26 de dezembro de 2015

Mais um canto

Canto
não sei
quanto,
se sou rima
coisa fina
ou
no entanto,

canto
e sei que
espanto
até a mosca
coisa tosca
que vem
voando,

canto
não sei
até quando,
mas sei
até que, enfim
eu
canse de mim.

25 de dezembro de 2015

24 de dezembro de 2015

Sapo

O sapo, se encanta com seu retrato
visto sob meia distância na lagoa.

O sapo, de ser alguém já estava farto,
e resolveu ser ele, assim, bem na boa.

O sapo, se admirava, beirando ao narcisismo
quando queria ser belo mesmo, era anarquismo.

O sapo, que leve coaxa
nada mais dos outros acha,
resolveu viver sua vida
sua tosca vida, vidinha de sapo
vida que no fim é esse trapo.

O sapo, esperto ele, desistiu
de tentar mudar o mundo inteiro
e resolveu ser apenas um sapo,
feliz, vagaroso, mas serelepe
quando as moscas aparecem.

Moscas que se importam
demais com a merda
alheia.

23 de dezembro de 2015

Gaita e versos

Feliz ficarei
se vier qualquer nota
mesmo que desastrada
mesmo que fora de rota,
e então serei rei
na gaita.

Pois essa nota, senhores,
me faz falta.

E fica variando
entre o sopro de melancolia
entre o sopro de felicidade
mas sei que, na verdade,
espero o quando
aquele quando difícil de vir
de nota indefinida,
que de alegria plena
se finda.

21 de dezembro de 2015

Abascanto I

Aquele canto preciso
que ninguém jamais soube
aquele canto
da parede ou do pássaro,
entre cortinas ou o céu
que no entanto
são a mesma arte.

Aquela obra prima
que quedou abandonada
de propósito
como quem não quer nada
e de repente
lá do depósito
surge como ideia
revolucionária.

Aquele canto
ninguém vai entender.
Aquele riso
travestido de pranto
não foi feito
para se ler,
foi feito para voar
foi feito para ser desfeito
antes que a vida lhe diga
que para ser ele não leva jeito.

Aquele canto de chuva
aquele canto silenciado
aquele espanto que turva
o ser mais apaixonado.

Ou o canto do encanto
ou o canto do desencanto,
que no final são um só,
em dó sustenido.

É, aquele canto,
vai ficar assim
um irônico diabo
ou
um feliz querubim.

20 de dezembro de 2015

Além da mesa

A vida, essa vida,
nos dá apenas
uma certeza.
E para quem a entende:

depois do almoço
não tem sobremesa,

talvez algum osso
para ser roído,
ou um poema
para ser lido
por alguém
sem paladar
sem muito verso
para doar.

19 de dezembro de 2015

Ex-excogitações

É nesse falso mundo que componho
nesse mundo de verdades absolutas
onde o poeta é o único Deus,
quer criticar, devorar pessoas, fingir
se importar com as flores alheias,
fingir e como ele, rir, lá do trono,
enquanto heróis desconhecidos morrem
pelas mãos dos vilões declarados.

É tudo falso. Nada que se possa dizer
é realmente verídico. Que se possa dizer.

No entanto, as palavras de exaltação
são as mesmas que enforcam o escritor,
e mesmo que nada seja real,
não deixa de ser uma bela ilusão,
e todo início no fundo é
uma ode para a morte, para o fim.

Sem palmas, sem o rico último ato
tudo termina quando o poema acaba,
tudo termina quando o poeta se cansa
de fingir.

E então,
a criação de despedaça como xícara ao chão,
os cacos são ignorados,
e, além do poema, nada mudou.

Faço meu café, forte, como o Sol dessa cidade,
e volto a ser eu mesmo, mero personagem
de poemas desconhecidos,
entregue, quem sabe, na mente delirante
de um escritor supremo,
o Acaso. E só ele.

18 de dezembro de 2015

Insular

Baby,
não me pergunte
o que penso,

Lady,
não se assuste

eu lhe disse
o meu vazio
é imenso.

No teu jeito, um lar,
mas não me retire
do meu extenso insular.