4 de outubro de 2015

Mais um poema usando o louco

Ao céu aberto, no banco da praça
um louco olha a noite e os pássaros
vê sorridente a nuvem que passa
tentando desentender a euforia
da avenida ao lado.
Analisa e deduz, com ironia,
que tudo anda apressado
sem notar, por muito tempo ficou assim,
não exigindo do seu pensamento um fim.

Se contenta para não rir do mundo
homens passam a cem em um carro
um segundo-século, segundo
o louco. Esquece. Tira sarro.
De toda essa humanidade
que entende por demais o complexo,
desconhecendo(-se) a simplicidade.

O louco deixa o questionamento
se deixando levar de novo pela brisa
pela brisa lisa doutro pensamento.

3 de outubro de 2015

O estranho não se estranha.

a um amigo, mais estranho que o cu da gia:

A estranheza com que te notam
e já teus olhos tão cansados
até mesmo, indiferentes, duros e vazios,
que atravessam as paredes e os corpos,
como se fossem inanimados. Talvez sejam.

Essa estranheza violenta e mortífera
casca-grossa, mas que em nada te infere valor,
fere mais a mim e aos sentimentos
que nunca foram, tampouco serão, teus.

E esse tsunami, e esse terremoto,
passam sempre despercebidos nas tuas lentes?
teus olhos são de vidro, afinal.

A estranheza parece pandêmica
e continuas andando como se nada
importasse ou não fosse visível.
Mas estás correto; para que se preocupar
com um Mundo tão cheio de escravos?

A estranheza dos outros,
deixá-los sentir aos calos, que diferença fará?
Nenhuma. Não se muda seres
que vivem alienados de si, de ego,
que inventam mundo onde todos
são iguais.

A estranheza com que não te notam
como se transpassasse, furassem os músculos e as carnes
dos sujeitos que cruzam o caminho.

Tu, que não se incomoda com o incômodo deles.
Que não se vangloria do saber e do não-saber,
que não encontra na aparência a aurora da vida,
que não luta por um mundo melhor, nem pior.
Tu, que parece agir na anomia, mas que
é o oposto. Mais estranho que o cu da gia,
que os deuses e que os semideuses. Mais estranho
que a estranheza e que o governo russo.
 

2 de outubro de 2015

Galeão. O destemido remido (1)


Passo despercebido
por toda multidão,
sou pouco conhecido
não chamo a atenção,

quem olha não se interessa
não tem tempo para notar,
os outros se banham na pressa
não sabem contemplar.

Já algumas mulheres
sentem-se atraídas:
peça-me o que quiseres
não me deixe saídas,

apenas não queira
compromissos e comunhão,
não será a vida inteira:
prazer. Sou Galeão.

Perambulo pelas camas
pelos livros e tragédias,
não insistas que te amas
não sou de fazer médias,

vivo em absoluto
na solidão da viola,
a vida é pois o luto
e só ela me consola,

sou só e sozinho
não quero união,
sou somente Galeão,
nem flor nem espinho.

Não busco dinheiro
não busco enigma,
o meu paradigma
é viver por inteiro.

A partir de hoje o Blog passará a ter um personagem fixo. Seu nome: Galeão. Algumas crônicas virão, poesias também. Provavelmente curtas histórias em capítulos serão publicadas. Mais detalhes sobre o personagem serão descritos posteriormente. Um pormenor deixo: Galeão em parte é sujeito real, sua outra parte é por demais inventada. Aliás, todas as pessoas verídicas são inventadas.
No momento, apenas uma poesia sobre o protagonista, sobre essa nova celebridade irrelevante. Observação: estará em primeira pessoa, por ser Galeão o narrador.

1 de outubro de 2015

Alguns haicais:

De Alice Ruiz (1946 -    )
sem saudade de você
sem saudade de mim
o passado passou enfim

De Carlos Vogt (1943 -    )
ANFITRIÃ
Não se decepcione:
a vida o convidará
para outros fracassos.

Obs.: Carlos Vogt daria um bom psicólogo!

30 de setembro de 2015

Não inventem beleza onde existe apenas dor, ou, tributo ao bashô catarinense.

E quando o escritor morrer
será consagrado, nome por todos
os periódicos e sanguinários televisores,
dirão da saudade e dos amores
que viveu, das paixões escritas,
por fim ele sairá nas revistas:
"O poeta deixou uma obra-prima
inédita, nunca, nunca lida".

E lembrarei a todos os que chorarem:
"O poeta viveu sua breve vida
e riam todos da sua rima".

E quando o escritor morrer
a solidão e a dor que sentiu
serão motivos para os críticos
elogiarem o que antes não se viu:
"seus contos são mais que míticos,
a morte trouxe um novo ícone".
Mas falarei a todos que concordarem:
"o escritor tinha raiva, era ciclone,
fazia tempestade em suas prosas,
agora vocês procuram rosas
n'onde somente há medos e espinhos,
vão, vão! sigam seus falsos caminhos,
o poeta quer apenar morrer em paz
coisa que em vida não conseguiu
jamais.

29 de setembro de 2015

Quando o poema é a isca.

O peixe morde a isca
o sapo ignora e coaxa
o leitor nem pisca.
Do poema o que acha?

O peixe já está morto
o sapo ainda coaxando,
o leitor já olho torto.
Do que o poema está falando? 

O peixe então assado
o sapo foi embora
o leitor já bem cansado.
Do que diz agora?

O peixe no banquete
o sapo feliz voltou
o leitor que me rejeite.
Do que falando estou?

O peixe no prato
o sapo ignora e coaxa
o leitor cansou, de fato.
O poema não encaixa.

O peixe então no garfo
o sapo fazendo o mesmo
do leitor não me safo.
Nem do poema a esmo.

O peixe, ai, na boca
o sapo está atento
o leitor, de poesia troca,
do poema e do seu fim
e sentido me ausento:
eis que deixo tudo assim

o sapo o leitor, ao vento.

28 de setembro de 2015

A-deus, ou, O céu que não comungo.

Já não conheço a ideia de deus
tampouco me deixo importar com isso
se existe, é contudo deus omisso
se não, os problemas não são meus.

Já não me deixo levar pela fé ou crença,
tampouco discuto com testemunhas cegas
que se dizem curadas de irreal doença.

Já não, esqueçam-me, vou para Vegas,
conhecer os deuses dos jogos de azar
quem sabe até para eles orar. (?)

Já não aceito a ideia de pecado,
no final os pecadores se tornam santos,
não, não conheço o certo e o errado,
vejo padres pedófilos por todos os cantos.

Já não vale nada o jogo católico
de criar livros sacros e paraíso
desprezo com irônico sorriso
todo e qualquer ideal apostólico.

Já não existe o mito no meu pensamento
pastores são atores querendo dinheiro
enganam a si e ao mundo inteiro
com um termo -deus- que não passa de vento.
(Acredite, eles se enganam e fingem se importar com a religião quando na verdade querem lucro, como qualquer empresa).

Já não, não e não me interessa
a prece que perece na pressa
o deus sádico do religioso
tosco, demoníaco e impiedoso.

Já não (me) escondo meu ateísmo
seria hostil da minha parte o cinismo,
não, de fato no seu deus não creio,
afirmo sem medo, sem rodeio.

Já não me privo do prazer
nem do bem que isso me trás,
agora faço por fazer
aquilo que me dá vida e paz.

Já não existe nenhum deus
e se existir, não me importo,
mas continue nos dogmas seus
faça o bem, leve a paz, seja devoto.

Doe, pague o dízimo,
 para a igreja,
que ridículo, veja,
isso é o mínimo.
E deus ficará feliz
com seus dez por cento
em baixo do teu nariz
o pároco ri, alegre
com o faturamento.

Não tenho nada com isso
acredite no que bem entender
ou no que não bem entende.

27 de setembro de 2015

Sumiu o título, ou, elogios sarcásticos sobre nossos carnavais e fantasias.

Poesia:

Mais-valia
eu ficar em casa
criando poesia
sem ser explorado,
olho para o lado
o sonho cria asa
vai embora.

Mais-valia
e quanto "plus"
me pregavam
lá na cruz,
me venderam
mas
não me leram.

A mais-valia
do meu poema
é o problema,
minha utopia.
Não pago para ver
nem pavê nem crer;
sou cético
porte físico
nada atlético
nem rico:
não dou um real
menos ainda cinco
para ver o festival
do pão e circo.

Mais-valia
e continua valendo:
4 reais o dólar
(e o doleiro soltando o verbo)
vai vendo!

Haicais:


Na pia
não tem água:
progresso é utopia.

Uma bolsa-
uma família
amarela Brasília.

A prefeita perfeita
feita de maquiagem
da cidade miragem.

O tucano
passa seco e tranquilo
ao passar outro ano.