11 de março de 2019
E hoje, e hoje, e hoje, e...
Entre as partes suprimidas de momentos
singulares universos se dispersam
criam-se nadas, fantasias, dores, lamentos
e o que mais couber no vulgar esquecido
pois ali há muito, muito mesmo, não antes
que as nuvens a encobrir toda poeira possível.
Certo desconforto. Há, sem dúvida. Nenhuma é
outras não são, um é um, em qualquer lugar.
A artimanha velada da poesia enaltecida
serve como forma de passar a limpo num ambiente fictício
(qualquer zelo pelo hoje aqui some)
de contornos aversivos e aprazíveis.
Escreve a mão que se ausenta da palavra
uso distorcido que exerce - oh, sociedade!
A cada amanhã, um ontem que morre solitário
vagando cego pela chance de ser ele próprio
um amanhã também. Ainda que entre as partes suprimidas
de momentos singulares universos se dispersam
e, assim caminha o hoje, o hoje, e o hoje também.
4 de março de 2019
Pelas lentes dos parentes
...
Lamber o sal da ferida
fazer com ele, churrasco,
terminar a bebida
continuar sendo um asco
em dia de festa
ser tudo aquilo que repudia
tudo aquilo
que não presta
aos olhos morais
dias normais.
28 de fevereiro de 2019
O telejornal: o mesmo sempre, sempre o mesmo
Gozar dos desprazeres alheios
cuspir e xingar, na voz o ódio,
repugnar o miserável, lastimar
até nos intervalos comerciais
e encher o mundo de medo
medo hipócrita: lançam aos povos
o pavor do convívio comum.
Pois tudo é tão perigoso. Tome
cuidado; não confie em ninguém.
O açoite do sujeito social
eis aqui a função do telejornal.
Fronteiras intransponíveis se erguem
entre nossas retinas e bocas
cisco no olho alheio é cócegas.
Eis a reinvenção dos contos:
enaltecer a tragédia cotidiana
lembrar ao humano sua finitude
enquanto ser miserável
quanto mais miserável for o dinheiro
no bolso.
A morte está para os pobres e parentes
como o café está para o vício.
25 de fevereiro de 2019
Ainda que o vigário volte - parte I
Adio meus pensamentos de maneira constante
Nuvens escurecidas atravessam quietas
Devoram vaga e lentamente. Um silêncio gritante.
Fecha as portas que antes estavam abertas.
É tudo cinza. Mas nunca me foi tão claro.
Um pouco de nebulosidade faz ver melhor.
Relembro os segundos, a intensidade de cor
Sentir-se só mais um. É sentir-se raro.
Pouquíssimas afirmações tão conclusivas
Deixando que a dúvida consuma o íntimo
Ao seu próprio passo, ao seu próprio ritmo.
Sentir-se como um qualquer, como qualquer um
Como um andarilho carrega sua cachaça
Como um pirata com seu papagaio e garrafa de rum
Uma formiga a habitar o que sempre passa.
É tudo cinza, já lhes falei isso? Certamente.
É tudo tão cinza aos olhos de qualquer gente
Ainda que alegre - alegria passa- é cinza
Ainda que o vigário sempre volte para rezar a missa.
19 de fevereiro de 2019
Relações abstratas e pós-modernas entre deus e um funcionário do balcão de informações
um sujeito se embriaga de café
sua função é estar ali, parado,
alheio ao que não seja informar,
dez horas seguidas de uma bunda quadrada
mas cheia de informações.
Sabe de tudo, e de todos,
tal como uma divindade que engorda
a cada virada de seu globo ocular.
Talvez o que chamam de "deus"
seja isso: uma espécie de porteiro sem função,
deslocado no espaço-tempo
pronto a nos servir e manter-nos ali
no balcão de informações
a diferença - sempre há - é que o rapaz do balcão citado
oferece café (o rapaz é meu tio), e é um bom ouvinte.
Agora, a tal da entidade - aprisionada no seu canto - por mais tempo
que quem espera a tão sonhada aposentadoria,
deixou-se levar pelo tédio, pela agonia da solidão,
e, de maneira justificada, nada nos informa:
nem aos fiéis nem aos descrentes nem aos irônicos difamadores de vosso catolicismo ou de quaisquer dessas religiões que pregam a paz e que, um dia, pregaram o filho do tal salvador.
17 de fevereiro de 2019
Food does not come in there: Venezuela
Quanta humanidade
nesses países tão lindos
paraísos de cor neve, branco branco banco
até a casa é branca
embargos
sin embargo
sim, senhor!
Um litro de petróleo
(dou-lhe até dois)
por uma migalha de pão
é que os estadounidenses querem a paz
como quis no Iraque
como quis na Guatemala
como quis aqui, no Amazonas,
como quis em Honduras
como quis no Canadá
como quis na Líbia
como quis no Afeganistão, tão cruel,
como quis na União Soviética
como quis 1967, Sudão
ó glorioso país: mãos santas banham o proletariado
defenderei-te até a morte
de outras mil crianças em um colégio qualquer
Os terroristas são os outros!
Mas,
lá vem o comunista escrever
que essas guerras não foram somente para ajudar os tristes países
(agora vai dizer que na Venezuela o interesse é por petróleo?
tolo, o comuna, não sabe que os embargos econômicos foram somente para proteger os cidadãos,
as criancinhas estão mais felizes com esmola - eis ali um MC LancheFeliz, e nem é rapper).
uma lágrima escorre diante a ajuda humanitária
pois se querem enviar comida, a coisa mais lógica a se fazer
é mandar comboios
não remover embargos (é assim que se pensa como um humanista?)
Oh, perdão, a poesia começa aqui:
Venezuela
el
país
con
las
mayores
reservas
petroleras
probadas
del
mundo
11 de fevereiro de 2019
Rola-bosta - Crômica dialogada I
O cronista a dialogar com seu camarada, um velho decrépito. Em uma cafeteria qualquer.
- "...então, como estava falando para o Sr., tenho rido de tudo em meu dia. Do pé na bosta tenho dado gargalhada. Meu pé úmido aduba minha risada. As relações sociais que comumente geram uma nebulosidade no ar - deixando o interior da cor da capital paulistana - me agradam. Algo de sádico tem me afetado. Em verdade, algo sadomasoquista (há dor em qualquer risada)".
- "E o que de tão cômico lhe ocorreu?"
- "Pois nada. Nada tem ocorrido. Me sinto um rola-bosta. Aquele besouro. A troco de nada modifico a matéria: o que parece, aos outros, caótico, vejo ali grande valia, transformo o inferno em paraíso".
- "Conte-me: como faço para realizar o mesmo? A tempos procuro viver feliz. Conte-me!".
- "Quer mesmo saber? Deixe que tudo se foda. Deixe o circo pegar fogo (e leve mais gasolina). E, então, no ápice da loucura mundana, sorria. Enquanto a água quente escorre no rosto alheio, apenas sorria. Ria do erro crasso. Ria. Do acerto previsível. Ria do esforçado cotidiano que se engoma todo para trabalhar. Ria do playboy, da burguesia, dos que flertam com a morte. E só".
- "Nada mais?"
- "Depois sente em sua melhor poltrona. Pegue lápis e papel. Ou se ajuste próximo da máquina de datilografar. Na ausência desses, se debruce sobre seu velho computador. E escreva, escreva, escreva. Se preciso, deixe de dormir; mas escreva".
- "E que há nisso de felicidade?".
- " Felicidade? Não sei. Apenas gargalho e dou-me a rir - as vezes de maneira particular, sem que saibam. Escrever é somente outra forma de rir da desgraça cotidiana. Não me venha com esse papo de ser feliz".
9 de fevereiro de 2019
punição religiosa
deixe-se duvidar
ponhas os pés no freezer
a cabeça no fogão
deixe tudo um caos só
deixe-se duvidar
tem andado tão feliz, não?
desacredite alguns minutos
não irá fazer mal algum
deixe-se duvidar
não vá ao trabalho na segunda
volte terça
sorridente, e faça com que saibam
deixe-se que duvidem
sim,
você visível
no dia seguinte
e sorridente
bem sorridente
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