21 de julho de 2015

Silêncio



Para cada silêncio

uma prece.

Para cada voz,

uma pressa,

uma presa

que perece,

e a vela acesa

se esquece

no início da oração.

20 de julho de 2015

Poema de carne e osso



Poema de carne e osso,
na margem, beirando a estrada,
curto e grosso,
não queria saber de nada.

Talvez foi escrito
ao meio-dia,
quase como grito
que a palavra ardia.

Não era nada bonito,
vivia meio
abscôndito,
do leitor, totalmente alheio.

Mas sem dúvida, entendo-o,
o coitado era bastante lido,
mas o autor, desconhecido.

Tantos e tantos cidadãos,
e ele se perguntava
onde estavam as mãos
que até pouco ele estava?

Se perguntava sempre
qual seria o propósito
se o próprio viver era insólito?

Indagava, mas tinha certeza
que a vida dos versos era curta,
a folha gloriosa da primavera
tem seu verão, mas o que a espera
é o fim rigoroso do outono e inverno.

19 de julho de 2015

Poeta de gaveta



Poeta de gaveta
é cheio de coisa e pontos:
os versos nem estão escritos
mas nos dedos estão prontos,
cria prosa, rosa e moda,
mundo que ao redor molda,
poeta de gaveta tem pouco chão,
vive com amor e muito carinho,
ama, não quer estar sozinho
nos delírios da própria imaginação.

Poeta de gaveta não pensa,
puramente o puro condensa,
mesmo que densa a noite.
É mais poeta vivo que escrito,
dizem que o silêncio é seu grito
mas calar só se faz preciso com outro olhar.

Visto que poeta de gaveta não tem fama,
escreve o anonimato para quem ama
e o leva para outros universos.

Poeta de gaveta tem dia e rima ruim
mas sua perspectiva não é assim,
tão, tão, tão baixa.
É astucioso, pensa alto
e num louco salto
tudo se encaixa.

Poeta de gaveta
no fundo quer ser poente,
na noite se deita
livre da própria mente,
que livre de si mesmo escreve,
longe de cacto,
e pensa em ser sempre de gaveta.

18 de julho de 2015

Entre os dedos



O Sol, aos poucos, surge.
Os homens, aos muitos, tomam forma,
o horizonte trêmulo ruge,
sem sombra ou norma
a noite esvai e vai.

Evapora-se entre os dedos,
Hórus, liberta-nos os medos
da noite solitária.

A noite escorre
as estrelas brincam de esconde,
lá onde
o tempo escolhe
se para, ou corre.

16 de julho de 2015

Raiva

A lebre
triste por ver
o tigre
fugir
morrer.

O predador
sente a dor
angustiante.

mas atenção
minha mirada
mata-te
leão.

15 de julho de 2015

Redemoinho

Se tudo fosse
como se espera,
a espera seria longa
para ser
diferente.

O homem só vive
quando se surpreende,
sendo algo ruim
ou até mesmo de bom,
ai está a vida.

Vida:
coisa inesperada
de reviravoltas
e redemoinhos
zen.

13 de julho de 2015

12 de julho de 2015

Ponto de vista

Nem toda obra
é coisa rica
as vezes
foi feito da sobra,
daquilo que não fica.

Nem todo santo
viveu sorrindo,
as vezes
viveu em pranto
querendo ser
um homem comum.

Nem toda poesia
vicia.

Como as do mestre Leminski
ou os versos de Caetano,
a verdade é que
ano após outro ano,
as palavras diminuem, encolhem, e se tornam estúpidas.

11 de julho de 2015

Poetisa...

Mas nem se eu quisesse descreveria com exatidão o que acontece naquele olhar
naquela mirada lancinante de doer o peito de qualquer poeta
mas não por angústia, por fogo mesmo, por amor e por medo
daquela linguagem imprópria que Camões tagarelava nas suas versadas poesias
daqueles olhos em chamas que Hoffmann descreve Clara, daquele pavor do feminino...

Mas nem se eu quisesse entender aquele, só aquele sorriso sincero e singelo,
gaivota que cruza o céu, que repousa tranquila em terra (que não parece) firme,
aqueles lábios nem secos e nem molhados, mas perfeitos, sedutores
clamando por um beijo sem trégua, sem inibição,
nem se eu quisesse compreender, e por sinal, não quero, meu desejo é apenas sentir.

Mas, cá entre nós, silêncio que me escuta enfurecido pela monotonia das teclas,
cá entre nós, alguém saberia dizer tamanha beleza?
alguém capaz de decifrar os enigmas duma deusa, uma ninfa talvez?!?
Alguém capaz de perder tempo com entendimentos enquanto pode muito bem gozar da realidade
das rimas dessa obra-prima?
Quem, a beira do nirvana, se preocuparia com a estação ou com o mau tempo?

Mas nem se eu quisesse, as aspas e as entrelinhas não permitiriam.
Meu coração desnudado, título de um livro de Baudelaire, por sinal, só sabe que te quer
feliz.
Só sabe que te quer, e quer amar.


Na mente de quem escreve, os ângulos são perfeitos e o abismo, imperceptível.