ser". Não tem que ser, mas é. E com o verbo To Be não se discute. Ao acaso me crucificariam se ouvissem de meus lábios que as coisas são como poderiam ser? Não canto o amanhã, porque de fato nem existe. Só o hoje e o que já pestanejamos por aqui. Futuro é teleologia. E Hegel que tome seus remedinhos (não só). Analise seus verbos e seus silêncios. Mera função de um ontem. Eis o "eu". Uma invenção linguística. Só há "eus". Que não há uma unidade a manter a loucura encarcerada em sei lá onde. Não. És mais que um. Somos vários. E o conflito que temos é resultado desse lamurioso choque: é o encontro da filogenia com a ontogenia, banhadas pelo mar de cultura que navegamos. O caos olhando pela fresta da porta.

 

4 de outubro de 2019

Impactos


1° ato:

"Aceitar a repetição é a dádiva do cotidiano".


2° ato:

Elaborar para repetir
Repetir para elaborar
Elaborar ao repetir


3º ato:

meio termo, ou
meio ermo ou
meio ter ou
meio ou termo
ou meio ou
meio termo ermo
ou me ter ou
ter me meio
ou. Meio. Ou.

 

24 de setembro de 2019

Ideologias e logias indecifráveis




Em geral, deveríamos nos preocupar com sujeitos que, bradando cólera e ostentando o punho de ferro, atacam com fervorosa crença aquilo ao qual se referem por "ideologia". São como aqueles que sem argumentação, inventam o espantalho e o maltratam verbalmente. Tempos de verdades absolutas e espíritos raivosos. Diálogos secos e poucas pausas. Ideologia daquilo, ideologia disso. Por ironia da linguagem, são os que pregam contra ideologias, seus maiores defensores. Fazem cegamente. São ideólogos, no sentido pejorativo do termo. Porém, jamais aceitariam tal rótulo. Pois que, por defenderem o estático, o prego que não se sustenta na areia, pensam lutar pela manutenção do bem. Tempos de espíritos tolos.

20 de setembro de 2019

Campos gravitacionais



Como um objeto espacial
a cruzar a linha imaginária que inventamos;
aos poucos, você some, se distancia,
mas no fundo sabemos que serve apenas
para que dê a volta em outros astros e tudo mais do universo sideral
e então se aproxima do meu campo gravitacional;
não há escolha
quando atinge um certo ponto, os corpos se atraem,
se colidem, se modificam;
sua órbita se confunde com a minha.

Até que aos poucos se desprenda
faça nova rota, trace sua orbe,
e volte a gravitar sem rumo;

pois não sou toda a extensão do universo
e nem quero ser.




7 de setembro de 2019

Epistemologia comportamental I



"É que o discurso em questão fere outro que não eu. Atravessa imaginários longínquos de meu apelo. E o faço por isso. Por não saber do vento a devorar a pele do desabrigado. Por não sentir os passos do miserável. Por não ter a pedra dura a me consolar os pensamentos. Por isso o faço. Por isso todos fazemos! É por não entrar em contato com as contingências que dominam seja lá o que for que está alheio.

Só por isso.

Pelo mundinho que se encerra em minha pele ser mais forte do que o que está ali, aos meus/nossos olhos, e não nos ensinaram a ver. 

Respeitar as diferenças não é suficiente. Tolerar, menos ainda. É preciso se expor ao outro. É urgente sê-lo. Que a definição de sujeito precisa ir além da pele que habitamos".

(e preciso viver isso)




12 de julho de 2019

"Conciliação" pragmatista entre eus (II)



Desfazer-se e ser de si, um mero ouvinte.
Na avenida, me observo sendo aquilo que nem sei.
Definir-se? Algo complicado e de pouca precisão.
"Comum". Essa é a palavra que gostaria de ouvir.
Um amigo disse que ser "medíocre" é o ápice.
Sempre concordei. A média basta.

Mas sempre tem o lado egoísta, o lado voraz,
insatisfeito com o de sempre. E sempre tem
o lado egoísta que quer suicidar o lado egoísta.
Deseja sufocar, aos poucos, a parte que sente algo.
Mas, soltando os dedos, deixa respirar no último segundo.
No fundo, sabe que não deve manter um lado só da moeda,
pois ela deixa de ser uma moeda.

E tem a parte que concilia tudo,
que, desgastada, se põe ao trabalho.
Serrote nas mãos.
De início, parece derrubar a árvore...
Tesoura de poda.
Ornando, em movimentos, seus traços.
E lá está, diminuída, simples, mas em pé,
a árvore com seus novos traços.

Analogias e metáforas, bem,
isso nunca foi meu forte.



11 de julho de 2019

"Conciliação" pragmatista entre eus




Despido da moralidade imposta, sou humano,
com pitadas amargas de sentimentos; sou,
e sempre fui, para ser sincero, muito menos racional que pareço.
Essa carcaça de razão impenetrável é apenas uma capa de chuva,
dessas descartáveis, de lojinhas do centro.

O eu emocional, em versos tão presente, se camufla
nos emaranhados do cotidiano, em paredes invisíveis e de isolamento acústico,
permeada de multidão e naquela sensação tão documentada de estar entre outros e se ver só.

No frigir dos ovos, o eu pragmatista impede o caos,
impede que a desordem seja notada; beira o ridículo, mas é suficiente.



 

8 de maio de 2019

A hipótese de gaia. O que será que?



O que será que? O que será que pensará?
Na sombra de pensamentos, na sobra deles,
rodeiam os carnívoros receios, floridos
a chamar a atenção dos passantes. O que será que?

A avenida não tem fim, ela acaba no começo
cada passo um dilema a reconsiderar
a música não tem fim, ela acaba no começo
a canção? Ludovic. "Eu fiz pouco caso de um gênio", é o que tocava.
O que será que?

O suor, gota por gota, escorrendo para lugar algum
Devo eu me evaporar de mim?
Poeira cósmica. Carbono por carbono. E a seleção por consequências
em três níveis (biológico, social e individual) a dependurar
o que nesse exato momento chamo de "eu". Santo Darwin!
Bendito Skinner! Oh, J.A.D. Abib! O céu rosado, a confundir
tons de azul e amarelo. O que será que?

Recuo.

Não há "eu" ali. Sou-me-mundo. Sou mesmo o azul do céu e do mar,
sou o mendigo que passa faminto enquanto outro de mim devora
dólares. Caos é meu nome. O que será que?
E no meio da relação sexual, sou eu próprio a me adentrar, e a dor
que quaisquer sentir, é a dor que sinto.

Recuo.

No fim do percurso, da longa e tão leve caminhada, revelo: não
não sou nada disso. Não há eu. Há nós e nós nessa linha.
O egoísmo é que funda o conceito de eu, o conceito de individualismo.
Não há nada tão delimitado assim. Pois se vivo, o mundo vive,
e se morro, permaneço em movimento no que deixo.
O que será que deixo? A vida não tem fim, ela acaba no começo;
só há então o que houver de relação.

Hipótese de Gaia.