8 de abril de 2019

Nota de rodapé



Escritor
é quem sabe o que não escrever
e, se escrito, sabe parar,
arrancando as próprias mãos
e as de outras pessoas,
se necessário.

7 de abril de 2019

Acostumar: por diferença e semelhança a "acomodar"



acostumar-se
ao pouco
ao louco
ao sol e a chuva
que transitam pelo calor da cidade

fica tudo, costume.
Ainda que enaltecidos os ânimos
a flor da idade ávida por mudança
não há que se faça mudar
pois mudar por mudar
também não deixa de ser costume

permanece apenas aquilo
que se habitua e na pele
faz suportar

se acostume com isso

2 de abril de 2019

Oração da manhã




cores tão vibrantes do dia
faça sol essa poesia
deixai-me descansar em pé
na chuva que não vem
deixar-me dormir até
depois do alarme, amém

29 de março de 2019

Sem religião e sem crença




sem muita religiosidade
na escrita que teço
a passos lentos e de amizade
com o tempo

ler por desespero
como quase que tudo
é solidão

escrever, assim
só o necessário
falar menos ainda

verso que eu inicie
que ali
pensado, finda

23 de março de 2019

A pele e o vazio: apenas enfeite



Toda essa mesquinharia, um eminente nada profetizado a muitas e muitas décadas,
o efeito da estética sobre o meio da escrita - e não somente - pois que tudo é desprezível se não for como se supôs,
é preciso estar ordenado ao Zeitgeist - vivo sempre do passado,
e deixar-se despreocupado: corpo flutuante em meio ao que ocorre
enquanto ocorre, anular-se por completo, sem desejo, sem sentir-se
é preciso alienar-se,
pensar enaltece a morte; "ser pensante". Uma vida, um papel.
Amanhã muda o vazio. E não muda, também.

As sensações veladas: o pânico contido na pele, como nos consome!
(Eu deveria dizer somente por mim, deveria dizer "como me consome!",
os outros que descrevam seus fantasmas: mas sou a eles, também).
Levantar e o Sol, importa? Alguns olhos fitam sem a menor expressão
e choram, choram, choram. O café sem açúcar é para ter algo mais amargo no paladar? Perguntas retóricas.
Açúcar é alienar-se dos sabores. Sal, também. Temperos, no geral.
A vida é crua, não é frita, não é assada, não é temperada, é crua!

Crua! E é preciso ter um apetite extremo para não enlouquecer com o tempo,
é preciso ter uma dor aguda a ferir o estômago e se acostumar com ela,
ser Odin e abandonar os vieses de Huginn e Muninn - se despir dos corvos diários, a enfeitar os movimentos doentios.

Discutimos e sabemos - e sabemos que não queremos saber - que nada disso importa,
São apenas palavras evasivas a preencher a forma. São apenas formas a preencher palavras evasivas. São apenas problemas inventados para diluir
os medos, os perigos e os sentidos.
Apenas temperos. Expressões que nos mantêm vivos e enlouquecidamente normais.


21 de março de 2019

Entre isso e aquilo



entre a fumaça do café e a
fumaça do incenso
se encontra metade
daquilo que (não) penso

19 de março de 2019

Baú e pó




sentimentos
lamentos em tom mínimo de gaita
saudade baita
bata; de vez em quando
de vez que eu ando
sem rumo algum
esperando as estrelas virarem pó
nos lamentos em sinfonia de um homem, só

13 de março de 2019

Sem tempo para as manchetes



Urubus, espreitando as minúcias do cotidiano
ávidos pela queda de um sorvete infantil
pois que tudo é midiático. O jornalista, especializado
em carniceria e novidades rotineiras, um azedume ambulante,
olhos, bem mais que dois, a fitar a velocidade do momento,
a lágrima que cai, a morte que ali pousa, o rico que come o novo lanche
de um restaurante até ontem meia boca,
os jornalistas a inventar as novas e novas notícias,
sem que se descreva as causas: pairam e param no que chamam de "fato",
uma visão distorcida de qualquer coisa que se mova
garimpada como verdade, se bem aceita. Outra notícia para fazer aceitar.

Urubus.
O jogo de basquete nem acaba
caem aos ombros dos jogadores
"justifiquem sua derrota! demonstre seu descontentamento, fale, fale, fale!"
a morte tampouco teve tempo de pensar
caem aos ombros dos familiares
"a morte veio lhe visitar. O que acha disso?"

E assim segue a indústria do faz de conta que
sem dar a mínima para as causas e consequências de sua própria existência,
recria narrações, se reinventa com mais do que ontem, criando assim
o nosso amanhã. "Nosso".

12 de março de 2019

E ser ávido pelo viver



...

e ser ávido pelo viver, por acaso, não seria masoquismo suficiente? A labuta diária, alienando a carcaça do meu corpo, não basta? É preciso sufocar. É preciso a agonia da indiscrição que está sempre na cara, no nariz. É preciso sufocar o sufoco, até. Fingir demência em relação ao estrago dos minutos.

E ser ávido pelo viver. Ser a ti mesmo, impessoal. Quem é este? Nem a mim me sei. É preciso se assujeitar enquanto oculto aos próprios fatos. Não descreva, não analise as variáveis de seu contexto, deixe fluir, deixe ignorar-se. E ser ávido pelo viver.

É.



Até onde a ironia nos leva m esmo?