8 de outubro de 2015

Galeão. O destemido remido (2)

A cena se passa na praça, cria asa na mente de Galeão e parte rumo ao sumo da solidão:

Tanto e tudo observo
servo que sou
da minha liberdade,
a roupa que visto disse para alguém
que sou, que sou ninguém.

O ônibus parecia me esperar
as grandes questões do mundo não,
tampouco a poesia tinha paciência.

O ônibus realmente espera:
mas vou ficar no banco da praça
não quero dançar essa valsa
não se preocupem, criarei raízes
não asas que voam infelizes.

Amanhã, quando tanto e tudo que observo
diminuir, minguar, sumirei
e assumirei ser rei
da minha servidão:
e então,
que magnífico:
serei livre na solidão,
serei eu e tanto quanto
só.

Para teu'spanto,
pedirei prisão perpétua
na alma que é tua
que atua perplexa
de nada compreender dos grandes momentos da vida:
o ônibus passou.



7 de outubro de 2015

Construtivismo entre as aspas da poesia

Ergue-se com tijolo o muro
e tudo se torna concreto,
o poeta crê ser obscuro
e toma um caminho incerto:

destrói todo o tijolo
com seu poderoso martelo
diz ser ouro de tolo
coisa que fere o real elo;
poetas trabalhando na construção
essa obra (-prima seria?)
há de virar poesia
não há de sair do chão.

Poetas fazem muito do pouco
não querem, se rejeitam,
se recusam a fazerem a parte,
aceitam felizes a arte
dessa prosa, dessa água de coco,
desse empreendimento, novo negócio:
fazer do construtivismo, ócio.

6 de outubro de 2015

Ciclo das madrugadas

Para ser poeta
é necessário escrever
a coisa errada
na hora certa,
é necessário pensar muito
e não pensar em nada
ser acordado pelo intuito
de escrever na
madrugada.

Por fim,
escreve
nada.

5 de outubro de 2015

Infortúnio dos poetas II

Para cada luz, várias sombras
nevoeiro que ainda não se dispersa
poesia de mil páginas que tergiversa,
a cada tragada poética, muitas lombras,
salobras, salmos de sobras, obras
sal de cobras, rimas até que sobras
tu, na página ou na margem,
no que fica de canto, subliminar no nevoeiro
eis que novos silêncios falam o inteiro
ou, como de costume
apenas finge bem acender o lume.

Infortúnio. Verso funesto
e versando devoro o resto,
assim, assassino e
assino o manifesto,
com outro verso modesto.

Infortúnio dos poetas, para escrever
para tomar café, para amar, para
sentir e rir, vida, para algo mais
presto?




Nada falta, tudo tenho.

Ver além
nesse alguém
que é só prosa.

Do que seria
meu poema
sem o espinho
da rosa?

4 de outubro de 2015

Mais um poema usando o louco

Ao céu aberto, no banco da praça
um louco olha a noite e os pássaros
vê sorridente a nuvem que passa
tentando desentender a euforia
da avenida ao lado.
Analisa e deduz, com ironia,
que tudo anda apressado
sem notar, por muito tempo ficou assim,
não exigindo do seu pensamento um fim.

Se contenta para não rir do mundo
homens passam a cem em um carro
um segundo-século, segundo
o louco. Esquece. Tira sarro.
De toda essa humanidade
que entende por demais o complexo,
desconhecendo(-se) a simplicidade.

O louco deixa o questionamento
se deixando levar de novo pela brisa
pela brisa lisa doutro pensamento.

3 de outubro de 2015

O estranho não se estranha.

a um amigo, mais estranho que o cu da gia:

A estranheza com que te notam
e já teus olhos tão cansados
até mesmo, indiferentes, duros e vazios,
que atravessam as paredes e os corpos,
como se fossem inanimados. Talvez sejam.

Essa estranheza violenta e mortífera
casca-grossa, mas que em nada te infere valor,
fere mais a mim e aos sentimentos
que nunca foram, tampouco serão, teus.

E esse tsunami, e esse terremoto,
passam sempre despercebidos nas tuas lentes?
teus olhos são de vidro, afinal.

A estranheza parece pandêmica
e continuas andando como se nada
importasse ou não fosse visível.
Mas estás correto; para que se preocupar
com um Mundo tão cheio de escravos?

A estranheza dos outros,
deixá-los sentir aos calos, que diferença fará?
Nenhuma. Não se muda seres
que vivem alienados de si, de ego,
que inventam mundo onde todos
são iguais.

A estranheza com que não te notam
como se transpassasse, furassem os músculos e as carnes
dos sujeitos que cruzam o caminho.

Tu, que não se incomoda com o incômodo deles.
Que não se vangloria do saber e do não-saber,
que não encontra na aparência a aurora da vida,
que não luta por um mundo melhor, nem pior.
Tu, que parece agir na anomia, mas que
é o oposto. Mais estranho que o cu da gia,
que os deuses e que os semideuses. Mais estranho
que a estranheza e que o governo russo.
 

2 de outubro de 2015

Galeão. O destemido remido (1)


Passo despercebido
por toda multidão,
sou pouco conhecido
não chamo a atenção,

quem olha não se interessa
não tem tempo para notar,
os outros se banham na pressa
não sabem contemplar.

Já algumas mulheres
sentem-se atraídas:
peça-me o que quiseres
não me deixe saídas,

apenas não queira
compromissos e comunhão,
não será a vida inteira:
prazer. Sou Galeão.

Perambulo pelas camas
pelos livros e tragédias,
não insistas que te amas
não sou de fazer médias,

vivo em absoluto
na solidão da viola,
a vida é pois o luto
e só ela me consola,

sou só e sozinho
não quero união,
sou somente Galeão,
nem flor nem espinho.

Não busco dinheiro
não busco enigma,
o meu paradigma
é viver por inteiro.

A partir de hoje o Blog passará a ter um personagem fixo. Seu nome: Galeão. Algumas crônicas virão, poesias também. Provavelmente curtas histórias em capítulos serão publicadas. Mais detalhes sobre o personagem serão descritos posteriormente. Um pormenor deixo: Galeão em parte é sujeito real, sua outra parte é por demais inventada. Aliás, todas as pessoas verídicas são inventadas.
No momento, apenas uma poesia sobre o protagonista, sobre essa nova celebridade irrelevante. Observação: estará em primeira pessoa, por ser Galeão o narrador.

1 de outubro de 2015

Alguns haicais:

De Alice Ruiz (1946 -    )
sem saudade de você
sem saudade de mim
o passado passou enfim

De Carlos Vogt (1943 -    )
ANFITRIÃ
Não se decepcione:
a vida o convidará
para outros fracassos.

Obs.: Carlos Vogt daria um bom psicólogo!