29 de outubro de 2016

Bulbophyllum guttulatum



Nela, o meu silêncio.
Nela, o meu egoísmo.
E todas as variações
de desejos e flores
que um dia eu daria a alguém.

Longe de todos, observando
Os veículos e a velocidade
Enquanto as árvores dançavam
No mesmo ritmo que meu corpo.

Não ventava. Eu estava parado.

Umas cervejas, alguns olhares.
O medo de se aprisionar
No conceito de liberdade.
A angústia de sermos dois
e não sermos ninguém.

Não ventava. Havia prazer
No prazer de não esgotar o prazer
naquela noite sem lua, sem sono,
de paz.

Os assuntos vagavam, transitando
na mesma direção dos carros
que tão pouco atrás mencionei.
Iam depressa, arrancavam-nos risos
e formavam algumas estrelas nesse céu
tão sombrio dos nossos relatos.

Pois, é quando o vazio é preenchido
com outro vazio mais imenso
que as coisas parecem fazer sentido;
vida, pura calma, no teu espaço,
que o desejo não se quer saciar.
Só quer mais desejar, e desejando
não vê a hora de voltar, fazer soneto
versejo,
enquanto da solidão
não fique apenas, refrão.

Agora venta, já não sei parar.
E as orquídeas florescem

uma se faz notar.

27 de outubro de 2016

Poesia dos que fazem da vida, poesia


Se ao teu lado, amigo tens
repousa-te tranquilo
desperta-te com estilo
pois nenhum rico tem tantos bens.

Se ao teu lado, amigos, no plural,
de que tu reclamas?
Com eles anos ou semanas
serão sempre, risadas e carnaval.

Se ao teu lado, sozinho te encontras,
te encontras primeiro.
E depois procure aos outros
encontrar.

25 de outubro de 2016

Café vírgula outro café



Entre um gole de café e outro
os dias passam, e os olhares
cansados, sonolentos, não descansam.

Sabe que somos miseráveis
sabe que somos um delírio
sabe que somos inofensivos
e que qualquer rosa
é capaz de nos ferir profundamente.

Entre um gole de café, e outro.
A noite toma-me, o dia, cospe-me.
Entre um gole de café, frio e amargo,
me apresso para a realidade
de um amanhã insistente, impossível
de se alcançar.

Pois o tempo é uma ilusão.
O tempo, mais outra ilusão.

Há relógios.
Mas as horas só indicam nosso atraso
e do que escrevo, ninguém faz caso.

24 de outubro de 2016

Caça


Não procure nas estrelas.
Estão todas mortas
e desmaterializam os sonhos
de profetas e poetas
que buscam nos céus
o paraíso.

Não procure nas respostas.
São tolas e vulgares
e desmaterializam os sonhos
de filósofos e bêbados
que buscam nas causas
o paraíso.

Não procure na tecnologia.
Troço inútil e desprezível
e desmaterializam os sonhos
de naturalistas e senhores de fazenda
que buscam nos ventos e cantos
o paraíso.

Não procure no nada.
Ele se quer existe,
e se existe, nada não seria.

E até agora lês esse poema
e não te perguntastes o que
então está se procurando.

Pois, procure não questionar
esses versos.
Pois nem eu sei bem.
Talvez não queira saber.

23 de outubro de 2016

A moça, a seta, o símbolo


És como o mar,
e gostas de brincar
no vai-e-vem, como onda
que chega, gelada,
e refresca o corpo.

Mas, assim que mais se quer,
desesperadamente nessa brincadeira
se recolhe, tornando-se
desejável, e impossível
de ter, se não que somente por instantes
crueis e expressivos

onde o desejo
não deixa espaço para a inocência
e o ápice, é em si mesmo, decadência.

18 de outubro de 2016

El secreto de sus ojos ..


Quando teus olhos
encontrarem olhos
aos quais não temam
o olhar,

deixe o olho
de molho
e passe a amar.

Ou, pessimista,
seja um olhar
que se deva desconfiança,
pois no olhar que não treme
pois no olhar que não teme
algo além,
e é tu quem dança.

10 de outubro de 2016

PsicoPoema IV


E foi assim, que o Sábio, Ser Humano,
após desbravar teorias e teoremas,
após destruir o sagrado e o profano,
resolveu se isolar e escrever poemas:

Após certo tempo, longe do perigo
de ser tomado como fútil ou como herói,
construiu seu alicerce que agora, não corrói:
não fugiu da chuva, não procurou abrigo.

Se abrigou na própria tempestade
não dando a ela poderes ou magia,
e assim sendo, reconheceu que verdade
é não inventar algo além do que ocorria.

Num tempo a que chamamos passado
homem sábio, fogo conheceu
e se explicou, de tão impressionado,
que Vulcano o fogo deu.

Aprendeu-se técnicas: controle e previsão.
Vulcano e seus nomes variantes
desapareciam ao passar dos instantes,
pois nesse mundo já não tinham função.

E nesse tempo em que vivemos
o homem que enterrou seus deuses
reinventa-os várias as vezes,
pois, de fato, nem tudo conhecemos.

Homúnculos, liberdade, livre-arbítrio, egos.
Self, transpessoalidade, o culto ao oculto,
perceberemos então que estivemos cegos
e por fim, saberemos, que nada é fortuito.

Mas há quem insista.
Mas para cada um que insista,
há outro que pela lógica
persista.

9 de outubro de 2016

Versos mal-ditos


Poesia é um demônio
que assombra nossa linguagem
que causa vertigem
que se alimenta de noites

que se aprende a conviver.

8 de outubro de 2016

Os deuses e a linguagem


Os homens, aos poucos, enterram seus deuses.

Outros homens, aos muitos, renomeiam suas divindades.

Os deuses copulam na linguagem, e brincam de reinvenção.
E surge o deus Liberdade, e surge o deus Livre-arbítrio,
e surgem deuses, o deus Energia, o deus Personalidade,
e do Deus que Nietzsche matou outros dois novos Deuses:
o Deus que chamamos "Mente" e o Deus "Energia".
Todos esses deuses possuem função na sociedade.

Mas, aos poucos, os homens enterram seus deuses,
aos poucos, aos poucos...
pois temem que, não havendo deuses para enterrar
não possam viver sem eles, e assim tenham
que enterrar seus próprios medos e viverem
sem suas ornamentais superstições.

Pois temem que, não havendo o que temer
temam a ausência do oculto.

7 de outubro de 2016

Pétalas e sombras


Dou-lhe um buquê de rosas.
Dou-lhe tempo, dou-lhe prosas.
Dou-lhe atenção e alguns vícios.
Dou-lhe fins, mas dou-lhe inícios.

Dou-lhe um buquê de rosas.
Dá-me uma única flor.
Mas dá-me com ternura
pois a essa altura
dou-lhe tudo o que sou.

6 de outubro de 2016

Haicai mister


O olhar é suficiente.

No olhar se sabe
o que no olhar se sente.
 

5 de outubro de 2016

Haicai contraposto


X é a variável
o amor é a contingência,
pra quê toda essa resistência?

Encantamento e discursos inúteis


Metade do mundo
se deixa levar pelo encanto
das palavras.

A outra metade
não entendeu
o que foi dito.

3 de outubro de 2016

A primeira resposta


Dor de cabeça

só quero
que a dúvida
me esqueça.

Com sinceridade
faz tempo
que desisti
de encontrar em algo
alguma verdade.

De verdade
só uma:
verdade
nenhuma.

1 de outubro de 2016

Comportamento Verbal I


Culpem o adjetivo!
Este sim, é canalha.
Parece sujeito, substantivo.
E de tanto que se diz
se explode, se espalha.

Alguém.
Este a quem
me refiro,
torna-se
orna-se
substrato
adjetivo.

Se me livro
do que se diz
sujeito ou substância
vai além
de triste
ou feliz.

O passado


O tempo não passa. Nossas vidas se desintegram
rumo à sabe-se lá onde ou por quê.
E velhos amigos se reencontram, cada vez mais velhos
na plena juventude dos corpos e copos.

O tempo não passa. Quem passa somos nós que inventamos
o tempo, os deuses, as coisas todas.
E estou cada vez mais passado com este meu passado
e com os acontecimentos que hoje soletram o amanhã inexistente.

O tempo devora. Devora o seu próprio criador.
O companheiro a que me refiro trará revoluções
mas elas morrerão em um sonho de adolescente
como os meus morreram, para dar lugar ao que agora chamamos real.

O tempo, traidor. Nós devemos matá-lo.
Mas é o tempo que nos mata, inimigo.
O tempo, o ingrato que nos afasta da infância
onde éramos tão despreocupados e inoportunos
em cada oportunidade de aterrorizar e criar rugas
nas já desprezadas testas dos que o tempo já devorava.

O tempo não passa.
Ou passa até demais.
Tanto faz, no fim é só um termo.
E velhos amigos se reencontram
e logo não se reencontram mais.