20 de abril de 2017

Antes de falar


Antes de falar, escreva
se atreva a não se atrever
se atreva a antecipar
aquilo que pode ocorrer.

Antes de falar, respire
se o outro estressado
estiver
não "se vira", se vire
para um canto de sossego.

Antes de falar, note
se o que tu disser
pode causar dor
ou até, causar morte.

Antes de falar, possibilite
a fazer diferente
tudo o que até agora existe,
faça novo, se preciso, de novo.

Antes de falar, respire
conte um, dois, três,
quem sabe assim
possa mudar o fim
mais outra vez.

Antes de falar
falar de antes
falar do depois
falar do agora
veja se o rancor
em ti, mora.

Do contrário,
se tudo em paz,
veja se necessário:
se sim, diga,
se não, jamais.

19 de abril de 2017

Um poema-ensaio quase psicológico


O sujeito não tem conceito
conceito ele é, é maneira
é volátil, in constante movimento
dentro? Não, é coisa
ou seria apenas substância?
Quem sabe o sujeito
seja apenas sujeito à redundância...

filosófica?
Ou só fica
filo-sofista?

O sujeito é
enquanto
talvez até
durante

pode ser que seja métrica
pode ser que.
Mas pode ser quando

nunca, se não quem?

O sujeito
é
o conceito

que quiser?

Ou apenas papel limitante
ou apenas um papel militante?

Ah! Quem se sujeita a estudar o sujeito?
esse, sem dúvida, sujeito a não ter jeito
sem dúvida, não vai além

(Dito isso, sujeito é o comportamento que tem).

16 de abril de 2017

psicoanálisis y el aburrimiento



Os olhos, vidrados no LED, na tela antirreflexo
na tela anti reflexão.
Os olhos, madrugados em versos universitários
em criações fantasiosas
de uma tal psicanálise, que descreve com precisão
a guerra dos espíritos
metafísicos e dualistas.

CONCEITOS.

Pesam minha mente
e ela nem existe.


15 de abril de 2017

O insensível e desprezível poema de um crítico de crítica, Ou, Nostalgia do que não ocorreu


Daí que quando tu escreve já não sabe pra quê
já nem sabe pra onde, muito menos pra quem
e desistindo, vai morrendo as palavras, e até o idioma,
e apaga verso ali, e apaga verso aqui, depois
já deprimido, quer fazer verso remido
copiar d'outro poeta, renovar a coisa velha
reler prosa antiga, dos anos dourados,
e pensando e pensando e pensando
que renovar a cópia não é pecado
muito menos plágio, se ninguém perceber.


Daí que quando as coisas estão bem, tu esquece
do poema, do problema, do dilema, do
soneto, do haicai, da terceira guerra mundial;
e não tem erro nisso não, poema bom vem de verso
deprimido, insensível, ou cansado,
ou quem sabe quando tu está parado
sobra tempo pra discutir sobre o cheiro do café
sobre assuntos filosóficos, sobre sentimento.

Daí que quando tu termina, todo contente com o feito,
olha bem, olha de novo, e então acha perfeito,
o transtorno vem depois, quando já relido, acha defeito,
e retira som dali, retira som do lado, e o verso depenado
fica todo condenado, sem sentido, sem contexto
mas tu divulga mesmo assim, e no fim:

vem sujeito requintado, ler conversa desfiada,
lê, relê, e não entende é nada
mas por vergonha ou por já estar condicionado
joga a crítica sobre a mesa:

- "que magnífico, que beleza"
e chama de pós-moderno
aquele lixo rascunhado no caderno.

13 de abril de 2017

Já é um clássico!



QUE PUTA SOM!



No link, uma música do álbum "Melhor do que Parece", da banda O Terno!
Só clicar no nome da música e ouvir esse som!

Segue a letra:

Me desculpe, meu amor
Mas não posso te perdoar
Meu coração é grande até demais
Mas o que você me fez, não se faz

Ai se eu pudesse voltar no passado
Como esquecer o que não me convêm?
Apaixonado, eu não sabia me zangar com você
Hoje não sei como amar outra vez

Me desculpe, meu amor
Mas não posso te perdoar
Meu coração é grande até demais
Mas o que você me fez, não se faz

Ai se eu pudesse voltar no passado
Como esquecer o que não me convêm?
Apaixonado, eu não sabia me zangar com você
Hoje não sei como amar outra vez

E olhando nos olhos, ela me pediu perdão
Eu quis lhe perdoar, mas meu orgulho disse não
E hoje, arrependido, caminho na solidão
E ela está por ai, de mãos dadas com outras mãos

Me desculpe, meu amor
Mas não posso te perdoar
Meu coração é grande até demais
Mas o que você me fez, não se faz

9 de abril de 2017

A revolta dos Dândis (III)


Poema de criação própria, baseado na música Guardas da Fronteira, de Humberto Gessinger e Maltz:


Não era para ser assim, ele pensava, enquanto sua televisão
choramingava afeto, em um canal qualquer para qualquer pessoa.
Nos últimos anos se perguntava de maneira insistente
qual seria a razão do mundo viver assim, sempre em guerra?
Suas filosofias, beirando ao irracionalismo, haviam se modificado
passara a questionar o que via, e então, deixou de ver boa parte.
O piloto automático havia tomado seu lugar, mas de uns tempos pra cá
o comando não lhe foi tirado.

Já não perdia tempo com jornais, tampouco com novelas
não tinha saco para aturar propagandas, vivia com o básico.
De tecnologia, somente o necessário para poder se ter identidade
no estupro midiático dos dias atuais. Um meio de se estudar,
de trabalhar as vezes, de ler e perder algum tempo com blogs.

Não era para ser assim, ele pensava, mas já não ousava
dizer qualquer sinônimo da palavra "liberdade".
Não havia isso. Pura hipocrisia de quem segue com olhos vendados
vendidos, fechados. Liberdade era irracionalidade. Era balela
(anti) filosófica. Ninguém faz algo por simplesmente querer fazer.
Não mais se via na obrigação de culpar ou de reconhecer mérito.

Simplesmente as coisas aconteciam porque aconteciam.
Qualquer formulação hipotética contrariava a observação dos fatos.
"É assim que o mundo que nos cerca, nos cerca muito bem", escutava
numa canção antiga.
Pois bem, ele pensava, não era para ser assim, mas a única forma
de deixar que assim fosse, era reconhecer que assim era.
E por quê? Pensava.

Navios de guerra se aproximavam um do outro, países em autodestruição.
É fácil apertar o botão de "tocar o foda-se" quando as consequências
não recaem sobre a própria pele, pensava.
São uns vermes, dizia.

O noticiário lhe era tedioso. Não era necessário vê-los para saber
que o mundo acordaria em pura desgraça, mais uma vez.
Foi então que atirou sua TV pela janela.

Após uma semana, reconheceu que até os Guardas da Fronteira,
os donos do mundo, como se diz por aí, eram cegos.
Sim, por quê caralhos agiam assim? Destruir, destruir, destruir, para lucrar.
Não fazia o menor sentido.

Os guardas da fronteira eram cegos, repetia.
Os guardas da fronteira somos nós mesmos.
Que me importa a política? que me importa
o me importar? que me importa a moral?
Que me importa a religião? As bombas que caem
em cidades fantasmas. As bombas que caem
em cidades cheias de gente, futuras cidades fantasmas?

O pior é que se importava, e se sentia impotente.
Sabia da inexistência de qualquer divindade, negava-a ao menos.
Mas sabia da existência de uma afirmação:
quando o homem tenta brincar de deus, coisa boa
não há de sair.

Mas que culpa tinham?
"eles não sabem o que fazem"
já dizia um judeu a tanto tempo atrás,
"eles não sabem o que fazem".

Talvez não saibam, talvez até saibam
só não sabem como parar.
E como diz a canção
"E é assim que eles fazem
e fazem muito bem".

Destruir, destruir, destruir.

Repetia.
Resolveu se desligar disso tudo por um tempo
ligou seu som, tocando Tom Zé,
e encarou o espelho, que parecia não refletir
a realidade.

Desde aquele dia - Humberto Gessinger

     
     Desde aquele dia é uma canção do álbum A revolta dos Dândis, da banda Engenheiros do Hawaíi, quem me conhece, sabe do meu fanatismo pelo conjunto. Desde então, Humberto Gessinger tem seguido carreira solo, com alguns projetos, como o Pouca Vogal, com Duca Leindecker.
Depois de 30 anos do álbum a Revolta dos Dândis, Humberto resolveu tocá-lo na integra e... do caralho!
Além de ótimo músico, tocando doze instrumentos, o cara é um puta compositor. E esse não é dos melhores álbuns, tem muitos melhores. Meu favorito sempre foi o que menos fez sucesso, de nome "GLM - Gessinger, Lickts & Maltz", de 1992, com a sensacionais músicas "Pampa no Walkman" e "No inverno fica tarde mais cedo".

Só gostaria de expor duas canções que ficaram perfeitas na regravação, ainda que faça falta o trio original.

São elas, Guardas da Fronteira e Desde aquele Dia!

Algumas frases dessas músicas são intrigantes.

"Acontece que eu não tenho escolha, por isso mesmo é que eu sou livre", logo em seguida, criticando a fenomenologia (felizmente), diz "não sou eu o mentiroso, foi Sartre quem escreveu o livro". O sarcasmo sempre é válido, até em música com cunho filosófico.

E Desde aquele dia deixo na íntegra:

"Desd'aquele dia
Nada me sacia
Minha vida tá vazia
Desd'aquele dia
Parece que foi ontem
Parece que chovia
Um rosto apareceu
(Uma heroína)
O rosto era o seu
(Seu rosto de menina)
Parece que foi ontem
Parece que chovia

Desd'aquele dia
Minhas noites são iguais
Se eu não vou à luta
Eu não tenho paz
Se eu não faço guerra
Eu não tenho mais paz
Não aguento mais
Um dia mais, um dia a menos
São fatais
Pra quem tem sonhos pequenos
Sonhos tão pequenos
Que nunca têm fim

Eu só queria saber
O que você foi fazer no meu caminho
Eu não consigo entender
Não consigo mais viver sozinho"



O show que ocorreu essas semanas atrás, é só clicar aqui

Talvez ninguém leia essa publicação, mas isso não é novidade. 



Nu vens





Nuvens, se aproximando da cidade
talvez até, quem sabe, uma tempestade.

Nuvens, fazendo cair sobre terra
todo medo que aqui se encerra.

Nuvens, prontas para desabar no barraco
no meu eu, nesse inútil palco.

Nuvens, e trovões, o céu todo cinza
meu sorriso esconde um ser ranzinza.

Nuvens, vens ver, o fim do universo
ou venha ver, apenas, o fim do verso.



5 de abril de 2017

Sarcasmos



Sarcasmos; sempre eles,
só os que partilham
dos preconceitos necessários
dos vícios de linguagem
dos cansaços rotineiros,

Entenderão, talvez, do que se trata.
Os outros, tomarão como desprezo
ou ainda, não reconhecerão o termo,
outros mais, se sentirão contentes
por achar que de piada se trata.

Nada disso. O sarcasmo
é o idioma dos que cansaram
de repetir incansavelmente o hino.
Que não batem no peito e despejam
ideias que ninguém quer escutar.

Sarcasmo.
O deus
do cotidiano.