25 de setembro de 2015

Haicai, com frescura

A única cura
é privar-se
daquela frescura,

viver normal
toda informal
forma de loucura.


24 de setembro de 2015

Prosando silêncio

Silêncio que tanto me custa
calar-me para ser escutado
se de tal maneira assustado
dou-me conta, o som frustra.

E se quieto já tanto grito
sinal de que pouco me sinto
em verso de boca não minha.

Poesia só; comigo caminha
ruas e labirintos
estreitos e infinitos
como os ritos que vivemos.

Silêncio tanto custa, leve
mas pesado e breve,
nos segundos intermináveis
tomados duma só vez, talvez.

23 de setembro de 2015

Rabiscos

Enquanto nem prosa nem verso
meu silêncio diverso contenho
em rima prensada no universo
em rosa que no risco resenho.

Poesia inanimada,
pela caligrafia mimada
rabisca, rabisca e rabisca
mas fato é que só fica
rabiscando nada de nada.

Coisas que pouco se nota.
Verso que é bom
verso que é dom
sozinho sozinho se solta.

22 de setembro de 2015

Nota de rodapé...

No mínimo duzentas postagens para publicar e uma preguiça imensa! Esse um problema de quem escreve e publica em algum lugar: não dá conta de digitar tudo. Quando começa a digitar algo, logo pensa em outras coisas para escrever. Bah...
Ou não, vai ver é só comigo.

Do que me livro?

Livro aberto de capa escondida
é, dizem para não julgá-lo assim.
Livro que só a capa é lida,
livro que não (se) exige um fim.

Livro-me de um livro qualquer
que só distante há desejo de ler
que livro vivo me quer?
que livro morto quer viver?

Livro-me-esqueci de mencionar
que livro muito livro de tentar me ler, ou
de tentar ser lido pelo avesso que sou.

Livro de resumir toda a vida
Livro de toda forma e até sem forma
Livro que quanto mais calado mais informa
Livro que não nos deixa saída
Ler até o fim ou inventá-lo:
os dois são tão incisivos
que os livros não se resumem em serem livros
nem lidos
são seres, por vezes, mais humanos que os humanos.

E ao passar dos anos não envelhecem, tomam do poço a vida.

Do que me livro? Do livro não.

21 de setembro de 2015

O privilégio da falta de privilégio

A máquina parecia desafiar a concentração
o homem arrancava-lhe folhas e folhas
escritas que não agradavam, sabe-se lá por que,
colérico, nada mais escreveu
tamanha a raiva que sentia, homem desafiado
por uma máquina. Oras...

Com efeito, é justo que se proclame
muitos poetas morrem em si, levando
o desentendido poema para o perigeu da alma
onde perece por medo de ser dito
ou, por falta de vontade. Oras...

Teria em vida o poema a necessidade de satisfazer egos?
não se entende que a literatura não nos leva a fama
mas unicamente ao epicentro da dor? (a verdadeira literatura).
Sim, os poetas são todos masoquistas, com todas as letras.
Sofrem a angustia da rima, o fardo do código e do símbolo,
o trama da métrica, o peso da liberdade e da escravidão.
E nada querem em troca? Nada. Nem um só rublo,
nem um só centavo, nem um só copegue, mas talvez um conhaque?

E dos que escrevem almejando o luxo, privilégios,
em verdade, que escrevem? Aos berros
cospem palavras que os leitores amarão ler!
Em prol da fama. Esses, mercenários-eruditos,
corrompem-se.

Não que não se possa vender versos,
com razão se deve.
Mas não vender-se, escrevendo um outro alguém,

A isso o nome:
Tragédia.

20 de setembro de 2015

Di-versos desconexos

No seu
céu,
serei sempre réu?

E-N-T-R-E
linhas:
suas ou minhas?

Lua cheia
crescente de tédio
vejo só prédio.

Só um louco
conhece os perigos
da sanidade mental.

O silêncio
sempre sempre
diz mais.
 

19 de setembro de 2015

Oh, querer

Queria que nada fosse
e que tudo se danasse
que sempre fosse quase
e traço fosse crase.

Obra fraca, refrão de bolero,
que ninguém nota, que ninguém
se importa e nem.

Queria tudo simples
fosse tudo palavra
quando dissesse
pronto estava.

Até talvez, invisível.

Queria menos, crível.

18 de setembro de 2015

Dosagem

Por pura contradição
sou contra a adição
de açucar no meu café.

Gosto da vida amarga
do modo que ela é.

Que coisa irritante:
açucar ou adoçante?

Gosta da vida amarrrrga.

Por pura contradição
sou contra a adição
de açucar na verdade.

Vê se dosa direito
sem falsear a realidade.

A vida não do seu jeito
o desjejum do operário
é café que arde o peito
de olho no horário.

Por pura adição
sou pura contradição
se quem manda é a mente
escutarei o coração.
Sou um tanto negligente:
Só dou ouvido a emoção,
e olvido tudo.