28 de julho de 2019

O leitor de Kardec



Que a madrugada seja longa, não é novidade,
naquela impaciência de um fumante em abstinência
vão os olhos de um canto ao outro, em desespero,
procurando uma posição na cama em que o pensamento encoste
e deixe de incomodar.

A televisão da velha ainda está ligada, o vizinho
ainda fuma sua erva com tranquilidade. Os gatos, felizes.
O vento sopra frio, ainda que esteja tudo abafado.
A velha, ronca seu terceiro sono. A neta, ali com seu bruxismo.
O neto, após um episódio de uma série qualquer, dorme.
Meus amigos...alguns embriagados, outros dementes, um ainda,
internado no hospital decadente. O vejo amanhã, antes da morte.

Penso no rancho. Nos seus insetos horripilantes. Faz falta.
Nessa mesma condição, estaria desenhando com meus olhos
o rio calmo, sem humanos a lhe enfeitar. Sons de pássaros,
a mãe-da-lua, assustando a tudo e a todos com seu "fui, fui, fui".
Mas nunca vi curupira. Lobisomem e espírito, já.

E a insônia me batiza novamente.
As oito voltas na pista de caminhada do bairro, não esgotaram;
amanhã serão dez, e meus joelhos implorando por descanso.
Quase oitenta anos, se é que preciso falar de tempo. Tempo...
uma mera invenção humana para notabilizar a dor
que vai do Sol até a Lua e da Lua até o Sol.
 
Por fim, fumo um cigarro, relaxo,
e me deixo levar pelo onírico.

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