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24 de maio de 2019

Rascunhos de um conto deixado de lado: o trivial



Encarou o espelho. Uma. Duas. Três vezes. Nada sentiu. O vento que batia pela janela misturava odores: um toque de café amargo com o requinte do caminhão de lixo. Pareceu sentir também algum incenso de canela, mas desconsiderou tal aroma. Bateu de frente ao espelho pela quarta vez. Olhava seus poucos fios de cabelo, exigentes por um banho; somente sentia ali a calvície do amanhã. Olhava as unhas a serem cortadas, e não tinha o menor ânimo. A barba a ser feita, tampouco lhe incomodara. As remelas nos olhos, quase lhe encaravam de volta, tamanha a preguiça de limpar o rosto.

Ao ver seu reflexo pela quinta vez resolveu se dar ao luxo de uma bela ducha de poucos segundos. O suficiente para lavar o corpo e pelos com sabão em pedra comprado a R$ 0,99 no mercadinho abandonado, na rua seguinte a sua casa. A água era pouca, mas maior que a vontade de ali estar. No chuveiro, pensava com clareza, "essa vida anônima ainda vai me matar". Possivelmente, errado não estaria.

Eram 04h35 da madrugada. A escuridão ainda banhava os moradores de rua e os gatos selvagens do bairro. O sono, tardou outra vez a aparecer. Sabe-se lá se viria. Deixando o roupão no caminho até a cozinha, gratificou-se com um copo de uísque já pronto - depois resmungou a qualidade do mesmo - e permaneceu alguns minutos na janela pensando como a vida era mesmo trivial.

Tola e trivial. E não era isso que a deixava simples e bela? O trivial era revestido, como quase tudo no humano, de uma falsa complexidade e uma pretensiosa descrição de superioridade. Mas não, na janela e em seus pensamentos, o que se sabia, é que era trivial. O leitor sabe o ponto em que me detenho. Quando faz seu café da madrugada, pronto a arriscar os pés na rua para mais um dia de trabalho, em meio ao nascer do Sol que nem se deitou, sabe do que estamos conversando. Era trivial. E parece ser ainda mais quando a gente se dá conta. E não parece?



11 de fevereiro de 2019

Rola-bosta - Crômica dialogada I


O cronista a dialogar com seu camarada, um velho decrépito. Em uma cafeteria qualquer.




- "...então, como estava falando para o Sr., tenho rido de tudo em meu dia. Do pé na bosta tenho dado gargalhada. Meu pé úmido aduba minha risada. As relações sociais que comumente geram uma nebulosidade no ar - deixando o interior da cor da capital paulistana - me agradam. Algo de sádico tem me afetado. Em verdade, algo sadomasoquista (há dor em qualquer risada)".

- "E o que de tão cômico lhe ocorreu?"

- "Pois nada. Nada tem ocorrido. Me sinto um rola-bosta. Aquele besouro. A troco de nada modifico a matéria: o que parece, aos outros, caótico, vejo ali grande valia, transformo o inferno em paraíso".

- "Conte-me: como faço para realizar o mesmo? A tempos procuro viver feliz. Conte-me!".

- "Quer mesmo saber? Deixe que tudo se foda. Deixe o circo pegar fogo (e leve mais gasolina). E, então, no ápice da loucura mundana, sorria. Enquanto a água quente escorre no rosto alheio, apenas sorria. Ria do erro crasso. Ria. Do acerto previsível. Ria do esforçado cotidiano que se engoma todo para trabalhar. Ria do playboy, da burguesia, dos que flertam com a morte. E só".

- "Nada mais?"

- "Depois sente em sua melhor poltrona. Pegue lápis e papel. Ou se ajuste próximo da máquina de datilografar. Na ausência desses, se debruce sobre seu velho computador. E escreva, escreva, escreva. Se preciso, deixe de dormir; mas escreva".

- "E que há nisso de felicidade?".

- " Felicidade? Não sei. Apenas gargalho e dou-me a rir - as vezes de maneira particular, sem que saibam. Escrever é somente outra forma de rir da desgraça cotidiana. Não me venha com esse papo de ser feliz".

 

16 de novembro de 2017

Crônica I - "De toda forma, prossigamos"



Nem sei bem, caro leitor, se o que escrevo é o que ocorre; mas escrevo esse emaranhado de cotidiano de uma guria qualquer.

Ela desperta, as cinco da manhã. Tem família - como qualquer outra - talvez uma filha pequena que vai para o colégio, logo cedo, zumbizinha; talvez um marido que apressadamente luta pelo pão do dia seguinte, e não tem tempo nem para tomar o café da manhã do próprio dia. Tem família - como qualquer outra que não se anda tendo hoje em dia; e isso não é algo ruim, devido as circunstâncias do meu escrever.

De toda forma, prossigamos. As cinco, desperta: arruma a mesa, arruma a casa, arruma a roupa de todos, arruma o almoço, arruma as camas, arruma, arruma; são seis horas. Toma o ônibus; o ônus do povo; o bônus é estar cheio.

Chega no seu trabalho, ou por melhor dizer, o trabalho a ela chega. Uma pequena fila, antes mesmo das sete horas, a lhe ofuscar o pensamento. Zumbizinhos. Mas tampouco eles tem culpa de ali estarem; estiveram apressados pela madrugada-manhã, não possuem pais que lhes façam o café (sim, leitor, possuem mãos para fazê-los), apressam-se para sair de casa, e como a burguesia, além de pressa, tem money, não se preocupam em comer em suas residências: tomam o café da manhã nos quinze minutos antecedentes as aulas; afogam-se em salgados, pães e, principalmente, na amargura esplêndida do café. Sim, o Café. O motivo da fila; o motivo do despertar as cinco da guria que estamos comentando; o motivo dos atrasos em sala; o motivo de diálogos fervorosos entre adolescentes e suas besteiras filosóficas; o único item que se pode comprar - o copo, claro - com uma nota de dois reais, antes da manhã chegar.

Ela chega a sua servidão; apronta-se: põe vestimenta, põe sapato específico, põe toca de cabelo; põe seu corpo em hibernação; e ativa o sistema de trabalho.

Aí daqueles que não conhecem o sistema de trabalho. O magnífico sistema de trabalho acoplado ao corpo de todo ser humano que precise escravo ser. Ela o ativa. Seus sentidos somem; os robôs sentem inveja da mecânica dos seus movimentos; e ela se locomove, com os olhos entreabertos, como se nada estivesse acontecendo, como se ela não tivesse que passar as próximas dez horas em pé, servindo ignóbeis alunos e professores de faculdade - além de visitantes curiosos - servindo sua própria cova, se entorpecendo com o cheiro de cafeína e açúcar; além da canela (e o som das abelhas, por consequência), as vezes.

Tudo isso, meu caro leitor, minha cara leitora, minha outra face. Tudo isso, para chegar no início do mês seguinte e receber seus míseros mil reais; o suficiente para comprar 500 copos de café que o local em que trabalha vende.

Ela abre a loja, e as pessoas da fila dizem, como se estivessem em uma Assembleia, como se estivessem numa Doutrina Esquizofrênica, ou como chamam por aí, nas Igrejas. Dizem: "Aleluia".

E pensam vocês que ao ouvir essa exclamação a guria em questão se incomoda? Não. Ela diz "bom dia", ela recebe "bom dia". Ela está com o Sistema de Trabalho ativado. Não tem sensações. Ali não habita um ser humano nas próximas dez horas (ou mais, quem sabe).

Ela termina o expediente na loja, já sem pessoas na fila, e diz, como se estivesse em uma Assembleia, como se estivesse numa Doutrina Esquizofrênica, ou como chamam por aí, nas Igrejas. Diz: "Aleluia".

O engraçado é que com certa frequência ela não mais usa o Sistema de Trabalho. Ela é o trabalho. As pessoas a olham, sempre sem qualquer expressão ou humor, e comentam: "olha, é a moça da cafeteria, o que ela faz aqui?". Claro, ela não pode estar ali, ela é o trabalho. Operários não vão ao mercado. Operários não tomam cerveja. Operários não dormem. Operários são seus trabalhos, são suas funções. Mas, interrompendo nossos delírios filosóficos, voltemos a crônica.

Ela desperta, as cinco da manhã. Tem família - como qualquer outra - talvez uma filha pequena que vai para o colégio, logo cedo, zumbizinha; talvez um marido que apressadamente luta pelo pão do dia seguinte, e não tem tempo nem para tomar o café da manhã do próprio dia. Tem família - como qualquer outra que não se anda tendo hoje em dia; e isso não é algo ruim, devido as circunstâncias do meu escrever.

O leitor pode estar se perguntando: oras, mas vais repetir a crônica?

E, ao acaso estou eu repetindo algo? Tomai conhecimento que, da minha parte, não repito nada. Estou descrevendo, minuciosamente, o amanhã da guria em questão. Mas, se não consideram necessário, me calo, me calo.