11 de abril de 2018

Seria onda



Tudo em mim tem um ponto de discórdia
se vê ontem quer amanhã
se não foi quer sê-lo
um solo de baixo, um solo de cima
quer batata frita, não quer usar óleo
e deseja sempre o contrário
do contrário; não é o mesmo.

Difícil seria se fosse fácil
não seria o que se é
se não fosse a subida da maré
seria onda,
iria na onda
de quem é mar.

Tudo que
quando
nunca
sempre
fica
igual.

Tudo que
onde
fica
nunca
muda
permanece

e escondido
sem alternância
se esquece

poesia mesmo
quando muito
tem sorte
de viver à esmo.

10 de abril de 2018

Jumentos e sensações - variações de um mesmo tema



Minhas sensações são como jumentos
sim, jumentos. Não achei viável defini-las
pela velocidade das motos, dos carros.
Jumentos. Eis minha sensação.

Nas ruas de meus comportamentos
tão íntegros, tão convictos, tão egoístas,
as sensações atravessam, tão rejeitadas
mendigando atenção. Não dou ouvidos.

São como jumentos, adestradas.
Mas, vira e mexe, tem um que quer aparecer.
Faz graça, escapa, nada mais que para ser recapturado.
E sofrer as consequências.

São como jumentos.
Minhas sensações.
Meus sentimentos.
Meus lamentos.


Eis minha sensação

7 de abril de 2018

Sapo Barbudo


Até agora me pergunto por que raios um ex-presidente iria roubar um apartamento que custa menos de um milhão.
Até agora me pergunto por que tanto ódio por uma única pessoa.
Até agora eu não tinha visto na TV o modo como tudo isso é transmitido.
Assisti, essa semana, a entrevista do Juiz Sérgio Moro para o Roda Viva.
O cara tá por fora, vai pela convicção. Ou melhor, só segue ordens da direita.
Não sabe o que faz, só faz pela grana que ganha ao fazer.
O pior de tudo, seu discurso é banal e moralista. Não tem perfil para herói nacional.
Mas é um. Muita modelagem feita na população.

O Sarney, tá solto.
O Temer, não sofreu impeachment, apesar de assinar o mesmo doc. que a Dilma assinou
e por isso foi acusada de causar improbidade administrativa. Ironia, não?
O Collor é candidato à presidência.
O Alckmin, nem se fala; corre só de escutar a palavra "metrô".
Não que Lula seja inocente, não acredito em político, quando o assunto é dinheiro.
Mas isso tudo cheira mal. Só besta não vê.

Sobre os 900 mil reais que levaram a prisão do sapo barbudo, Temer
gastou, com jantares para a imprensa, para tentar convencer os jornalistas que é coisa boa,
muito mais que o dobro do dobro dessa quantia. Ironia, não?
Mas aí não é crime. É permitido.

Querendo ou não, é só olhar estatísticas. Ao menos em questões sociais
as coisas estavam indo menos pior. Não estavam bem, estavam menos pior.
Porém, é de (des)conhecimento nacional
que os mesmos que comemoram a prisão do cachaceiro petista
acreditam que nesse país, não há racismo, não há preconceito...
tudo tão meritocrático.

São os primeiros a dizer que quem mora na favela é bandido,
os primeiros a apoiarem a invasão no rio de janeiro
os primeiros a defender o fim de tudo que é direito social.

De novo, repito nos meus versos:
é tentar sanar as consequências
sem sequer voltar os olhares às causas.

Até então, eu não cogitaria votar no Partido dos Trabalhadores
mas, devido a todas essas perseguições seletivas,
não me resta dúvida. É tudo estranho demais.

5 de abril de 2018

Esvaindo



Tudo na vida, vai indo.
Vai indo sem onde
vai indo sem quando.
Inclusive a vida
vai indo, vai passando
vai lhe sorrindo
amargamente

a poesia vai indo
o cachorro vai indo
a gramática, os búfalos, os perfumes,
as diarreias e os medos,
até
o sonho vai indo

a utopia fica.
 

28 de março de 2018

De pressão cotidiana



Quer: escuridão e o som do próprio respirar;
porém lhe asseguram o exato contrário;
sentir-se vago, amarrado, enclausurado,
mas não: quilos de pó, maquiar o silêncio,
uma roupa bonita, leve sorriso no rosto,
e deixar-se levar por aí, como se vivo estivesse.

Quase um corpo perfeito, se não fosse a perfeição.
Parecia-me uma poesia drummondiana mas
com uma gramática polida demais, gera desconfiança.

Uma pausa para esse poema- descrição.

Tenho escrito-o por meio dos meus próprios olhos.
Erro nesse ponto. Noutros mais, também.
O que acontece na literatura é um pouco disso.
O que esse ser, angustiado, poderia dizer-nos?

Não sei, não sei.

27 de março de 2018

Subjetividade


para mais ou para menos
nunca se sabe o meio
o copo vazio pra um
o copo pra outro cheio

psicanálise



palavras vagas
vagas de emprego
palavras empregadas
vagas e vagas
palavras pregadas
em vagas definições;

palavras apregoadas.

A docente - em pé - em êxtase
com o discurso redundante do discente
eu, ali, cansado, todo ausente
me retiro da carteira, sigo ao banheiro
local de menos merda que essa aula;

inesperadamente
(ou devo dizer, Paula-tinamente?)

me chama, sorrindo, ela;
sim,
sorrindo, acreditem

o dia é só poesia,
inesperadamente

até os psicanalistas viram
matéria reciclável

17 de março de 2018

16 de março de 2018

Sem acento, mesmo pegando busão



Quiçá
entendessem
o quiço
o fiço
o pido

todos tão preocupados
com suas gramáticas
burguesas