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22 de abril de 2020
Banquete para sua profana imagem
Você sempre esteve nas minhas manhãs, tardes, noites e madrugadas
nos meus pensamentos sombrios, nos rasos, nos profanos e nos mais sacros
vive em minha consumada liberdade e na minha impiedosa determinação;
enquanto lavo a louça, você está ali, me soprando aos ouvidos
enquanto tomo meu banho, enquanto bebo meu café, minhas doses de seu nome,
nas músicas melancólicas você está, sempre esteve, nos pedais, nas notas do baixo,
gritam seu nome em todos os rostos e ventos, o mendigo me disse seu nome
as jabuticabas são seu olhos, o céu escuro teu corpo, as luzes de natal piscam você,
nas angústias que ninguém mais conhece, você secou cada lágrima que você mesmo causou,
nos meus pesadelos e nos meus minuciosos e indescritíveis sonhos de uma sociedade alternativa,
na minha nudez, na vergonha, no ócio não preciso comentar. Você está presente,
no campo vazio da poesia que tem suas curvas, a letra cheia e disparada, que tem suas mãos
seus olhos julgam cada movimento que esse peso realiza, as rimas tem sua autoria,
as hipocrisias que narro são todas suas e não há sujeito que não você,
o som da gaita é sua sonoridade desenhada em sopro e aspiração,
a leitura que faço de Jorge Luis Borges, Neruda, Thoreau, todas, fotografias de seu sorriso
ou mesmo de seus choros, seus ataques histéricos e sua paz inigualável
o conceito de alienação carrega sua graça, os pássaros que vejo voar, as desgraças do cotidiano
tudo e todos são você.
Deus e deuses e deusas, você.
Ao passo que olhando no espelho, escrevo essa poesia e me dou conta de minha compostura narcísica.
Não me apedrejo.
Não me crucifico.
Não me espanta.
Vocês também só veem vocês nos outros.
Mentirosos.
15 de novembro de 2019
Bambus
para o olho ver e se deliciar
enquanto os pássaros voam
a chuva cai e a janela treme
e novamente fica pra depois
como sempre tem ficado, não é?
abafar o teu silêncio em mim
não é por falta de desejo
nem de espaço nem de tempo
nem de sentimento nem
você não entenderia
até eu mesmo por vezes não entendo
o meu monólogo extenso
e podia ser com tempestade
nem me importaria, sendo sincero
trovões como consequência não amedrontam mais
mas não, claro que não,
há mais medo e receio
pois vidro pode quebrar
8 de novembro de 2019
Símbolos
Lembrem-se, há sempre algo a mais.
Uma luta para ser vivida, uma dor
Lenta, que machuca, mas que faz golpear
A quem queira nossos sonhos secos
Lembrem-se, a história está aí para ser narrada
Isso não sou eu quem digo, é o tempo, olhos
Vejam o que queiram ver. Mudanças virão.
Repete-se o ciclo, a utopia é amamentada.
E lembrem-se, isso não sou eu quem digo.
1 de dezembro de 2018
Uma continuação dos últimos versos após 1644 dias
Não encontro silêncio em local algum
nem em alto mar nem na garrafa de rum
a tristeza toma conta, embriaga meu olhar
sou um homem sem rumo, sem céu, sem lar
Viajo entre meus dias, ultimamente muito menos
ambulante, como era até o ano passado.
Me compreenda, correr demais deixa cansado,
gente velha - como nós - quer poemas serenos
Se ando sorrindo, é tanto disfarce
quanto o que tem a minha volta
caminho com quem não realce
a cara pálida, amarela e morta
Meu amigo, não encontro em nada
mas sei onde se resguarda a quietude,
sei bem, e fico entre a cruz e a espada:
quando é que tomarei a devida atitude?
...
[é, tenho sido como onda do mar
tenho brincado de ser a maré
um momento isto há de me levar
a quem Lua sempre é]
28 de novembro de 2018
Olhares analíticos
Pequena observação
Esses meus olhos fundos
O espaço vago, e tédio,
Uma sutil distração e um aceno.
Ao lado, descansa o companheiro.
Do outro, riem os papagaios.
Nas costas, parede.
Na frente, um docente afirma
algo sobre o pai ser representado pelo cavalo.
Na minha mochila
tem café amargo
ideia genial para controlar
o consumo excessivo de cafeína.
Queria saber desenhar
desenhar-te
desdenhar-te
desde a arte
até ao bom dia.
Seu olhar não é profundo
o suficiente. Encanta
mas não mantêm tal feito.
Vai da história de vida.
Vai das contingências de reforçamento
anteriores aos meus frequentes passos
cotidianos em solo burguês, da época
de curso técnico,
de café por cinquenta centavos tomados
em torno das dez da noite, ao lado de pavões,
e aquela Lua que nunca se sentiu
tão bem.
Quando é que o poema termina?
5 de novembro de 2018
Lírios e coqueiros
alguém que vem do povo
que emana do povo
que é braço de Cohab
cinza que a obra negou
lançada ao mundo
no sertão das pedras
no interior do interior
sem capital
alguém que vem de lá
do morro que entre
2012 a 2014, subi, exausto,
em horário de putaria, 23h37min,
e sorria, sorria, e chutava o balde
(era delícia; cenas de trevas: luz natural).
que perambula sob o chão
que nasci
meu bairro
que é horta e terra,
que é porta e telhado
alguém que vem da comunidade
guria selvagem nos instintos
absolutamente perdidos
dessa pátria de poucos
vem
alguém que o povo confie
que no olhar, se vê guerra
e se encontra paz
1 de setembro de 2018
Tronco de árvore
Natural que não se sinta
obrigada a sorridente ser
que lamente e repita
que não vale a pena reviver,
um barco que se fura
deixa em pânico a embarcação
águas turbulentas, uma loucura,
a atravessar-te o coração,
em tudo que há, um pouco dela?
a porta aberta te parece uma cela?
voa, voa? quer ficar, quer ficar.
A noite a dominar suas dores
o dia a alimentar o que não se espera.
Perda. A distância dos atores.
Vai-se, esvai-se, tudo o que antes era.
Que passe, natural; a vida tem dessa,
levar o que faz bem com toda pressa.
Minha amiga,
escrevo pela dificuldade
em saber descrever algo que ajude
e que traga serenidade,
meus versos
que fiquem imersos
em ti, em nós, pessoas de carne, osso e sentimento:
escrevo com sinceridade.
9 de julho de 2018
Acende um cigarro
Parado; acende um cigarro,
inquieto, seu pulmão ganha vida,
queria ver o mar
queria pisar na areia
se sente velho, esgotado,
seus amigos, no bar,
faz duas décadas que parou de beber,
faz duas décadas que se embriaga de café;
saudável? que isso significa?
após os cinquenta, saudável é não estar enterrado.
parado; observa a tristonha felicidade dos vizinhos,
ali, ao lado, escutam samba e fazem churrasco.
ele reconhece a canção, é Cartola tocando.
Seus pés balançam, quase de forma imperceptível.
O sino da igreja toca. Por um minuto, voltou ao passado
aos enaltecidos momentos de prosa, samba e sorriso.
Seis horas da tarde, da noite. Se despe, se banha,
se estranha com o espelho.
Acende um cigarro.
Toma um café, nas pausas de cada verso o fez.
Se alimenta e cuida da casa.
Amistosamente, retoma sua leitura, do dia anterior.
Ali encontra sossego; entre uma à três da madrugada
não há nada que lhe desvie o olhar. Após,
acende um cigarro.
Descansa até meio-dia.
Acende outro cigarro.
e assim, segue.
Uma sensação tão particular que não se sabe definir.
Só os velhos sentem. Por isso não se nomeia.
Tem coisas na vida que é melhor não denominar.
Acende um cigarro.
Seu pulmão vai bem.
Mas, claro, do cigarro que acende, fuma somente um oitavo.
O resto, o vento leva; é só fumaça.
Carbono,
como nós.
3 de fevereiro de 2018
Si te cuento los motivos..
Se questionarem
diga um sim
diga um não
diga um talvez
diga tudo isso
de uma só vez
e deixe a dúvida
no (b)ar
no copo
no guardanapo
deixe que
deixe quando
deixe-a
deixe
a deixa
deixe o que preenche
que é só silêncio
que é só motivos
para do ócio
se esquivar.
21 de dezembro de 2017
Belle Époque
A ausência, ainda machuca
não aprendi a viver sem
não aprendi a viver
não aprendi a
não aprendi
não...
não aprendi a viver sem
não aprendi a viver
não aprendi a
não aprendi
não...
15 de dezembro de 2017
Companheiros e companheiras
Meus amigos tem prosas
memoráveis; reflexões
estupendas, dignas de nota.
O que mais vale são as dúvidas
que arrastam minhas grotescas
convicções e verdades absolutas
Levam-nas para o deserto
matam-nas de sede; acabo
por fim, cedendo ao pensar
sedento ao pensar.
3 de dezembro de 2017
Caverna de sentimentos
A lua - vagarosamente - domina os olhos
cheia, enche também quem admira,
quem mira fundo e mira se perder - vagarosamente.
Mas no céu tem nuvens
e são cinzentas; como a segunda-feira
que vem enevoar-nos.
Os carros aceleram - vorazmente - motos devoram silêncio
com o escapamento; não escapa nem lamento.
Anunciam que não existem noites ao homens.
A lua - novamente - domina os olhos;
uma cerveja, duas cervejas, turvo movimento.
Uivo sua ausência: ecoa em mim, caverna de sentimentos.
28 de novembro de 2017
"Sentilamento"
sentir:
as vezes, é preciso
as vezes, impreciso
as vezes,
é só dor do siso;
sentir;
só me sinto omisso
a tudo isso
sentir
como outros sentem;
eu, sinto muito
que meus sentimentos
se ausentem
sentir;
sentimento tenho
sentir;
disso, me abstenho.
(usar blusa de frio
quando o vento é congelante
não nos adapta ao frio;
nos acomoda).
15 de setembro de 2017
Monólogo dialogado acerca da cerca que nos cerca há cerca de toda existência
Verbos crescem no quintal
(a clorofila intraverbal dos pensamentos)
ecos reproduzem o loop dos carros passando
(a coisa toda, a avenida e seus lamentos)
o céu está com um azul acinzentado
(na rodovia só mais um acidentado)
as árvores parecem sem vida
(há alguém aí?)
os postes brilham mais que as estrelas
(solidão, solidão),
e as placas anunciam momentos felizes
(solidão, solidão).
Silêncios dormem na sala
(no quarto, gemidos abafados)
as bibliotecas estão lotadas de poeira
(um motoqueiro acelera, não sei se a moto acompanha a própria estupidez)
corpos se negam aos prazeres e esperam o céu
(deus e suas ideias estranhas)
e continuam esperando o céu
(oh, seres bizarros)
esperam ainda
(grilos e dois mil anos).
Nossa Sociedade, o caos mais organizado possível
(diga isso aos andarilhos)
Robôs são feitos para recriarem a escravidão
(o pobre paga a conta)
meritocracia é esmola verbal
(um ser no chão, pessoas passando, não é nada não)
e a Sociedade ignora sua própria ignorância
(felizes, como o Bob esponja, ao trabalho)
mais que isso, não nota os equívocos desse meio de viver
(ter mais, ser menos)
no noticiário o televisor indica que Lula é ladrão, agora o Temer
(oras, não veem que não sãos as pessoas, mas sim o capitalismo selvagem?)
depois querem me dizer que o ser humano é sociável
(perante formigas e plantas, somos escória).
Dizem por aí, "é utopia"
(utopia é acreditar que assim está bom)
desprezam o cooperativismo
(trabalho, promoção, diploma, cigarro, carreira, coerção)
desprezam o próprio potencial
(perdoe-me os versos longos)
A vida em si já é uma utopia.
![]() |
| B. F. Skinner - Walden Two, uma sociedade do futuro Poesia escrita pós-leitura do livro em questão. |
27 de agosto de 2017
Tom de cinza
Tu olha ao redor, vê tudo em pane
não sabe para onde ir, nem porque está
enfim, observa da janela do apartamento
o lamento dos carros na rodovia
e tudo passa, tudo passa, tudo não passa
de uma metáfora estranha, que vai definhando
tanto teu cérebro quanto o céu.
Tu olha ao redor, o loop infinito
deserto de criatividade entre os versos que compomos
para ninguém ler.
Outro dia que se esvai, outro dia pronto para sê-lo
vê-lo acordar, em desespero.
Parou pra pensar na morte, meu bem?
Doces sentimentos que atravessam a escuridão
que escuridão?
nenhum poste desliga até que seja 06h da manhã.
E de manhã, o inferno vem te visitar
sob a forma da rotina
sua retina cansada
de olhar para aquela sala de aula
e ver adolescentes sendo peixes sem aquários
secando, tanto teu tempo quanto as próprias vidas.
Parou pra pensar na vida, meu caro?
Tu olha ao redor, e o redor te olha
parece um ponto pálido
em meio ao mundo mais pálido ainda,
tudo tem tom de cinza.
tom de cinza
um tom
um tanto
ranzinza
são os outros
15 de maio de 2017
A melhor poesia de todos os tempos desse dia 15
Faça o que tiver que ser feito
só não faça
papel
de trouxa!
26 de fevereiro de 2017
Lá...
O vento, entrando vagarosamente pela janela,
enquanto meus dedos vagueiam teu cabelo
enquanto meus pensamentos perambulam no escuro
enquanto desejos se elevam e minguam
enquanto as nuvens encobrem a lua e as estrelas
enquanto todo verso se perde no existir
enquanto o enquanto existe.
O vento, entrando vagarosamente pela janela,
lá fora os pássaros vão ao Sul
ficamos aqui, parados, juntos e separados
pela noite sublime, completa em sua simplicidade,
os vaga-lumes vagam em postes, a coruja
encara o universo, observando a própria solidão,
a lagartixa, aleatória no teto, parece sorrir.
Vem a questão. O que é que estou sentindo?
Sei lá, sei não. Estou bem, só sei disso, te quero bem.
Seu rosto, ao qual já reconheço os contornos e expressões,
parece calmo. Eu começo a sorrir, e me contento
com a existência.
Em algum momento se faz necessário entender
que quase nada pode ser tudo, que alguém por perto
é essência.
O vento, desse havia me esquecido,
esse não é um poema sobre o vento, afinal
é sobre ti, sobre estar bem.
12 de janeiro de 2017
Murmúrio
Ela olhava pela janela
procurando se encontrar
entre carros velozes e nuvens
entre confusos pensamentos
entre desejos antes adormecidos
entre a competição das luzes dos postes e das estrelas.
Ela olhava pela janela
procurando se perder
de qualquer tentativa
de se encontrar,
não é de hoje que se sabe
que a solidão
é inferno indispensável
para quem na multidão
vazio se sente.
11 de dezembro de 2016
Quisiera..
Do desejo de beijar tua boca de arrancar
tua roupa de te possuir e ser possuído pelos
teus desejos e desenhos, de tua arte abstrata de teu sorriso
doce e com sofreguidão impaciente e ávida. Ah, tua voracidade não
me deixa pontuar direito este poema sem jeito e sem pausa pois assim
é que me delicio em teu labirinto e me perco e me acho e me perco versando, pausa.
Do desejo jamais tão desejado,
lento, forte, enigma, demorado,
só te quero e te quero ao lado
mas não do lado de lá, onde os outros estão,
te quero nua, crua, na minha e na sua atração.
E num haicai tudo isso se comprime, exprime, que rime
ou não, mas que seja versado e conversado,
vem
e vai (vamos)
além.
2 de dezembro de 2016
Cores amarelas e prosa
Fingindo estar sempre bem, para que outros possam sorrir
O tempo devorando os lábios, o espaço apagando tuas pegadas
Frente ao mar de ansiedade e convulsão verbal que demonstras
O melhor é correr, eternamente correr, e para onde, para onde?
Eu não sei. Apenas escrevo essa mísera poesia, como forma de agradecer-te
Pelo desespero que proporcionas ao meu olhar.
E se debate, e lutas contra teu próprio exército, choras.
Já não sabes a hora e para onde voltar quando o Sol desaparece dos nossos sonhos.
Segues. Finges bem. Finges bem estar amando mais esse dia.
Como um demente consciente da própria doença, tampas a ferida.
Mas quando sorrir, teus dentes amarelados espantarão os angelicais
Demônios desse mundo. Se lhe serve essa prosa, eles também fingem.
Fingem tão bem! Fingem também! E fingem, fingem.
(É só isso que sabem fazer, além de fingir que não fingem).
Não há nenhum problema, não necessitas da maquiagem
Que usas para (escancarar ainda mais os teus rancores) disfarçar.
Tu, que voltas a cair, e a tua boca, dominada pelo silêncio
Sepulcral silêncio dos teus lábios, que se esquivam veemente dos desejos.
A vida, nada mais o que já sabemos, todos. O resto, tédio e farsa.
Queres a perpétua satisfação dos quereres? Ou morrer com eles?
Fingindo estar sempre bem, ela desperta.
Tão logo possa, voltará para o deserto, para o cemitério de quatro paredes. Quarto.
Quando não finge estar bem,
ai sim, desencantando o insensível, consegue sorrir sem as cores amarelas,
e então, desperta, encantadora, com o pouco de real que há na tal "realidade",
e já não queres volver ao teu paraíso infernal.
Eu não sei. Nunca sei se compreendes meus versos.
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