8 de dezembro de 2015

Vênus, calor e ironia

Calor, pra cima
dos quarenta.

Não há diabo
que aguenta.

Muito menos
santo.

Calor que Vênus
quer
tanto.

E qualquer miserável
com aquela quereria,
deusa de toda amável
e longe de ser virgem Maria.

Prazeres mundanos
que até os deuses invejam.
E Vênus, ah, Vênus.

Pensamento insano:
aos braços de Marte
trair Vulcano.

7 de dezembro de 2015

Sob o mesmo chão

Chuva, tempestade
toda mentira
quer ser verdade.

O sujeito inventa
com medo de ser
coisa que ausenta.

Então, a matéria
acaba por ser livre.
Mentira é coisa séria,

tudo é falso
por isso silencio
o final
desse haicai
que faço,

(pra ninguém falar
que foi eu quem disse:
no fundo a verdade
também é crendice).

 

6 de dezembro de 2015

Pintura sem tela

Sejam bem vindos
a mais um dia
parecido com o anterior.

As almas seguem aprofundadas
na superfície.
Os sorrisos continuam amarelados,
e o cansaço é sempre o mesmo.

O ônibus, no mesmo horário,
os passageiros, alguns irritados com a demora
outros atrasados correm contra o tempo.

Os carros, esses estão mais velozes
e potentes, mas são cada vez maior seus números
e portanto não podem acelerar.
Congestionamento. Tédio. Drama.
As vezes assassinatos. Xingamentos no mínimo.

Sejam bem vindos
ao novo dia de novo,
um pouco mais do mesmo
visto pela mesma ótica, sob outro plano de fundo.

E atenção, ignore, apenas ignore,
a loucura é uma variante da normalidade
ou a normalidade variante da loucura,
apenas ignore e não estranhe se eles se sentirem
poderosos. Os fantoches raramente descobrem
que são apenas fantoches, no mais
evitam a verdade. Ela é cruel
e somente quem gosta de sofrer quer realmente
evitar as normas, dogmas e contratos sociais.

No mais, seja bem vindo.

5 de dezembro de 2015

Zero fisiológico - Huxley



Meu bem, me dê mais um pouco de Soma, uma dose
Dessa aspirina que os poetas jamais inventariam.
Meu bem, será possível estarmos mesmo sobre hipnose
Algum tempo me pergunto como os selvagens seriam.

Meu bem, ponto zero de percepção desse termo que nos cerca
E, no entanto, para cada amor um sofrimento maior ainda.
Meu bem, será que essa frieza realmente nos seca
Quando os selvagens choram dor aguda que não finda.

Meu bem, tudo tão estranho, eu Alfa, você Beta,
E os outros não nos deixam ser quem realmente somos.
Tem vezes que o mundo dos selvagens acerta
Em dizer que nosso mundo é cruel e que nunca passaremos
De cópias idênticas. DNA, RNA, Síntese e Cromossomos.

Meu bem, que nunca minha, qual o mundo real:
Aquele em que os versos são falsificados em busca da estética
Perfeita, ou, aquele em que não importa a rima
Tampouco as palavras simplórias, mas sim a essência,
Que para nós já nada diz?

Oh, o que foi que fiz?
Duvidei! E a dúvida para nós, alfas, será sempre uma vergonha.
E vergonha é erro.

Meu bem, mais uma dose de soma
E o delírio fugirá de nossos corpos.

4 de dezembro de 2015

Poesia entre a Torre e o Nada

I - Foi então que notei
a torre era a mais alta da cidade.

Mas logo errei,
como todos só olhei a metade.

Preocupada em ser a mais alta
ela deixou o principal em falta.

Olhavam para o alto e ela ali estava
ninguém se deu conta de que algo faltava.

Apesar de sua grandeza notável
a torre pareceu-me instável.

Resolvi observar o chão ao seu redor
e constatei que cada vez que ela crescia

o aspecto ao seu lado era pior
e qualquer vida ali logo logo morreria.

Nesse desejo por grandeza
deixou para a morte, de bandeja,

já vista a maior profundeza.
E outros sentiam inveja.

Faltava o alicerce.
E apesar de mais alta, mais vistosa, mais detalhada
sem o alicerce ela se tornou como sempre: nada

além de pó. A diferença é que sua queda
foi, sem dúvida alguma, a maior merda

e respingou pra todo lado.



II - E perto dela
algo
era, as vezes,
admirado pela janela
de um sábio.

Considerado louco
quando viram o mesmo
que ele,
a glória foi pouco:

viram nada
e olhavam todos a esmo.

Felizes como nunca
admiravam aquela
espelunca,
pela bela janela
todos eram felizes:
um ponto da cidade
o nada existia:
vida cheia demais
é vida vazia.

3 de dezembro de 2015

Eu vou sair da área de alcance!

Faz alguns dias uma ideia me corre solta nessa coisa estranha que chamamos mente: fugir, por pouco tempo que seja, da área de alcance de todos, me isolar por um tempo, me tornar um Zaratustra, ou seu décimo quarto discípulo ("o que desafia e fustiga o seu Deus"). Um pingo de misantropia tem sido posta no meu caneco, bem aos poucos, lentamente, dia após dia. Sentimento contraditório à prática: em sério o que tenho feito é me aproximar cada dia mais da demência do mundo. Compartilho, como qualquer ser humano uma loucura não assumida, e também uma loucura assumida, que chamamos normalidade.
Como a filosofia as vezes me entedia, devido ao seu extremo moralismo, procuro, como muitos, na música algo que queria dizer mas não disse, talvez por não saber usar as palavras tão bem, talvez por saber as palavras tão bem que possuo medo delas. Talvez tantas mais. 1Berto Gessinger possui o poder de tranquilizar uma alma fortemente desencontrada. Essa música se chama "Pra ficar legal", e para cada momento uma canção. Do álbum "Surfando Karmas e DNA".
Adendo: é incrível, quando chega em dezembro eu enfio o pé na jaca de olhos bem esbugalhados e propositalmente. As festividades natalinas e de ano novo são para mim o ponto mais triste do ano. O mais chato, o mais falso, o mais banal, o mais sem sentido possível e impossível. Se der, isolar-me-ei em algum lugar que se possa acampar, na barraca, para pensar sozinho um pouco e, particularmente, estou "louco pra ficar legal longe da euforia industrial", como diz no trecho da canção. Quero "respirar com paciência", "louco pra ficar em paz"...
Quem ainda não se ligou (e me pergunto como) que do dia 25 de dezembro ao dia 2 de janeiro são os dias que mais transpiram falsidade? Sorrisos irônicos e diabólicos travestidos de santidade. 
agora não
ainda é cedo pra esquecer
eu vou sair do ar um tempo
na contramão do que está por acontecer
vou respirar com paciência

sei que lá fora brilham luzes artificiais
lá fora o fogo das caldeiras pede mais e mais
querem sempre mais

louco pra ficar legal
longe da euforia industrial
louco pra ficar legal
longe da histeria carnaval

agora não
é  muito tarde pra entender
eu tô fechado pra balanço
na contramão de tudo que dizem que aconteceu
eu vou sair da área de alcance

sei que lá fora a banda toca em outro tom
lá fora ainda rimam soluções
lá fora violência vende mais

louco pra ficar legal
longe de um romance policial
louco pra ficar legal
longe Porto Alegre-Rio-Nepal

louco pra ficar legal
longe de um pecado capital
louco pra ficar em paz 
longe demais das capitais

2 de dezembro de 2015

Caminhada II

É no ato de correr, na prática do caminhar
que as ideias surgem livres e deliberadamente rarefeitas
sob a forma da respiração ofegante.

A alma tem liberdade, o espírito traduz no movimento
a sua rotineira prisão verbal, e os olhos
traçam no asfalto prosas e versos que, ao anotar,
não são mais os mesmos.

E poesia é isso
aquilo que era para ser escrito
acaba por ficar omisso
e o que não era
os outros acham bonito,

não como Leminski.
O que escrevo não vira sucesso,
raramente vira verso,
se vira, se vira para ser o inverso.

1 de dezembro de 2015

Sala de Espera...


Caminhada I

Assim, eu e o silêncio
caminhamos juntos por duas horas
todos os dias.

Eu vou correndo
ele me seguindo
vamos nós dois, indo
para onde as palavras não chegam,
na verdade, até chegam,
mas passam sem valor
sem sentido algum, e somos nós dois.

Eu e o silêncio,
quase uma dezena de quilometro pela frente,
até sermos, no meio do caminho, três,
eu, o silêncio e o suor.

Depois, são algumas horas mais de uma noite
feita para ser escrita, não sentida,
feita para os morcegos fanáticos pela obra
de não pregar os olhos no travesseiro,
feita para, novamente em silêncio,
não precisar dizer nada, pois calando me entendo
melhor. E calando me entendem melhor também.

Assim, na gaveta, na primeira gaveta para ser exato,
algumas palavras dormem em folhas tortas
por natureza. Elas dormem, eu e o silêncio não.