18 de julho de 2015

Entre os dedos



O Sol, aos poucos, surge.
Os homens, aos muitos, tomam forma,
o horizonte trêmulo ruge,
sem sombra ou norma
a noite esvai e vai.

Evapora-se entre os dedos,
Hórus, liberta-nos os medos
da noite solitária.

A noite escorre
as estrelas brincam de esconde,
lá onde
o tempo escolhe
se para, ou corre.

16 de julho de 2015

Raiva

A lebre
triste por ver
o tigre
fugir
morrer.

O predador
sente a dor
angustiante.

mas atenção
minha mirada
mata-te
leão.

15 de julho de 2015

Redemoinho

Se tudo fosse
como se espera,
a espera seria longa
para ser
diferente.

O homem só vive
quando se surpreende,
sendo algo ruim
ou até mesmo de bom,
ai está a vida.

Vida:
coisa inesperada
de reviravoltas
e redemoinhos
zen.

13 de julho de 2015

12 de julho de 2015

Ponto de vista

Nem toda obra
é coisa rica
as vezes
foi feito da sobra,
daquilo que não fica.

Nem todo santo
viveu sorrindo,
as vezes
viveu em pranto
querendo ser
um homem comum.

Nem toda poesia
vicia.

Como as do mestre Leminski
ou os versos de Caetano,
a verdade é que
ano após outro ano,
as palavras diminuem, encolhem, e se tornam estúpidas.

11 de julho de 2015

Poetisa...

Mas nem se eu quisesse descreveria com exatidão o que acontece naquele olhar
naquela mirada lancinante de doer o peito de qualquer poeta
mas não por angústia, por fogo mesmo, por amor e por medo
daquela linguagem imprópria que Camões tagarelava nas suas versadas poesias
daqueles olhos em chamas que Hoffmann descreve Clara, daquele pavor do feminino...

Mas nem se eu quisesse entender aquele, só aquele sorriso sincero e singelo,
gaivota que cruza o céu, que repousa tranquila em terra (que não parece) firme,
aqueles lábios nem secos e nem molhados, mas perfeitos, sedutores
clamando por um beijo sem trégua, sem inibição,
nem se eu quisesse compreender, e por sinal, não quero, meu desejo é apenas sentir.

Mas, cá entre nós, silêncio que me escuta enfurecido pela monotonia das teclas,
cá entre nós, alguém saberia dizer tamanha beleza?
alguém capaz de decifrar os enigmas duma deusa, uma ninfa talvez?!?
Alguém capaz de perder tempo com entendimentos enquanto pode muito bem gozar da realidade
das rimas dessa obra-prima?
Quem, a beira do nirvana, se preocuparia com a estação ou com o mau tempo?

Mas nem se eu quisesse, as aspas e as entrelinhas não permitiriam.
Meu coração desnudado, título de um livro de Baudelaire, por sinal, só sabe que te quer
feliz.
Só sabe que te quer, e quer amar.


Na mente de quem escreve, os ângulos são perfeitos e o abismo, imperceptível.

9 de julho de 2015

Crase

Vida: coisa de sorte,
parece pacata
mas é como cobra
esperando o bote,
parece vazia
sempre a mesma noite
esperando
o mesmo dia.

Mas não é nada disso,
é quase crase
quase fideicomisso,
que numa frase
deixa tudo para alguém.

Vida, há quem ame
e há quem apenas
reclame.

8 de julho de 2015

Profano querer

queria nem
e queria querer,

só me entenderá
quem

procura ser zen
e ser cem mil
coisas ao mesmo segundo

quem desiste
de tudo
mas só do tudo
desse louco mundo.

quem insiste
em ser
superficial
sendo profundo.

quem nem
e quem é?

quem vem
que tome comigo
amargo café.