8 de maio de 2019

A hipótese de gaia. O que será que?



O que será que? O que será que pensará?
Na sombra de pensamentos, na sobra deles,
rodeiam os carnívoros receios, floridos
a chamar a atenção dos passantes. O que será que?

A avenida não tem fim, ela acaba no começo
cada passo um dilema a reconsiderar
a música não tem fim, ela acaba no começo
a canção? Ludovic. "Eu fiz pouco caso de um gênio", é o que tocava.
O que será que?

O suor, gota por gota, escorrendo para lugar algum
Devo eu me evaporar de mim?
Poeira cósmica. Carbono por carbono. E a seleção por consequências
em três níveis (biológico, social e individual) a dependurar
o que nesse exato momento chamo de "eu". Santo Darwin!
Bendito Skinner! Oh, J.A.D. Abib! O céu rosado, a confundir
tons de azul e amarelo. O que será que?

Recuo.

Não há "eu" ali. Sou-me-mundo. Sou mesmo o azul do céu e do mar,
sou o mendigo que passa faminto enquanto outro de mim devora
dólares. Caos é meu nome. O que será que?
E no meio da relação sexual, sou eu próprio a me adentrar, e a dor
que quaisquer sentir, é a dor que sinto.

Recuo.

No fim do percurso, da longa e tão leve caminhada, revelo: não
não sou nada disso. Não há eu. Há nós e nós nessa linha.
O egoísmo é que funda o conceito de eu, o conceito de individualismo.
Não há nada tão delimitado assim. Pois se vivo, o mundo vive,
e se morro, permaneço em movimento no que deixo.
O que será que deixo? A vida não tem fim, ela acaba no começo;
só há então o que houver de relação.

Hipótese de Gaia.
 

7 de maio de 2019

relações entre operantes verbais e três níveis de seleção: sentimentos



é a ironia a deusa dos mares
com suas ondas de vai e vem
a inebriar o corpo que repousa em ti

como o deboche, senhor do tempo,
não há tormento que impeça
a humanidade de ser feliz em seu descaso

eis ali, ao Sol, o escárnio
a arrebatar aos céus
o que de mais podre há na felicidade

e em seu banho de Lua, a angústia
entravada com o prazer, ambos a denunciar
a todos e todas seus movimentos
que não respeitam a métrica poética e é isso

sempre.

5 de maio de 2019

Vaiver pq ñ?



coisas que não
se fossem talvez
seriam sempre
só uma vez

eternos instantes
tempo nem
quando sabe se lá
só sei quem

vaiver
há menos
olhos
é visto
vaiver
insisto

claro
dentro
fora
dentro
fora
fora
fora
o que se pensa
algo mais?

o ângulo
é hipótese
um dia dá
(pensei)

de costas
há olhos
(eu sei)

2 de maio de 2019

Luta de classes e crases



Não compre peixe
na feira dos ninguém
o podre que vai e vem
impressiona que se deixe
ver e ser visto

E é uma maravilha
quem se enche de gente
pra viver numa ilha
daquilo que só é aparente

Se esconde na profundeza
do mundão superficial
depois diz que é uma tristeza
ver na rua tanto marginal

Engana só quem gosta
de comer bosta
achando ser caviar

no fim das contas (que rico não paga)
respiram todos o mesmo ar

uns mais quentes
outros condicionados
outros mais, ausentes,
e os pobri morrendo
nos cantos, nos lados.

30 de abril de 2019

Meio termo




turbulências em som de gaita
notas totalmente discrepantes
chegam a arrepiar os ouvidos
tons
dos mais angustiantes a adentrar
o que chamam de alma.

no mais, tremenda calmaria
chega a assustar quem foi sempre
de pedras e pedregulhos

escutar com a certeza
que ou olvido ou me deixo ser envolvido - continuam
os horripilantes barulhos da gaita do vizinho
pedras e pedras arremessadas no caminho.

14 de abril de 2019

O pão nosso



quente
como areia de praia no pé
mas com intensidade
diferente
como de religioso a fé
ainda que por ironia
nada mais quente
que o pão da padaria

antes mesmo do sol vir
enlouquecer o pós-domingo
no que chamam de segunda

semana nova
e exatamente nada muda
muda a ova
de quem nasceu
com grana para não precisar escutar o maldito despertado

9 de abril de 2019

Um dia comum



um escândalo, por muito
pouco
farelos
mais desejados que o pão

as entrelinhas são lidas
o livro esquecido e abandonado

a lógica das classes sociais
imposta e ignorada
a naturalização do faminto
a naturalização do esnobe caviar
a foder a goela do país

um anúncio no poste diz
QUER SABER SEU FUTURO?

é a última coisa que quero.
Por qual demônio alguém isso quererá?


(e não sabemos todos?)

8 de abril de 2019

Nota de rodapé



Escritor
é quem sabe o que não escrever
e, se escrito, sabe parar,
arrancando as próprias mãos
e as de outras pessoas,
se necessário.

7 de abril de 2019

Acostumar: por diferença e semelhança a "acomodar"



acostumar-se
ao pouco
ao louco
ao sol e a chuva
que transitam pelo calor da cidade

fica tudo, costume.
Ainda que enaltecidos os ânimos
a flor da idade ávida por mudança
não há que se faça mudar
pois mudar por mudar
também não deixa de ser costume

permanece apenas aquilo
que se habitua e na pele
faz suportar

se acostume com isso