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4 de maio de 2020

A falência de um sistema falido (em memória de Ruy Fausto)


a fome
mata
a gramática
e o homi

office
boy
toy
do capitalismo

todos
ventríloquo
mantendo
o status quo

ante bellum
correndo contra o tempo
pra morrer
lugar algum

vivendo seco, mórbido
aqui e
ali e nação

Em memória de Ruy Fausto (1935 - 2020)
 

27 de abril de 2020

Antologia poética


o tempo escreve
antologias inúteis
prateleiras de pó e ácaros
intocáveis baratas donas de bibliotecas

tenho onze
antologias poéticas
nas minhas prateleiras
e elas nunca me trouxeram
uma dose de pinga, uma xícara de café ou um pão

eu mesmo
me conformo
de nem mesmo ter
uma antologia poética
de jamais ter ânimo para compilar
ordenar, descartar, repor, meus escritos
para acabar ali, na sua prateleira, intangível, decorativo

me recuso
a deixar um antologia
para que vocês manuseiem como quiserem
procurando sílabas que confirmem vossas verdades
como um horóscopo, uma cartomante acessível, uma puta

antologias
são obras fadadas
ao sucesso do pós-morte
e é sempre melhor que assim seja,
em vida o escritor é puro sofrimento
alegria em demasia seca a garganta dos que bem escrevem
dos que bem sofrem para que outras almas possam lê-los
e assim possam saciar a angústia, como se a antologia fosse um confessionário
sem divindade, sem deuses, sem representantes, sem mártires.

22 de abril de 2020

Banquete para sua profana imagem


Você sempre esteve nas minhas manhãs, tardes, noites e madrugadas
nos meus pensamentos sombrios, nos rasos, nos profanos e nos mais sacros
vive em minha consumada liberdade e na minha impiedosa determinação;
enquanto lavo a louça, você está ali, me soprando aos ouvidos
enquanto tomo meu banho, enquanto bebo meu café, minhas doses de seu nome,
nas músicas melancólicas você está, sempre esteve, nos pedais, nas notas do baixo,
gritam seu nome em todos os rostos e ventos, o mendigo me disse seu nome
as jabuticabas são seu olhos, o céu escuro teu corpo, as luzes de natal piscam você,
nas angústias que ninguém mais conhece, você secou cada lágrima que você mesmo causou,
nos meus pesadelos e nos meus minuciosos e indescritíveis sonhos de uma sociedade alternativa,
na minha nudez, na vergonha, no ócio não preciso comentar. Você está presente,
no campo vazio da poesia que tem suas curvas, a letra cheia e disparada, que tem suas mãos
seus olhos julgam cada movimento que esse peso realiza, as rimas tem sua autoria,
as hipocrisias que narro são todas suas e não há sujeito que não você,
o som da gaita é sua sonoridade desenhada em sopro e aspiração,
a leitura que faço de Jorge Luis Borges, Neruda, Thoreau, todas, fotografias de seu sorriso
ou mesmo de seus choros, seus ataques histéricos e sua paz inigualável
o conceito de alienação carrega sua graça, os pássaros que vejo voar, as desgraças do cotidiano
tudo e todos são você.
Deus e deuses e deusas, você.

Ao passo que olhando no espelho, escrevo essa poesia e me dou conta de minha compostura narcísica.
Não me apedrejo.
Não me crucifico.
Não me espanta.
Vocês também só veem vocês nos outros.
Mentirosos.

29 de março de 2020

Men Say They Know Many Things


By Henry David Thoreau:

Men say they know many things;
But lo! they have taken wings, —
The arts and sciences,
And a thousand appliances;
The wind that blows
Is all that any body knows.


(Retirada do livro Walden, de Thoreau).

12 de março de 2020

"O que é a vida?"


A vida
é um verbo.
Nada divino.

A vida
é gerúndio
que não se conjuga.

A vida
é hóstia e hostil.
Consequência sem causa.

A vida
é esperança
toda em vão.

A vida
não tem volta
nem tem ida.

A vida
descubro
- é provocação.
 

3 de março de 2020

A antítese de Deus


Foi durante muito tempo anunciado que o Diabo existe. Em todas as gerações e todos os povos, a figura do capeta rondou os séculos e os pensamentos dos mais canibalescos e mesmo dos mais bobos metidos a santidade. Diabo ali, Diabo aqui. A culpa sempre do Diabo. Igrejas, mansões, templos e oligarquias foram construídas sob a palavra referida. A pedra fundadora do Catolicismo nunca foi Pedro, nunca foi Paulo, nunca foi Madalena. A origem do Catolicismo se dá, em última instância, no mito do Diabo. É o capiroto a imagem anunciadora da salvação. Em termos de mitologia, claro. Pois que, venho anunciar, após séculos e séculos de falseamentos que, o Diabo, meus caros, o Diabo não existe! Apenas o judaísmo chegou tão perto de tal afirmação.

Alguns, devo admitir, já chegaram nessa mesma formulação. Mas, para eles, outra função escorria nos versos. Não diziam "o Diabo não existe" para que assim firmassem a inexistência per si. Não. Havia sempre um algo mais. Talvez, como os satanistas, o interesse seria em agregar pessoas para essa tendência banal de achar que cada um é seu próprio deus. Para os judeus, a obviedade, maior concentração econômica e alívio da culpa quanto aos pecados capitais. E assim seguimos.

O Diabo não existe; não por ser apenas um mito, uma alegoria, ou seja lá como queira chamar. Não também pelo motivo de que os pastores inventaram-no para amedrontar os fieis ou infiéis de seus rebanhos. Menos ainda, como querem os historiadores, por razões de ordem política. Não.

"O Diabo não existe porque Deus não criaria a antítese dele. Para quê? Para encher o saco?". E se vocês acham que a explicação é pouca, ou mesmo incoerente, devo alertar, como o autor da frase disse que, "todos nós somos incoerentes, a vida é uma incoerência".


Post Scriptum: o texto surgiu depois de assistir ao programa Provocações, na época do Abujamra (óbvio), ao qual muito aprecio. O entrevistado que deu essas respostas, nada mais nada menos que, Clodovil. As frases são dele. Feitas durante a entrevista. Um gênio. Encarar suavemente o Abujamra e ainda conseguir respondê-lo com ironia. Para poucos. Se divertir com as perguntas dele, para ainda menos mortais.

Caso queira assistir a entrevista, clique na palavra PROVOCAÇÃO!

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17 de abril de 2018

Walden Two em minhas mãos I



Um ambiente sem luz
seria possível?
um escuro completo
sem poste por perto
sem Sol pra guiar?

Um ambiente
sem luz no fim do túnel
sem holofotes
um escuro completo
sem tom inquieto
um xadrez pra jogar?

Um ambiente
amigo
não ambivalente
sem perigo
sem chance de errar?

Um ambiente
uma sociedade alternativa
uma Walden Two
difícil ocorrer?
uma comunidade que viva
por viver?

Um ambiente
aprazível
ao outro
sensível
onde busco?

Um ambiente
que o outro entenda
que ao brilhar
o outro ofusco?

Só um ambiente
de contingências programadas
com pessoas amáveis e amadas
e sorridente
um Skinner a passear?

Peço demais?

Ao som da questão
meu amigo me chama
para o cruel
para o real

a mudança ocorre
feito lesma,
a coisa é que parece
sempre a mesma.

Mas não é, não.
Milton atravessa a faculdade
exuberante.
Paula atravessa a cafeteria
sorridente.
Lucas(as) pede para jogar um xadrez, modo clássico.

O dia se torna gracioso.

4 de dezembro de 2016

Ferreira, SinGULLAR (não o maior, mas um deles)


Os poetas também morrem.
Mas morrem de forma diferente.
Se vão, mas não se dissolvem.
Se dissolvem na boca da gente.

Outro poeta eterno parte.
Parte dessa para a arte.
Parte dessa para sabe se lá.
Pro Nada, Deus, Sucellus, Alá.

Alá! Olha o poeta ali.
Dentro daquele poema
Dentro daquele dilema
O qual outro dia li.

Mas, como Gullar já bem dizia,
no seu "Extravio", na poesia:

"Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me".


Os poetas também morrem
Alguns exigem o fim
Outros, imortais,
partem assim.
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31 de dezembro de 2015

Drummond e o Ano Novo:

Carlos Drummond de Andrade e sua poesia sobre o novo ano, com nome de "Receita de Ano Novo". Creio não precisar escrever nenhuma poesia própria, Drummond por si só basta e transborda:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)  
 
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

8 de dezembro de 2015

Vênus, calor e ironia

Calor, pra cima
dos quarenta.

Não há diabo
que aguenta.

Muito menos
santo.

Calor que Vênus
quer
tanto.

E qualquer miserável
com aquela quereria,
deusa de toda amável
e longe de ser virgem Maria.

Prazeres mundanos
que até os deuses invejam.
E Vênus, ah, Vênus.

Pensamento insano:
aos braços de Marte
trair Vulcano.

14 de novembro de 2015

Utopia em que vivemos

Matar os outros
e depois se matar
ou
se matar
matando os outros,
lógica perversa
que foge da realidade
das leis de Merton
das leis aleijadas,

E
não é da paz que vem a guerra,
vem lá dos Unidos
da poesia estadounidense,
da poesia do país da obesidade
que se gaba de ser ridículo
e intrometido.

Depois, oferecem ajuda
oferecem-se para o sangue
oferecem-se para matar.

24 de agosto de 2015

Drummond onde estiver

drummondianos;
aquele rosto desolado
duma profundidade sem par
aqueles olhos
mirando as pernas que
                                   passam,
aquela pedra que no caminho
insistia.

Ah, Drummond,
a rosa que entregue
ao povo se torna espinho.
As multidões mutiladas
pelo medo do dizer.

drummondianos,
a pedra no caminho
é o caminho.