17 de outubro de 2015

Diálogo II

A: O fim está próximo! O fim está próximo!
B: E a que isso me importa?
A: Arrependam-se dos pecados cometidos!

B: O pecado é invento
judeu
não vejo pecado em nada,
nem no pecado
meu.

14 de outubro de 2015

Significado de leitura

Você para e vê:
no livro o
escritor te lê.

Pense bem e leia!
Mais uma revista
de verdade meia.


13 de outubro de 2015

Favere, Mefistófeles! (uma ode a Goethe)

No meio do rebanho, alguém anseia pelo novilho
pela carne e pelo sangue derramado no cálice,
algo se move nas florestas de Mefistófeles,
algo dança, areia movediça, dança esperando
dança feliz nos Campos Elísios.

Todos estão felizes, e o lobo se assemelha a eles.
Ninguém sente a presença do terror, o caos virá,
o Caos, a luz que não se deixa sombrear, e brilha.
O intelecto revoltado, o sábio sanguinário, esse
que poucos parecem dar vida, sai da toca e ganha forma
quem será, quem será, quem será a presa
presa na pressa, e quem será a sobremesa?
No meio do rebanho, hienas não são bem vindas. Nunca serão.

E não são Dois. Ó, o que arma a cilada
e o que se submete ao poder, são apenas um,
não existe a multiplicidade. O Dois é Uno.

No meio do rebanho, o voraz se ergue e ruge,
a multidão não se dá conta plenamente, mas
alguns se dispersam, fogem para onde? Do que fogem?
O sangue...
Quem se importa? O Homem Terrestre é apenas
uma sobra, uma sombra, do homem celestial que há de vir,
e surgem no solo, homens de barros,
homens que a dor não é capaz de atingir, homens-deuses.
Zohar.

Simão. Fausto. Seria Dositheus filho de qual deus?
No meio do rebanho, não há mais rebanho, somente lobos
homens de sabedoria maligna, gênios: mephiz e tofel.
O sangue, a carne, tudo feito. Mas na boca
um gosto amargo de doce derrota, entre os lobos
um se revolta contra a revolta. Lobos se matam,
por fim, a guerra recomeça entre o novo rebanho, alcateia.

Mefistófeles se faz presente de novo, a guerra recomeça.
No meio do rebanho alguém anseia pela paz, mas paz só pela guerra. 

 

Mudanças e Danças


As coisas sempre
iguais
que me lembre.


Mentira: uma criação
inovadora e criativa
ninguém se priva.


Fim com chave de ouro:
eis que tudo muda
pra igual, eis meu agouro.

12 de outubro de 2015

Ecos Secos

Venham ver todos as palavras vazios e os ecos
surdos que estalam nas almas dos escritores
são sombras, são medos, são névoas, labirintos,
que passam despercebidos pela ótica dos mortais
e mesmo os deuses ignoram.

Venham ver todos e escutem a canção
que soa estúpida e melancólica na pele
ruído de limiar tão vago que imperceptível vai
encontrando poucos, desencontrados, que bailam
com corações desnudados e mãos frias e escravos.

Venham ver todos a brutalidade da rosa e do haicai
admiráveis obscuridades, o lado negro da Lua,
(a Lua toda é solidão, venha ver)
que nem os astrônomos tampouco os que lá estiveram
viram de fato.
Ecos e margens do poema passam despercebidos.

Venham ver todas as entrelinhas que orbitam
os feliz e os infelizes, as damas e os cavalheiros,
as almas sobrecarregadas, regadas de ecos
e palavras não mais vazias.

Venham ver todos ou se acomodem no sofá
para mais outro dia de ecos e palavras vazias
de ecos e palavras macias, de ecos e ecos ecos ecos ecos

11 de outubro de 2015

Verídico ou não, eis a razão

Para que acreditar
em velharias da vida
se somos estúpidos
embriagados de solidão
e egoístas demais para
viver e só.
Se quando o que se quer
é apenas ir a caça
e não devorar a presa, apenas
o prazer saciar.
Deixe-a para as hienas
que riem da própria natureza,
ou para os urubus.

Para que acreditar
na intuição, se sabemos
a resposta no racional.
Os outros são apenas
alteregos do teu mesmo eu.

Para que acreditar
e viver de certezas.
Livros de ficção são mais reais.

Acredite em tudo, che,
duvidar é como ser Atlas
um deus que apenas serve
para suportar o peso do universo
nos teus ombros.

10 de outubro de 2015

O nada, a carne e o verbo

Conceber o nada; maldição filosófica.
Que o verbo se faça carne, alicerce,
mas que a carne, não, nunca se faça verbo.

Conceber o nada; e das nádegas oceânicas
dessa inexistência parir o concreto e o abstrato
mas que a carne não se faça verbo.

Conceber o nada; estaria talvez usando
um termo ridículo e chulo que vaga
pelo pai dos burros como um verbete cego?

Conceber o nada; essa macroestrutura
cederá a um único termo ermo?
mas que a carne divinamente humana não
se faça verbo.

Conceber o nada; a lei, a moral, a ética,
todas elas falsas, nada passa de nada,
e a carne não tem nenhuma tradução.

Conceber o nada; eis a essência de tudo.
Dói a vértebra, as cores somem, numa pauta
filo-só-fica a dúvida e a carne,
adeus verbo.

Conceber o nada; o que a filosofia tediosa
insiste em devorar em debates acalorados
escrevo sem muita enrolação nessa prosa
tratando de deixar os verbos encarnados.

Conceber o nada.
Conceber a carne.
O verbo divino é o silêncio, rapaz,
o silêncio que a carne trás.

9 de outubro de 2015

Infortúnio dos poetas III


Nevoeiro que não se dispersa
lembre-se cara madrugada
de ódio não guardo nada
mas não queira conversa,
parece ser alma peçonha
mas quem diz ter veneno
demais, é só um pamonha.