19 de janeiro de 2019

Buraco de arara



as graças, as gritarias para chamar atenção
a música alta e a televisão que berra
ventiladores que nunca são desligados
olhares fulminantes de traição e desprazeres mútuos

a missa
o catecismo dos céticos
a ignorância dos senhores feudais

o céu continua azul
com tons de cinza
sabor Cutrale
 

13 de janeiro de 2019

Dança das cadeiras



séculos escrevendo um verso
que defina e não definha
palavras em que expresso
a opinião que não minha

uma dança das cadeiras

12 de janeiro de 2019

Palidez da folha



encarar o papel
por ali qualquer coisa
por ali qualquer
escritor é réu
tem vagabundo que ousa
na poesia
tatear o céu

9 de janeiro de 2019

Largo da Batata



Aos vvvventos da capital
pouco interior e muitos
arranha-céus colidindo

a que direção ir?

diversidade de caminhos
rotas para o mesmo lugar
nenhum

a plateia não assiste
a peça que a vida lhes
prega

na escada rolante do metrô
o imperativo ecoa
"deixe a esquerda livre"

a revolução tem local
largo da batata

Capitar



São Paulo
nem falo
já é cartaz

dissolvido
na multidão
descanso em paz

2 de janeiro de 2019

Testamento



Deixo-lhes o incenso
a fumaça toda
assinada por extenso

Entregas e esperas: haikais soltos


Escrever
aquilo que convêm
ou ir um pouco além?



palavra fere
mesmo que muda
ainda que breve



criança que chora
essa dor de ouvido
que mude, duvido

27 de dezembro de 2018

Gambito e gambiarra



CPFL, bye bye
foot on the floor
pinho e geladeira
ai meus ais
tudo agora é Sol
e luz de poste,
Books, books, coffee, cold water,
os livros sendo lidos

e poemas são as únicas coisas
frescas 

Molusco



Séculos sentindo
isso e aquilo
sem saber se é
dor ou estilo

14 de dezembro de 2018

HaicaiNaModa



Viu e achou vil
modismos sendo
tocados num vinil

Rascunho de 10/12 meses



Que monstro horrível
tem se tornado
aquele que não consegue
ficar parado?

Ocioso. Olhando moscas
nuvens vagarosas
ventos sopram prosas
e deixam passar.

Frenético, só correria
nuvens já pensa chuva
sol já pensa noite
pensamentos evitam
sensações,
e deixamos passar.

9 de dezembro de 2018

Previsões natalinas


Discurso pronto
vindo de boca
alheia

escuta o tonto
de lógica pouca
organiza a Santa
Ceia

Chegando o natal
clima de festa

derruba o castiçal
fogo na língua santa
verbos se atacando
religiões em conflito

ah, que natal bonito!
 

8 de dezembro de 2018

6 de dezembro de 2018

"o repertório é diferente"



Desejo-te
coisa
alguma

longe
detalhes
encobertos

toques
sensações
olho a cópia

te sinto perto

4 de dezembro de 2018

Repertório Linguístico, analogia a frases de caminhões e palavras selecionadas



... ao passo que, para que se tenha um falante, é necessário que se tenha um ouvinte treinado para se comportar em relação ao conjunto de verbalizações de quem diz.

Deixo aqui a profecia: se nossa espécie sobreviver a longo prazo (alguns anos já são longo prazo nesse caso), possivelmente o Comportamento Verbal de tipo Vocal, tenderá a assumir aos poucos uma forma cada vez mais rudimentar, até que desapareça. E não me refiro ao estético. Tampouco ao que se mostra belo.
É que para haver utilidade no comportamento verbal, é indispensável um ouvinte: onde estão nossos ouvintes competentes? E nós, temos nos escutado? Servimos de ouvinte para o nosso operante verbal? Ou boa parte de nossas vocalizações somente são dirigidas a outros seres humanos? Se escutar é doloroso. Assim, não haverá função em se comportar verbalmente e a bolha ontogenética e particularizada será ainda mais recorrente, isolando aos povos e as comunidades.
E, se não temos nos escutado, ao outro escutaremos? Duvido por demais. Agora deixarei algumas frases análogas a aquelas frases de caminhões:



"Em um mundo de falantes, ouvintes são raros e caros"


"Quem não escuta, se oculta"


"Ligue a TV, leia as manchetes e seja feliz!"


"É que do ouvido se olvida..."


"O importante é falar bonito e convencer no grito"


"até o café tem açúcar para adoçar seu ego"


"um povo está morto quando abandona suas praças"


"escutai: não os ui e os ai, mas a senhora no ponto de ônibus"


"quem não ouve nem ou nem vê"


1 de dezembro de 2018

Uma continuação dos últimos versos após 1644 dias



Não encontro silêncio em local algum
nem em alto mar nem na garrafa de rum
a tristeza toma conta, embriaga meu olhar
sou um homem sem rumo, sem céu, sem lar

Viajo entre meus dias, ultimamente muito menos
ambulante, como era até o ano passado.
Me compreenda, correr demais deixa cansado,
gente velha - como nós - quer poemas serenos

Se ando sorrindo, é tanto disfarce
quanto o que tem a minha volta
caminho com quem não realce
a cara pálida, amarela e morta

Meu amigo, não encontro em nada
mas sei onde se resguarda a quietude,
sei bem, e fico entre a cruz e a espada:
quando é que tomarei a devida atitude?


... 
 
[é, tenho sido como onda do mar
tenho brincado de ser a maré
um momento isto há de me levar
a quem Lua sempre é]


 

28 de novembro de 2018

Olhares analíticos




Pequena observação
Esses meus olhos fundos
O espaço vago, e tédio,
Uma sutil distração e um aceno.
Ao lado, descansa o companheiro.
Do outro, riem os papagaios.
Nas costas, parede.
Na frente, um docente afirma
algo sobre o pai ser representado pelo cavalo.

Na minha mochila
tem café amargo
ideia genial para controlar
o consumo excessivo de cafeína.

Queria saber desenhar
desenhar-te
desdenhar-te
desde a arte
até ao bom dia.

Seu olhar não é profundo
o suficiente. Encanta
mas não mantêm tal feito.

Vai da história de vida.
Vai das contingências de reforçamento
anteriores aos meus frequentes passos
cotidianos em solo burguês, da época
de curso técnico,
de café por cinquenta centavos tomados
em torno das dez da noite, ao lado de pavões,
e aquela Lua que nunca se sentiu
tão bem.

Quando é que o poema termina?

26 de novembro de 2018

Personagem I - retratos de um pombo



E quantas vezes, olhando para o céu todo cinzento
não quis ser aquele pássaro?
O pombo que analisa o mundo pelo telhado,
parece muito mais civilizado que esse emaranhado
de variáveis a preencher minha solidão.

Tenho me negado a minha própria ilusão
não me parece viável chutar outra vez a pedra
e carrega-la, passo por passo, nessa estrada
longa caminhada em rota circular.

Tenho me negado aquilo que jamais abdiquei
(descrevo-lhe amigo, sinta minha lamúria
escorrendo pelas palavras ocas e secas que ecoam de minha voz),
sou aquilo que neguei? Sou mesmo isso?

O pombo, a decifrar as praças e os meios públicos
e eu, aqui, olhando o céu cinzento, as nuvens
que nem vejo formas. Tempos que ali havia algo.
Sou aquilo que neguei? Sou isso mesmo?

O profeta se alimenta de suas pregações:
anuncia a redenção e diz "arrependei-vos, pois ainda é tempo",
tempo de quê? para que? sou isso?
Jogai-me a primeira pedra, e deixarei cair a fé.

23 de novembro de 2018

Haikai que leitor nenhum entende




Minutos eternos
passam assim
estalar de dedos

Pedras afogadas



Me distancio, em lugar de Deus,
sou agora o observador supremo
atento aos movimentos,
dos humanos aos cupins
e dou a graça da interpretação
se, e somente se, houver
necessidade de me comover
com lamúrias de meus filhos
com as palmas nas igrejas
com as putas desse bordel
com as preces de meu povo.

Em função de Deus, ou de Deusa,
estou em todos os cantos e prantos
sem surpresa, sem sensações,
sou apenas uma constante do Universo,
não sou começo e fim, sou
a destruição e aquilo que recria.

Eis aqui a sua graça
beba da fonte da vida,
que também é fonte de morte
e do nem isso nem aquilo,
não sou caos, sou relação ordenada,
e faço do próprio caos, ordenação.

Não, não se esconda. Supõe agora
que as memórias se encontram em substratos?
Sou. E quando digo que sou, é porque o tempo
se ajoelha sob meus pés. As memórias são apenas
descrições temporais dos eventos. E em função de Deus,
sou o tempo para os eventos serem.

Pois sou,
o passado e o futuro
se unem
e se entrelaçam
em mim.

22 de novembro de 2018

A concha



ondas constantes
seguidas de uma suave calmaria,
contudo, o mar
quando calmo, atrai gente
até demais,
e as ondas voltam
ao que antes eram

20 de novembro de 2018

Velha




Tem uma senhora
vejo pela janela
todos os dias
ela vendo novela
na mesma hora
menos de domingo.

De domingo
ela dorme mais cedo.

Não tem novela
a reprise, da rotina,
é só na segunda.

19 de novembro de 2018

Gato II



gatos
lutam contra sua própria sombra
quando há o mínimo de luz

humanos
não?

18 de novembro de 2018

Gato

 
...

A vida
é essa
caixa
de areia
pulos
mordidas
e meia

Antropofagia Burguesa: ¡La puta hostia! - Parte II




Na boca, a hóstia desce seca
O rosto do fiel que pregaria Jesus na cruz
Lembra formas de dominação furreca
Pintar quadros de um semideus de olhos azuis.

Jesus era negro. Cabelo enrolado.
E comunista que era, dividia o pão.
Se estivesse conosco hoje, cansado
Estaria desse caos controlado e sacristão.

O Magistral Império Romano
Hoje, não tão glorioso,
Esconde por debaixo do pano
Dos seus bispos, o gozo.

Na boca,¡la puta hostia!

15 de novembro de 2018

Antropofagia Burguesa: ¡La puta hostia! - Parte I



Igrejas elegem seus deputados
é a festa do Reino dos Homens
de terno, brindam no lombo
de quem lhes garante a vida.


Igrejas elegem seus deuses
e profetizam a palavra nas mãos de juízes.
Eis o meu corpo, eis o meu sangue
jorrando pelos tribunais de Franz Kafka,
o processo sem fim.

Igrejas. Palavras tão próximas
dízimo e dizimar. Cobrar com o que é de César
cobrar com o que não é de ninguém.
Crucificar os programas sociais na cruz:
médicos cubanos são ditadores que atendem
senhoras e senhores esquecidos pelos de jalecos
brancos.
O pobre é o lobo do pobre. E poderia ser diferente
se os meios de comunicação e domínio estão sob mãos
invisíveis?

Poucas palavras e a multidão contente.
Sem médicos pelo interior, essa profissão
tão sólida para os que detêm o capital;
e, cada vez mais, o sal, como diria Ciro, desaparece
nos mapas dessa terra.

O processo sem fim.
A túnica vermelha para o batismo,
virá em breve.
O renascer. A fênix.
A fúria se fará ver. Previsível.
Revoluções surgem assim, meu bem.
 

Enquanto isso, tomai.
Faça o diabo feliz.
O poder pelo poder.
40 milhões de quase-humanos
e a alma, por um triz.


Comei: ¡La puta hostia!

12 de novembro de 2018

Definições: vida ou morte?



cinzas no ninho
felicitam o nascimento
pólvora e explosões
lamentam a morte:
vida, essa destruição,

quem, que corpo
tem, não quer,
aceita calada?
não, não, vida
escolhe se vive
não
o indefinido

definido por verbais
doutrinários;
quem é que segue
as ideologias mesmo? 

tal
qual
as propostas
que prefiro
nem
co-
comentar.

9 de novembro de 2018

Pesadelos



Tome meus pesadelos como presente. Cuide deles, como se fossem reais. Talvez ressurja uma gota de esperança em solo árido e insensível. Os meus sonhos, estes, são frágeis. Ao menos, são recorrentes e lentos. Há neles uma sensibilidade a longo prazo. Há em meus pesadelos, o imediatismo de nossos porões sociais.

Pasmem.

As vezes um haicai é eterno, e um soneto, falcão a soterrar céus.

Mundo aflora



Que como haicai
veloz passou:
o que para ti, sou

5 de novembro de 2018

Tus ojos




Essa coisa da vida
coisa nem lida nem ouvida
a duvida que (me) olvida

Lírios e coqueiros



alguém que vem do povo
que emana do povo
que é braço de Cohab
cinza que a obra negou
lançada ao mundo
no sertão das pedras
no interior do interior
sem capital

alguém que vem de lá
do morro que entre
2012 a 2014, subi, exausto,
em horário de putaria, 23h37min,
e sorria, sorria, e chutava o balde
(era delícia; cenas de trevas: luz natural).
 
que perambula sob o chão
que nasci
meu bairro
que é horta e terra,
que é porta e telhado

alguém que vem da comunidade
guria selvagem nos instintos
absolutamente perdidos
dessa pátria de poucos
vem
alguém que o povo confie
que no olhar, se vê guerra
e se encontra paz
 

4 de novembro de 2018

Mate

 
 
A vida, diferentemente do xadrez, só deixa o peão em xeque

28 de outubro de 2018

profetas são pessoas de carne



nem quando for
mesmo que fosse
se humano é
deus que não ouse

não há entre nós
renas ou trenós
há a crua
dureza da rua
ou mesmo da lua

a enfeitar
solidões

27 de outubro de 2018

Lê-gado



vou dizer lento
pra não dizerem
que dizer, é talento

deixo aqui o meu legado
trovas digo verso
humanos eu digo gado

risos eu digo pranto

lágrimas digo suor
olho ao meu redor

diabo morreu santo.

Esquizofrenia: Sartre, Hegel e Heidegger (2)



Confundir
condição com causa
mesmo que

tratar igual
o cu e a calça.

Modismos existenciais
tão diferentes entre si
e nos jargões, iguais.

A ignorância filosófica
má-fé, penso. E fica,
repetindo a mesma história.

Papinhos pós-modernistas
um aplauso aos sofistas:
recusam ciência pela pura crença.

Que angústia, não?

25 de outubro de 2018

Macri-cri-cri




Neoliberalismo? vide
o que está na esquina:
o caos na Argentina.

O sermão da montanha



Esse desconforto
que vivo, morto
que reto, torto

E só chove
que Sol, dissolve
que paz, estorve


E toda
que nada,
só moda

Porém
vem todos!
ninguém vem.

É como se
mas, foi como não,
se foi pé
vai ser mão.

24 de outubro de 2018

Sê, osso




ai, se fosse o intuito
viver ao avesso
incenso apagaria
dor.

se osso não fosse
seria um passo
um passo a frente
desse atraso.

ai, quanta lamúria
esse arraso,
dia dor de perna
noite dor de braço.

e, dorme,
aquela dor
que quieta
sê enorme.
 

23 de outubro de 2018

22 de outubro de 2018

O Liquidificador de Merda



Se não bastasse o tal do Bolsonaro. Se não bastasse a hegemonia tucana em SP por tanto tempo. Se não bastasse a idiotia coletiva que nubla a sensibilidade de meu povo. Se não bastasse - no que pelo visto não basta - o tal do Dória. Se não bastasse tudo o que tem ocorrido: os preconceitos, racismos, machismos, e tantos outros ismos. Se não bastasse o discurso anti-PT, tosco e infantil.

Há ainda o liquidificador. Vi-lo misturar tudo nessa semana. Todos os "se não bastasse" num liquidificador. Batido. Misturado em uma legenda que enoja mais que ovo cru em garganta sedenta: BolsoDoria...

O cúmulo.
O cúmulo.
O cúmulo.

A grande liquidação humana: sapatos




Os sapatos dialogam sobre o ser
barro, riscos, sons do pisar, cadarço
a coisa toda cheia de nós
alguns, limpos demais, ignoram
pés descalços dos alheios

confortável? alguns chinelos descansam
nos pés, outros no lombo humano
chamativos, fluorescentes, mortos de tanta
iluminação. Holofotes marcando as pegadas.

Os sapatos dialogam sobre o ser
são a síntese do operário e do burguês.
Os sapatos verbalizam tua condição,
são haikais desgastados, escondem bolhas
dores, ou mesmo, a sonoridade da elite.

18 de outubro de 2018

Parte I de minhas pitangas políticas



        Se o sujeito é incompetente a ponto de não saber ir a um debate ou mesmo debater, que destreza terá para assumir um cargo de presidente? Até Dilma Rousseff sabe discursar melhor que Jair Bolsonaro. Esse último, somente sabe dialogar com os capachos de Edir Macedo e outros pastores que usam e abusam do controle social.

 

         Contudo, a sociedade tem se habituado com a lógica do absurdismo disfarçada de crítica a esquerda. No momento, para os eleitores de Bolsonaro, tudo é comunismo, tudo é ideologia de gênero. Bolsonaro parece ter saído de um episódio de "Choque de Cultura". É uma piada; e, quem ri, não somos nós. São os do topo da pirâmide. A vida, essa circularidade estocada nas pirâmides sociais.


Oremos!