5 de junho de 2019

Semelhante ao que nunca foi




porquanto o tempo passe
vivo morre morto renasce
semelhante ao que não era

poeira e mais poeira
ao que se chame vida
poema escrito sem eira
se ache ali, na saída

tome forma verso
saia de si e se veja
não fique ali, imerso
só vive o que peleja

porquanto o tempo, assim, passe
de mudança segue indo
verso encerre agora! Ou quase,
se não agora, eu te findo!

1 de junho de 2019

Escutando rubatosis é que senti



conivente comigo mesmo
ficando com uma única direção
perco o horizonte do esmo
por me encontrar sempre assim

um misto de amarelo pálido
com magreza que é só osso
e as vezes não é só osso
e fica querendo isso só ser

por conivência comigo mesmo
e nunca foi diferente
não é de hoje, nem de ontem, amanhã,
coisa esquisita, viu?
é cíclico e cínico;

pareço gostar da ambiguidade
da exatidão da incerteza
do caos que me causo: paixão
por variabilidade estancada na cara;

pra variar?
pra nada.

31 de maio de 2019

Vários de 1 só (linha tênue)




a loucura distorcida
se faz norma
e na orla esquecida
em si retorna

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O homem chora mar
    rio de lágrima correnteza
                      que          leva em dúvida
   qualquer          certeza


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Acima daquilo de baixo
tem só abismo
e do rico
                  pobre cinismo



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24 de maio de 2019

Rascunhos de um conto deixado de lado: o trivial



Encarou o espelho. Uma. Duas. Três vezes. Nada sentiu. O vento que batia pela janela misturava odores: um toque de café amargo com o requinte do caminhão de lixo. Pareceu sentir também algum incenso de canela, mas desconsiderou tal aroma. Bateu de frente ao espelho pela quarta vez. Olhava seus poucos fios de cabelo, exigentes por um banho; somente sentia ali a calvície do amanhã. Olhava as unhas a serem cortadas, e não tinha o menor ânimo. A barba a ser feita, tampouco lhe incomodara. As remelas nos olhos, quase lhe encaravam de volta, tamanha a preguiça de limpar o rosto.

Ao ver seu reflexo pela quinta vez resolveu se dar ao luxo de uma bela ducha de poucos segundos. O suficiente para lavar o corpo e pelos com sabão em pedra comprado a R$ 0,99 no mercadinho abandonado, na rua seguinte a sua casa. A água era pouca, mas maior que a vontade de ali estar. No chuveiro, pensava com clareza, "essa vida anônima ainda vai me matar". Possivelmente, errado não estaria.

Eram 04h35 da madrugada. A escuridão ainda banhava os moradores de rua e os gatos selvagens do bairro. O sono, tardou outra vez a aparecer. Sabe-se lá se viria. Deixando o roupão no caminho até a cozinha, gratificou-se com um copo de uísque já pronto - depois resmungou a qualidade do mesmo - e permaneceu alguns minutos na janela pensando como a vida era mesmo trivial.

Tola e trivial. E não era isso que a deixava simples e bela? O trivial era revestido, como quase tudo no humano, de uma falsa complexidade e uma pretensiosa descrição de superioridade. Mas não, na janela e em seus pensamentos, o que se sabia, é que era trivial. O leitor sabe o ponto em que me detenho. Quando faz seu café da madrugada, pronto a arriscar os pés na rua para mais um dia de trabalho, em meio ao nascer do Sol que nem se deitou, sabe do que estamos conversando. Era trivial. E parece ser ainda mais quando a gente se dá conta. E não parece?



21 de maio de 2019

Sem contornos



passamos assim
como os dias passam
como o frio passa
a escrever versos crus
sem formas e sem expectativas

deixamos de lado preocupações
o gosto do leitor deixa de ser relevante
- as vezes o sabor das palavras também

e uma manhã fria passa a ser somente
uma manhã fria

não há nada de mágico e os risos
pueris e os feitiços
se vão com a chuva, como todos
um dia sempre vão

18 de maio de 2019

Rascunho de todos



Nos rascunhos
os melhores versos
os mais saudosos
os bem marinados
as palavras lidas por um
e ninguém mais

nos rascunhos
poesias obscuras
a preencher vazios
espaços de solidão
contemplados
pelo silêncio
de ser de si
leitor e analista

nos rascunhos
tons mistos
de melancolia
e paz; conforto
e conformismo
a formar versos doces
de amarguras da vida.

Nos rascunhos, somente,
como no filme, os bastidores,
como na vida, a privada,
como filmes de herói, só que o gibi.

Nos rascunhos eus
de mim se revestem

14 de maio de 2019

Pré-vidência do óbvio



Não me faça sorrir aos que admiram astrólogos (leia-se Olavo de Carvalho e outros) e beijam videntes
A Lua só é encanto na poesia, o que mais quer que eu diga?
Aplaudir os sem pés nem cabeças, veja você mesmo, seus olhos.
A Nova Previdência não me parece uma providência. Ao menos não aos pobres.
Me parece sim, uma pré-vidência do apocalipse incontestável.

E isso não é poesia nem verso que mereça palmas. É silêncio burro,
de um povo que idolatra a quem agride e fere. É enxada nas costas.
Não tem rima não, Senhor Cidadão.
É cobra a devorar-se feliz, e cobra a trocar de pele.
Consequências? Jogue na mesa as cartas. E não se engane.
Vá um pouquinho só além dos discursinhos do liberalismo bobo, que nem
liberalismo isso é.

Ou não.
Vá ver vídeo de astrólogo metido a filósofo.
Vá escutar soma de chocolates educacionais.
Vá lamber a bota dos soldados estadounidenses.
Ou "dar tiros em ursos", brow.
E repita. Repita com gosto todas as pragas.
Que a consequência, um dia, chega até ti.


E chega...

12 de maio de 2019

Sabor e ar



Sensação estranha de rio parado
peixes boiando em meio ao bolor
mas não há cheiro, tudo estático
as nuvens não mostram formas
e não há barquinhos a caçar.

Sensação estranha de clima misto
não sabe se chove, se vendaval, ou
se o sol raia na cabeça do galo,
não parece decidir tão cedo, nem
se sabe se é dia ou noite aqui.

Sensação estranha de que há algo
a ser feito e um ócio a ser contemplado
mas sem que se possa afirmar
um ou outro estado, sem que se deseje
aquilo ou aquele, nem.

Sensação estranha de um fruto
que não sabe se maduro ou se podre
o verde pode ser musgo ou colhido
cedo demais, deixa a dúvida
aos olhos de quem passa.

11 de maio de 2019

Lúpulo



mudam os timbres
tudo tem mudado
jeitos melindres

sonho estar contigo
ser teu corpo
bem mais que amigo

enquanto lua contemplo
fazer de ti minha deusa
de teu sorriso um templo

e rir do teu riso
mulher; sem mais
de que mais preciso?

a beira de um rio
preencher o vazio
ignorar o restante

você, uma garrafa de cerveja
a misturar meu lábio com a divindade
lúpulo e amor
paixão e malte
a bebida gelada
o corpo quente

e encontrar o equilíbrio
que nem conhecemos

fugir daqui, fugir daqui,
vai dizer que não quer? quem não quer
fugir daqui
ir com o rio, corpo a encher de água
corpo a livrar-se da mágoa, gotas
fugir daqui, fugir daqui, vai não?

8 de maio de 2019

A hipótese de gaia. O que será que?



O que será que? O que será que pensará?
Na sombra de pensamentos, na sobra deles,
rodeiam os carnívoros receios, floridos
a chamar a atenção dos passantes. O que será que?

A avenida não tem fim, ela acaba no começo
cada passo um dilema a reconsiderar
a música não tem fim, ela acaba no começo
a canção? Ludovic. "Eu fiz pouco caso de um gênio", é o que tocava.
O que será que?

O suor, gota por gota, escorrendo para lugar algum
Devo eu me evaporar de mim?
Poeira cósmica. Carbono por carbono. E a seleção por consequências
em três níveis (biológico, social e individual) a dependurar
o que nesse exato momento chamo de "eu". Santo Darwin!
Bendito Skinner! Oh, J.A.D. Abib! O céu rosado, a confundir
tons de azul e amarelo. O que será que?

Recuo.

Não há "eu" ali. Sou-me-mundo. Sou mesmo o azul do céu e do mar,
sou o mendigo que passa faminto enquanto outro de mim devora
dólares. Caos é meu nome. O que será que?
E no meio da relação sexual, sou eu próprio a me adentrar, e a dor
que quaisquer sentir, é a dor que sinto.

Recuo.

No fim do percurso, da longa e tão leve caminhada, revelo: não
não sou nada disso. Não há eu. Há nós e nós nessa linha.
O egoísmo é que funda o conceito de eu, o conceito de individualismo.
Não há nada tão delimitado assim. Pois se vivo, o mundo vive,
e se morro, permaneço em movimento no que deixo.
O que será que deixo? A vida não tem fim, ela acaba no começo;
só há então o que houver de relação.

Hipótese de Gaia.
 

7 de maio de 2019

relações entre operantes verbais e três níveis de seleção: sentimentos



é a ironia a deusa dos mares
com suas ondas de vai e vem
a inebriar o corpo que repousa em ti

como o deboche, senhor do tempo,
não há tormento que impeça
a humanidade de ser feliz em seu descaso

eis ali, ao Sol, o escárnio
a arrebatar aos céus
o que de mais podre há na felicidade

e em seu banho de Lua, a angústia
entravada com o prazer, ambos a denunciar
a todos e todas seus movimentos
que não respeitam a métrica poética e é isso

sempre.

5 de maio de 2019

Vaiver pq ñ?



coisas que não
se fossem talvez
seriam sempre
só uma vez

eternos instantes
tempo nem
quando sabe se lá
só sei quem

vaiver
há menos
olhos
é visto
vaiver
insisto

claro
dentro
fora
dentro
fora
fora
fora
o que se pensa
algo mais?

o ângulo
é hipótese
um dia dá
(pensei)

de costas
há olhos
(eu sei)

2 de maio de 2019

Luta de classes e crases



Não compre peixe
na feira dos ninguém
o podre que vai e vem
impressiona que se deixe
ver e ser visto

E é uma maravilha
quem se enche de gente
pra viver numa ilha
daquilo que só é aparente

Se esconde na profundeza
do mundão superficial
depois diz que é uma tristeza
ver na rua tanto marginal

Engana só quem gosta
de comer bosta
achando ser caviar

no fim das contas (que rico não paga)
respiram todos o mesmo ar

uns mais quentes
outros condicionados
outros mais, ausentes,
e os pobri morrendo
nos cantos, nos lados.

30 de abril de 2019

Meio termo




turbulências em som de gaita
notas totalmente discrepantes
chegam a arrepiar os ouvidos
tons
dos mais angustiantes a adentrar
o que chamam de alma.

no mais, tremenda calmaria
chega a assustar quem foi sempre
de pedras e pedregulhos

escutar com a certeza
que ou olvido ou me deixo ser envolvido - continuam
os horripilantes barulhos da gaita do vizinho
pedras e pedras arremessadas no caminho.

14 de abril de 2019

O pão nosso



quente
como areia de praia no pé
mas com intensidade
diferente
como de religioso a fé
ainda que por ironia
nada mais quente
que o pão da padaria

antes mesmo do sol vir
enlouquecer o pós-domingo
no que chamam de segunda

semana nova
e exatamente nada muda
muda a ova
de quem nasceu
com grana para não precisar escutar o maldito despertado

9 de abril de 2019

Um dia comum



um escândalo, por muito
pouco
farelos
mais desejados que o pão

as entrelinhas são lidas
o livro esquecido e abandonado

a lógica das classes sociais
imposta e ignorada
a naturalização do faminto
a naturalização do esnobe caviar
a foder a goela do país

um anúncio no poste diz
QUER SABER SEU FUTURO?

é a última coisa que quero.
Por qual demônio alguém isso quererá?


(e não sabemos todos?)

8 de abril de 2019

Nota de rodapé



Escritor
é quem sabe o que não escrever
e, se escrito, sabe parar,
arrancando as próprias mãos
e as de outras pessoas,
se necessário.

7 de abril de 2019

Acostumar: por diferença e semelhança a "acomodar"



acostumar-se
ao pouco
ao louco
ao sol e a chuva
que transitam pelo calor da cidade

fica tudo, costume.
Ainda que enaltecidos os ânimos
a flor da idade ávida por mudança
não há que se faça mudar
pois mudar por mudar
também não deixa de ser costume

permanece apenas aquilo
que se habitua e na pele
faz suportar

se acostume com isso

2 de abril de 2019

Oração da manhã




cores tão vibrantes do dia
faça sol essa poesia
deixai-me descansar em pé
na chuva que não vem
deixar-me dormir até
depois do alarme, amém

29 de março de 2019

Sem religião e sem crença




sem muita religiosidade
na escrita que teço
a passos lentos e de amizade
com o tempo

ler por desespero
como quase que tudo
é solidão

escrever, assim
só o necessário
falar menos ainda

verso que eu inicie
que ali
pensado, finda

23 de março de 2019

A pele e o vazio: apenas enfeite



Toda essa mesquinharia, um eminente nada profetizado a muitas e muitas décadas,
o efeito da estética sobre o meio da escrita - e não somente - pois que tudo é desprezível se não for como se supôs,
é preciso estar ordenado ao Zeitgeist - vivo sempre do passado,
e deixar-se despreocupado: corpo flutuante em meio ao que ocorre
enquanto ocorre, anular-se por completo, sem desejo, sem sentir-se
é preciso alienar-se,
pensar enaltece a morte; "ser pensante". Uma vida, um papel.
Amanhã muda o vazio. E não muda, também.

As sensações veladas: o pânico contido na pele, como nos consome!
(Eu deveria dizer somente por mim, deveria dizer "como me consome!",
os outros que descrevam seus fantasmas: mas sou a eles, também).
Levantar e o Sol, importa? Alguns olhos fitam sem a menor expressão
e choram, choram, choram. O café sem açúcar é para ter algo mais amargo no paladar? Perguntas retóricas.
Açúcar é alienar-se dos sabores. Sal, também. Temperos, no geral.
A vida é crua, não é frita, não é assada, não é temperada, é crua!

Crua! E é preciso ter um apetite extremo para não enlouquecer com o tempo,
é preciso ter uma dor aguda a ferir o estômago e se acostumar com ela,
ser Odin e abandonar os vieses de Huginn e Muninn - se despir dos corvos diários, a enfeitar os movimentos doentios.

Discutimos e sabemos - e sabemos que não queremos saber - que nada disso importa,
São apenas palavras evasivas a preencher a forma. São apenas formas a preencher palavras evasivas. São apenas problemas inventados para diluir
os medos, os perigos e os sentidos.
Apenas temperos. Expressões que nos mantêm vivos e enlouquecidamente normais.


21 de março de 2019

Entre isso e aquilo



entre a fumaça do café e a
fumaça do incenso
se encontra metade
daquilo que (não) penso

19 de março de 2019

Baú e pó




sentimentos
lamentos em tom mínimo de gaita
saudade baita
bata; de vez em quando
de vez que eu ando
sem rumo algum
esperando as estrelas virarem pó
nos lamentos em sinfonia de um homem, só

13 de março de 2019

Sem tempo para as manchetes



Urubus, espreitando as minúcias do cotidiano
ávidos pela queda de um sorvete infantil
pois que tudo é midiático. O jornalista, especializado
em carniceria e novidades rotineiras, um azedume ambulante,
olhos, bem mais que dois, a fitar a velocidade do momento,
a lágrima que cai, a morte que ali pousa, o rico que come o novo lanche
de um restaurante até ontem meia boca,
os jornalistas a inventar as novas e novas notícias,
sem que se descreva as causas: pairam e param no que chamam de "fato",
uma visão distorcida de qualquer coisa que se mova
garimpada como verdade, se bem aceita. Outra notícia para fazer aceitar.

Urubus.
O jogo de basquete nem acaba
caem aos ombros dos jogadores
"justifiquem sua derrota! demonstre seu descontentamento, fale, fale, fale!"
a morte tampouco teve tempo de pensar
caem aos ombros dos familiares
"a morte veio lhe visitar. O que acha disso?"

E assim segue a indústria do faz de conta que
sem dar a mínima para as causas e consequências de sua própria existência,
recria narrações, se reinventa com mais do que ontem, criando assim
o nosso amanhã. "Nosso".

12 de março de 2019

E ser ávido pelo viver



...

e ser ávido pelo viver, por acaso, não seria masoquismo suficiente? A labuta diária, alienando a carcaça do meu corpo, não basta? É preciso sufocar. É preciso a agonia da indiscrição que está sempre na cara, no nariz. É preciso sufocar o sufoco, até. Fingir demência em relação ao estrago dos minutos.

E ser ávido pelo viver. Ser a ti mesmo, impessoal. Quem é este? Nem a mim me sei. É preciso se assujeitar enquanto oculto aos próprios fatos. Não descreva, não analise as variáveis de seu contexto, deixe fluir, deixe ignorar-se. E ser ávido pelo viver.

É.



Até onde a ironia nos leva m esmo?

11 de março de 2019

E hoje, e hoje, e hoje, e...



Entre as partes suprimidas de momentos
singulares universos se dispersam
criam-se nadas, fantasias, dores, lamentos
e o que mais couber no vulgar esquecido
pois ali há muito, muito mesmo, não antes
que as nuvens a encobrir toda poeira possível.

Certo desconforto. Há, sem dúvida. Nenhuma é
outras não são, um é um, em qualquer lugar.
A artimanha velada da poesia enaltecida
serve como forma de passar a limpo num ambiente fictício
(qualquer zelo pelo hoje aqui some)
de contornos aversivos e aprazíveis.

Escreve a mão que se ausenta da palavra
uso distorcido que exerce - oh, sociedade!
A cada amanhã, um ontem que morre solitário
vagando cego pela chance de ser ele próprio
um amanhã também. Ainda que entre as partes suprimidas
de momentos singulares universos se dispersam
e, assim caminha o hoje, o hoje, e o hoje também. 

4 de março de 2019

Pelas lentes dos parentes



...

Lamber o sal da ferida
fazer com ele, churrasco,
terminar a bebida
continuar sendo um asco
em dia de festa
ser tudo aquilo que repudia
tudo aquilo
que não presta
aos olhos morais

dias normais.

28 de fevereiro de 2019

O telejornal: o mesmo sempre, sempre o mesmo



Gozar dos desprazeres alheios
cuspir e xingar, na voz o ódio,
repugnar o miserável, lastimar
até nos intervalos comerciais
e encher o mundo de medo
medo hipócrita: lançam aos povos
o pavor do convívio comum.

Pois tudo é tão perigoso. Tome
cuidado; não confie em ninguém.
O açoite do sujeito social
eis aqui a função do telejornal.

Fronteiras intransponíveis se erguem
entre nossas retinas e bocas
cisco no olho alheio é cócegas.

Eis a reinvenção dos contos:
enaltecer a tragédia cotidiana
lembrar ao humano sua finitude
enquanto ser miserável
quanto mais miserável for o dinheiro
no bolso.
A morte está para os pobres e parentes
como o café está para o vício. 

25 de fevereiro de 2019

Ainda que o vigário volte - parte I



Adio meus pensamentos de maneira constante
Nuvens escurecidas atravessam quietas
Devoram vaga e lentamente. Um silêncio gritante.
Fecha as portas que antes estavam abertas.

É tudo cinza. Mas nunca me foi tão claro.
Um pouco de nebulosidade faz ver melhor.
Relembro os segundos, a intensidade de cor
Sentir-se só mais um. É sentir-se raro.

Pouquíssimas afirmações tão conclusivas
Deixando que a dúvida consuma o íntimo
Ao seu próprio passo, ao seu próprio ritmo.

Sentir-se como um qualquer, como qualquer um
Como um andarilho carrega sua cachaça
Como um pirata com seu papagaio e garrafa de rum
Uma formiga a habitar o que sempre passa.

É tudo cinza, já lhes falei isso? Certamente.
É tudo tão cinza aos olhos de qualquer gente
Ainda que alegre - alegria passa- é cinza
Ainda que o vigário sempre volte para rezar a missa.


19 de fevereiro de 2019

Relações abstratas e pós-modernas entre deus e um funcionário do balcão de informações




No balcão de informações
um sujeito se embriaga de café
sua função é estar ali, parado,
alheio ao que não seja informar,
dez horas seguidas de uma bunda quadrada
mas cheia de informações.

Sabe de tudo, e de todos,
tal como uma divindade que engorda
a cada virada de seu globo ocular.

Talvez o que chamam de "deus"
seja isso: uma espécie de porteiro sem função,
deslocado no espaço-tempo
pronto a nos servir e manter-nos ali
no balcão de informações

a diferença - sempre há - é que o rapaz do balcão citado
oferece café (o rapaz é meu tio), e é um bom ouvinte.
Agora, a tal da entidade - aprisionada no seu canto - por mais tempo
que quem espera a tão sonhada aposentadoria,
deixou-se levar pelo tédio, pela agonia da solidão,
e, de maneira justificada, nada nos informa:
nem aos fiéis nem aos descrentes nem aos irônicos difamadores de vosso catolicismo ou de quaisquer dessas religiões que pregam a paz e que, um dia, pregaram o filho do tal salvador.

17 de fevereiro de 2019

Food does not come in there: Venezuela



Quanta humanidade
nesses países tão lindos
paraísos de cor neve, branco branco banco
até a casa é branca

embargos
sin embargo
sim, senhor!

Um litro de petróleo
(dou-lhe até dois)
por uma migalha de pão
é que os estadounidenses querem a paz
como quis no Iraque
como quis na Guatemala
como quis aqui, no Amazonas,
como quis em Honduras
como quis no Canadá
como quis na Líbia
como quis no Afeganistão, tão cruel,
como quis na União Soviética
como quis 1967, Sudão
ó glorioso país: mãos santas banham o proletariado
defenderei-te até a morte
de outras mil crianças em um colégio qualquer

Os terroristas são os outros!

Mas,
lá vem o comunista escrever
que essas guerras não foram somente para ajudar os tristes países
(agora vai dizer que na Venezuela o interesse é por petróleo?
tolo, o comuna, não sabe que os embargos econômicos foram somente para proteger os cidadãos,
as criancinhas estão mais felizes com esmola - eis ali um MC LancheFeliz, e nem é rapper).

uma lágrima escorre diante a ajuda humanitária
pois se querem enviar comida, a coisa mais lógica a se fazer
é mandar comboios
não remover embargos (é assim que se pensa como um humanista?)

Oh, perdão, a poesia começa aqui:

Venezuela
el
país
con
las
mayores
reservas
petroleras
probadas
del
mundo

Um clique na frase



11 de fevereiro de 2019

Rola-bosta - Crômica dialogada I


O cronista a dialogar com seu camarada, um velho decrépito. Em uma cafeteria qualquer.




- "...então, como estava falando para o Sr., tenho rido de tudo em meu dia. Do pé na bosta tenho dado gargalhada. Meu pé úmido aduba minha risada. As relações sociais que comumente geram uma nebulosidade no ar - deixando o interior da cor da capital paulistana - me agradam. Algo de sádico tem me afetado. Em verdade, algo sadomasoquista (há dor em qualquer risada)".

- "E o que de tão cômico lhe ocorreu?"

- "Pois nada. Nada tem ocorrido. Me sinto um rola-bosta. Aquele besouro. A troco de nada modifico a matéria: o que parece, aos outros, caótico, vejo ali grande valia, transformo o inferno em paraíso".

- "Conte-me: como faço para realizar o mesmo? A tempos procuro viver feliz. Conte-me!".

- "Quer mesmo saber? Deixe que tudo se foda. Deixe o circo pegar fogo (e leve mais gasolina). E, então, no ápice da loucura mundana, sorria. Enquanto a água quente escorre no rosto alheio, apenas sorria. Ria do erro crasso. Ria. Do acerto previsível. Ria do esforçado cotidiano que se engoma todo para trabalhar. Ria do playboy, da burguesia, dos que flertam com a morte. E só".

- "Nada mais?"

- "Depois sente em sua melhor poltrona. Pegue lápis e papel. Ou se ajuste próximo da máquina de datilografar. Na ausência desses, se debruce sobre seu velho computador. E escreva, escreva, escreva. Se preciso, deixe de dormir; mas escreva".

- "E que há nisso de felicidade?".

- " Felicidade? Não sei. Apenas gargalho e dou-me a rir - as vezes de maneira particular, sem que saibam. Escrever é somente outra forma de rir da desgraça cotidiana. Não me venha com esse papo de ser feliz".

 

9 de fevereiro de 2019

punição religiosa



deixe-se duvidar
ponhas os pés no freezer
a cabeça no fogão
deixe tudo um caos só

deixe-se duvidar
tem andado tão feliz, não?
desacredite alguns minutos
não irá fazer mal algum

deixe-se duvidar
não vá ao trabalho na segunda
volte terça
sorridente, e faça com que saibam

deixe-se que duvidem

sim,
você visível
no dia seguinte
e sorridente
bem sorridente

6 de fevereiro de 2019

Nem calçada me resta



Não, não sou dono de nada
propriedade é palavra habitada
por estranhos

nem calçada me resta
os carros tomaram para si
o local dos pés

o corpo
ainda não, mas o tempo
é que manda, apenas
mantenho-o longe de perigos

o assento no ônibus
nunca vi, é também de alheios,
assim como o carrinho de supermercado.

Nem calçada me resta
somente os quilômetros
e na sola do tênis deve ter
um pouquinho de paciência

 

5 de fevereiro de 2019

Voltas e voltas, aqui não tem metrô



Todo cansado
com esse Sol
tenho estado
calor escaldante

minha cidade
Inferno de Dante
racha os pés
ônibus
sem ar
sem espaço
sem tempo pra clichês

ônibus cheio
nosso cansaço
que se reinicia
partiremos
ao meio?

19 de janeiro de 2019

Buraco de arara



as graças, as gritarias para chamar atenção
a música alta e a televisão que berra
ventiladores que nunca são desligados
olhares fulminantes de traição e desprazeres mútuos

a missa
o catecismo dos céticos
a ignorância dos senhores feudais

o céu continua azul
com tons de cinza
sabor Cutrale
 

13 de janeiro de 2019

Dança das cadeiras



séculos escrevendo um verso
que defina e não definha
palavras em que expresso
a opinião que não minha

uma dança das cadeiras

12 de janeiro de 2019

Palidez da folha



encarar o papel
por ali qualquer coisa
por ali qualquer
escritor é réu
tem vagabundo que ousa
na poesia
tatear o céu

9 de janeiro de 2019

Largo da Batata



Aos vvvventos da capital
pouco interior e muitos
arranha-céus colidindo

a que direção ir?

diversidade de caminhos
rotas para o mesmo lugar
nenhum

a plateia não assiste
a peça que a vida lhes
prega

na escada rolante do metrô
o imperativo ecoa
"deixe a esquerda livre"

a revolução tem local
largo da batata

Capitar



São Paulo
nem falo
já é cartaz

dissolvido
na multidão
descanso em paz

2 de janeiro de 2019

Testamento



Deixo-lhes o incenso
a fumaça toda
assinada por extenso