21 de agosto de 2019
Distâncias
cócegas no ego
risada fácil
uma canção pop de fundo
sorridentes garotas
homens altos e fortes
tabela de preços
tabela periódica
ricos por tabela
sorrisos brancos
rostos brancos
paredes brancas
tudo tão branco
no céu da democracia
em que estudo
...
são 19h30, conforme diz o motorista do ônibus;
brancos? Só os pensamentos.
e nada de risada fácil
ou canção pop
pop é próprio busão
16 de agosto de 2019
Gestação
nunca houve um começo
nunca houve um final
houvera sempre o "há"
um estado de coisa
sem coisa que apertasse o play
houvera o mínimo
antes que pudesse o nada
"haver"; que mínimo?
desconheço resposta,
não me interesso por ela.
mas houve, isso sim.
no conto da tela em branco
como metáfora de nada
havia a tela, havia o branco
e o comportamento
e o ambiente
o "não há", desconhecemos,
assim, descrevo deus:
relação entre variáveis
assim, descrevo o início de todas as coisas:
relação entre variáveis
assim, descrevo versos:
relação entre variáveis
assim, me descrevo:
relação entre variáveis
não fomos concebidos
fomos chutados fora
fomos cuspidos de um mundo ao outro
frutos
de seleção por consequências
(há algo mais belo que isso?)
sem propósito ou intenção
apenas fios e fios de funções
biológicas, culturais e ontogenéticas
14 de agosto de 2019
nem in nem censo
metáforas
encobertam
dias
poluídos
diluir
a dúvida
servir ao tempo
quão louco?
são
loucos
no meio?
a noção de algo
estruturado
caiu por sua função
o relacional
e seus verbais
13 de agosto de 2019
falo
ser pouco
e suficiente
palavras
mínimas
mesmo assim
fazer-se
entendido
6 de agosto de 2019
deixe
pegadas de barro
marcando o chão de cera
que a velha limpou
paciência
deixar imundo
e sujar mais
a chuva vem
lava
de alguma forma
não fica
barro
ali
28 de julho de 2019
O leitor de Kardec
Que a madrugada seja longa, não é novidade,
naquela impaciência de um fumante em abstinência
vão os olhos de um canto ao outro, em desespero,
procurando uma posição na cama em que o pensamento encoste
e deixe de incomodar.
A televisão da velha ainda está ligada, o vizinho
ainda fuma sua erva com tranquilidade. Os gatos, felizes.
O vento sopra frio, ainda que esteja tudo abafado.
A velha, ronca seu terceiro sono. A neta, ali com seu bruxismo.
O neto, após um episódio de uma série qualquer, dorme.
Meus amigos...alguns embriagados, outros dementes, um ainda,
internado no hospital decadente. O vejo amanhã, antes da morte.
Penso no rancho. Nos seus insetos horripilantes. Faz falta.
Nessa mesma condição, estaria desenhando com meus olhos
o rio calmo, sem humanos a lhe enfeitar. Sons de pássaros,
a mãe-da-lua, assustando a tudo e a todos com seu "fui, fui, fui".
Mas nunca vi curupira. Lobisomem e espírito, já.
E a insônia me batiza novamente.
As oito voltas na pista de caminhada do bairro, não esgotaram;
amanhã serão dez, e meus joelhos implorando por descanso.
Quase oitenta anos, se é que preciso falar de tempo. Tempo...
uma mera invenção humana para notabilizar a dor
que vai do Sol até a Lua e da Lua até o Sol.
Por fim, fumo um cigarro, relaxo,
e me deixo levar pelo onírico.
27 de julho de 2019
Forrar a hostias
Crer.
Verbo duro, sem forma.
Verbo divisor de mágoas.
Verbo descrente em sua figuração.
Crer.
É preciso?
Descrer?
Para que?
Ajoelhai-vos
no altar
a hóstia
da indiferença
servida a todos
que não se afundam
em crenças ou em descrenças
23 de julho de 2019
Notas do esquecido rascunho
E quando foi que versos outorgados em cartório
valeram mais que uma canção de fundo de quintal?
Quando foi que o bilhete premiado
se tornou mais relevante do que as notas distorcidas na garagem velha e inacabada?
Quando foi que a fumaça de meu incenso cedeu
aos tempos devastadores da modernidade?
Ou mesmo aos meus instintos?
As pequenas motivações rotineiras afogaram-se em troca de algo mais?
Quando? Eu não me lembro. Não me recordo
da primeira vez que o álcool me agradou. Não me recordo
quando ter outra sombra na luz foi tão forte.
Não lembro o dia em que comecei a sentir esse frio.
Esse receio do ônibus atrasar vinte minutos.
Esses atrasos, há um tempo que não lembro, eram sinônimo de quatro músicas a mais,
de prazer.
Quando foi que minhas anotações tomaram o poder e
minhas memórias foram despejadas no tribunal do papel?
Agenda? Amanhã? Planejamentos? Onde estive hoje?
E eis esse eu, relendo rascunho de um ano atrás,
e terminando hoje palavras marinadas
21 de julho de 2019
O velho
"Entre a madrugada e o risco de luz
dorme o pensamento desgastante,
os sonhos brotam e sorrisos nus
cintilam felicidade por um instante;
noite interminável rindo de desgraça
transita o homem em seu pesadelo.
O frio que nunca passa
até que alguém deixe de percebe-lo.
Ruídos atiçam o ouvido
ratos mastigam dores.
Ressurge o esquecido
no rufar dos tambores.
É sempre frio lá fora
o fogo é raridade na escuridão".
O velho silencia e se escora
na sua própria solidão.
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