Espremo a laranja
olho o relógio;
espremo a laranja
reflito:
o tempo me espreme
tomo o suco
o tempo
me toma
ávido;
22 de novembro de 2017
Diminuir-se II
Ostra
é bela
pela toxina
não pela
pérola;
Tartaruga
bela é
pela ruga
que leva
no pé
e por enrugar
o tempo
no passo seguinte
Diminuir-se
Tudo estava tão nublado
menos o céu
20 de novembro de 2017
Autêntico
Quanto do meu comportamento
¿é comportamento alheio?
¿tudo, quase tudo, meio?
variações inconstantes do de sempre
inebriadas repetições do mesmo
como ¿loop no rio de Heráclito?
aliás; liberdade é só termo fajuto
para aquilo que ninguém dá atenção
que são as causas e consequências da ação.
sobre meu comportar-se
comporta no meu ato
do ambiente a catarse.
tudo é determinado;
se chove, chovo,
se tem água, nado.
mas nada é fatalismo
isso é diferente, Che;
é teleológico; ilógico.
voltando; ¿quanto do meu eu
encerra no meu, o que é seu?
se há o bom, sou com ele
se há o mau, sou com ele
mas não sou como eles.
Lavar as mãos para o que acontece
não faz o que ocorre, deixar de ocorrer.
Apenas tampa a visão do que já cego é.
Aí vão dizer de liberdade, do caralho a quatro,
e vão te consumir, te desgastar, com a ignorância do não querer saber.
Se morro, meu comportamento vive
no ambiente em que vivi;
se vivo e em vida, morro constante
sou inútil, sou miséria, sou bigato,
e não mereço o solo em que piso.
Se somos nossos comportamentos
ao menos assim, respiramos em paz
copiando de maneira autêntica
o que aprendemos; o que lemos; o que até mesmo, comemos.
Amém.
Acto
se
tudo quanto possível
impossível for
cacto não poderia
ter mais bela
flor
Diminuir-se-possível
o mundo estava meio
olhei para o semáforo
estava amarelo;
o mundo estava; leio
um livro do Skinner
estava radiante;
o mundo; veio
aos meus olhos
¿sou mundo também?
o; velho
ao meu lado
sou eu amanhã
;
¿?
16 de novembro de 2017
Haicai meio pêssego
Antes o azedo, amargo;
estando doce
um passo para a podridão.
Ditando
Antes pensar na morte que ela em mim
Crônica I - "De toda forma, prossigamos"
Nem sei bem, caro leitor, se o que escrevo é o que ocorre; mas escrevo esse emaranhado de cotidiano de uma guria qualquer.
Ela desperta, as cinco da manhã. Tem família - como qualquer outra - talvez uma filha pequena que vai para o colégio, logo cedo, zumbizinha; talvez um marido que apressadamente luta pelo pão do dia seguinte, e não tem tempo nem para tomar o café da manhã do próprio dia. Tem família - como qualquer outra que não se anda tendo hoje em dia; e isso não é algo ruim, devido as circunstâncias do meu escrever.
De toda forma, prossigamos. As cinco, desperta: arruma a mesa, arruma a casa, arruma a roupa de todos, arruma o almoço, arruma as camas, arruma, arruma; são seis horas. Toma o ônibus; o ônus do povo; o bônus é estar cheio.
Chega no seu trabalho, ou por melhor dizer, o trabalho a ela chega. Uma pequena fila, antes mesmo das sete horas, a lhe ofuscar o pensamento. Zumbizinhos. Mas tampouco eles tem culpa de ali estarem; estiveram apressados pela madrugada-manhã, não possuem pais que lhes façam o café (sim, leitor, possuem mãos para fazê-los), apressam-se para sair de casa, e como a burguesia, além de pressa, tem money, não se preocupam em comer em suas residências: tomam o café da manhã nos quinze minutos antecedentes as aulas; afogam-se em salgados, pães e, principalmente, na amargura esplêndida do café. Sim, o Café. O motivo da fila; o motivo do despertar as cinco da guria que estamos comentando; o motivo dos atrasos em sala; o motivo de diálogos fervorosos entre adolescentes e suas besteiras filosóficas; o único item que se pode comprar - o copo, claro - com uma nota de dois reais, antes da manhã chegar.
Ela chega a sua servidão; apronta-se: põe vestimenta, põe sapato específico, põe toca de cabelo; põe seu corpo em hibernação; e ativa o sistema de trabalho.
Aí daqueles que não conhecem o sistema de trabalho. O magnífico sistema de trabalho acoplado ao corpo de todo ser humano que precise escravo ser. Ela o ativa. Seus sentidos somem; os robôs sentem inveja da mecânica dos seus movimentos; e ela se locomove, com os olhos entreabertos, como se nada estivesse acontecendo, como se ela não tivesse que passar as próximas dez horas em pé, servindo ignóbeis alunos e professores de faculdade - além de visitantes curiosos - servindo sua própria cova, se entorpecendo com o cheiro de cafeína e açúcar; além da canela (e o som das abelhas, por consequência), as vezes.
Tudo isso, meu caro leitor, minha cara leitora, minha outra face. Tudo isso, para chegar no início do mês seguinte e receber seus míseros mil reais; o suficiente para comprar 500 copos de café que o local em que trabalha vende.
Ela abre a loja, e as pessoas da fila dizem, como se estivessem em uma Assembleia, como se estivessem numa Doutrina Esquizofrênica, ou como chamam por aí, nas Igrejas. Dizem: "Aleluia".
E pensam vocês que ao ouvir essa exclamação a guria em questão se incomoda? Não. Ela diz "bom dia", ela recebe "bom dia". Ela está com o Sistema de Trabalho ativado. Não tem sensações. Ali não habita um ser humano nas próximas dez horas (ou mais, quem sabe).
Ela termina o expediente na loja, já sem pessoas na fila, e diz, como se estivesse em uma Assembleia, como se estivesse numa
Doutrina Esquizofrênica, ou como chamam por aí, nas Igrejas. Diz:
"Aleluia".
O engraçado é que com certa frequência ela não mais usa o Sistema de Trabalho. Ela é o trabalho. As pessoas a olham, sempre sem qualquer expressão ou humor, e comentam: "olha, é a moça da cafeteria, o que ela faz aqui?". Claro, ela não pode estar ali, ela é o trabalho. Operários não vão ao mercado. Operários não tomam cerveja. Operários não dormem. Operários são seus trabalhos, são suas funções. Mas, interrompendo nossos delírios filosóficos, voltemos a crônica.
Ela desperta, as cinco da manhã. Tem
família - como qualquer outra - talvez uma filha pequena que vai para o
colégio, logo cedo, zumbizinha; talvez um marido que apressadamente luta
pelo pão do dia seguinte, e não tem tempo nem para tomar o café da
manhã do próprio dia. Tem família - como qualquer outra que não se anda
tendo hoje em dia; e isso não é algo ruim, devido as circunstâncias do
meu escrever.
O leitor pode estar se perguntando: oras, mas vais repetir a crônica?
E, ao acaso estou eu repetindo algo? Tomai conhecimento que, da minha parte, não repito nada. Estou descrevendo, minuciosamente, o amanhã da guria em questão. Mas, se não consideram necessário, me calo, me calo.
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