9 de setembro de 2017

Trampo


Entro num prédio comercial
pessoas trajando ultrajes
trajes caros e refinados
intocáveis, roupas passadas.

Um rapaz marcou horário
quer comprar um notebook
(como sempre, por ser rico
pede desconto no valor).

Antes de encontrá-lo, a guria
da recepção me pede o RG
olho com uma cara de "sério?"
ela espera pacientemente, digo.

Meu nome agora é Elton, segundo
consta na máquina dela.
Repito. Ela me encontra no cadastro
não sei como, mas meu nome está lá.

Pede endereço, pede para tirar uma foto
pediu até o número do meu celular
mas não era para um jantar, era
para digitar velozmente no seu PC.

Ela me autoriza, me dá um crachá,
passo numa central de acesso
que permite e confirma meus dados.
Sou um número ali, vários números.

Tomo o elevador, com indelicadeza
pés 43 adentram o segundo andar.
Pergunto na segunda recepção
se deixaram avisado sobre meu ser.

Negam. Sorriem. Ligam.
"O organismo está vindo, espere por favor".
Falsamente, batem papo e gargalham entre si.
Espero.

O sujeito chega, aperto de mãos.
Pergunta. Respondo. Pergunta. Enrolo.
Verifica. Enrolo. Compra. Vendo.
Pede endereço. Passo.
Some. Desapareço.

A vida toda dessa gente
é um enorme vazio,
daqueles que fazem o tédio
parecer maravilhoso.

Se em vinte minutos no local
meu sangue ferveu com tamanha monotonia
quem dirá ficar um dia no ninho
dos coveiros do tempo.

Essa poesia é quase um documentário minucioso?
É, talvez.
Porém, é antes, uma forma de passar a noite
sem me preocupar com o que escrevo.

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